Apaixonados por carros antigos sabem bem quanto trabalho exige restaurar um modelo com mais de 30 anos de fabricação. Entre pesquisa e recuperação de peças, tem quem leve uma década para deixá-lo com todos os detalhes da época. Esforço e perseverança também são quesitos necessários para garantir a adolescentes da periferia uma oportunidade de trabalho e cidadania. Então, por que não oferecer a esses jovens a possibilidade de trilhar um caminho menos áspero ao debruçarem-se sobre latarias antigas que chegam a valer milhões?
A questão não só foi idealizada pela advogada Kathye Karg, como foi viabilizada por ela. Coordenadora da Comissão de Responsabilidade Social do Terceiro Setor da Subseção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ela procurou parceiros como o Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) para implementar o programa. Atualmente, 19 adolescentes, inclusive meninas, fazem aulas de funilaria e pintura no Senai com vistas à restauração de carros antigos, um novo filão de mercado.
Na segunda-feira, o grupo viajará para Águas de Lindóia, onde é realizado há 13 anos o Encontro Paulista de Autos Antigos, considerado um dos maiores eventos do ramo na América Latina. “São dois lados muito importantes. Primeiro encantar os jovens. Depois, conscientizar os colecionadores, que não estão fazendo mais caridade e filantropia. Isso é responsabilidade social. O evento é glamouroso, de uma classe social bastante alta, que pode participar fazendo a profissionalização de jovens”, afirma a advogada.
De acordo com ela, o ramo conta com poucos profissionais especializados. Concorda Alexandre Capelli, diretor do Senai em Bauru. Coincidentemente, ele também é colecionador de carros antigos. “É muito difícil encontrar bons restauradores. Não é um trabalho que você encontra em cada esquina, porém, há demanda”, diz. Os melhores profissionais do segmento devem marcar presença no encontro em Águas de Lindóia e servirão de exemplo aos novos discípulos de Bauru.
Quando chegarem lá terão a oportunidade de conhecer modelos com o dobro da idade deles. Ainda vão aproveitar a chance de conhecer a história de carros cobiçados por colecionadores. “O antigomobilismo já existe no Brasil há algum tempo, mas nos últimos anos cresceu muito. Falta mão-de-obra especializada para cuidar desses carros. Reforma e restauração são coisas diferentes. Na restauração, a pessoa faz o carro ressurgir com as mesmas características da época”, explica César Cozza, vice-presidente do Clube dos Carros Antigos.
Ele, por exemplo, restaura um Gordini 65 há dois anos. A paixão por carros, especialmente os com boas histórias, e a preocupação social garantiram apoio ao projeto de resgate de jovens carentes em Bauru.
Entre os apoiadores estão a Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), a Gráfica Coelho, a Disbauto, a Brambilla, a Óptica Cidade e o Jornal da Cidade, por exemplo. Por acreditarem na idéia, o grupo de adolescentes viajará com dinheiro para fazer as refeições. Também participará de uma festa vip, onde poucos têm acesso, mesmo entre colecionadores.
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Com curso, primos voltam à escola
Os primos Ivan Francisco Banhos Pereira de Souza, 16 anos, e Michel Douglas Pereira, 17 anos, têm muito mais coisas em comum além da família. Ambos fazem juntos o curso de funilaria e pintura para restauração de carros antigos no Senai e não descartam a possibilidade de um dia trabalharem em sociedade. Para não perder a oportunidade profissional, voltaram aos bancos escolares, há tempos abandonados.
Não estudam na mesma classe, mas a convivência deles já está mais do que testada. A família dos dois vive junta no mesmo endereço, num imóvel que acolhe 11 pessoas no Pousada da Esperança. Foi lá que souberam da oportunidade. “Por mim, todos os meus irmãos também fariam o curso”, comentou Ivan, que recentemente começou a trabalhar com pintura de carros.
“Antes achava que seria servente de pedreiro, como meu padrasto. Nunca imaginei mexer com carros”, admite. Aprovou a experiência e está ansioso com a viagem. Quer conhecer carros que ainda não teve a oportunidade de ver. Numa realidade mais próxima, o pai de Michel já avisou que, quando o filho terminar o curso, ficará com a incumbência de recuperar o Monza da família. “Vou continuar trabalhando na área. Já fiz duas entrevistas e aguardo a resposta de uma”, comenta.
• Menina
Por ser do sexo feminino, Andressa Forato Gallego é minoria na turma aberta por conta do projeto. Aproveitou a oportunidade porque já fazia curso de mecânica automobilística no Senai. “Minhas amigas estranham um pouco. A família não. Meu pai gosta muito de carro. A gente conversa sobre isso, mas as opiniões são as mesmas. O que ele não sabe e não pode passar para mim, se eu sei, passo para ele”, comenta.
Aos 15 anos, a pesquisa sobre a tonalidade das tintas aplicadas nos veículos é o que mais a agrada. Já Luís Eduardo Guerrero de Freitas gosta de qualquer coisa relacionada a automóveis desde muito novo. Até hoje coleciona carros de brinquedo. Espera um dia contar com vários dos “grandões”. Formado em mecânica pelo Senai aos 16 anos, novidades sobre carros sempre está em pauta na sua roda de amizades. “Pretendo continuar na área. É o que eu realmente gosto de fazer”, conclui.
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Ofício dá dinheiro e reconhecimento
Quando um colecionador manda restaurar um carro não tem pressa, nem dificuldade com custos, avalia Alexandre Capelli, diretor do Senai em Bauru. “Dá para ganhar dinheiro com isso. Tem muita empresa que vive disso em São Paulo. Aqui em Bauru somos nós que corremos atrás. É mais hobby. Tem gente que leva dez, 20 anos para fazer uma restauração”, acrescenta César Cozza, vice-presidente do Clube dos Carros Antigos do Centro Oeste Paulista.
Se tudo correr como prevê um projeto em estudo, o clube doará um kit em ferramentas avaliado em R$ 1 mil para cada aluno formado pelo curso de funilaria e pintura do Senai. Com elas, os jovens já poderão iniciar o trabalho, mesmo que seja na garagem de casa, informa Ubirajara Amaral Negrão, coordenador do Senai e também apaixonado por carros antigos. De acordo com ele, a idéia é sensibilizar empresários da cidade para obter o volume necessário de kits.
Por meio do projeto, os jovens participantes também freqüentam aulas de cidadania que, inclusive, ajudam a elevar auto-estima dos estudantes. Muitos deles já participaram de uma feira na cidade, que acolheu uma exposição de carros antigos. Como voluntários, cuidaram dos veículos e aprenderam um pouco da história deles e de seus colecionadores, normalmente contadas durante a visitação pública.
Disseminar a idéia
A parceria entre a OAB, o Senai e o Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista deve servir como exemplo para outros municípios que contem com as mesmas instituições. Essa é a expectativa da advogada Kathye Karg. “Nós precisamos resolver a questão da insegurança no País. O caminho é a educação. Comecei a pensar sobre isso e vi um gancho bem legal. Se tem aptidão, talento para transformar um carro, que novamente agrega valor e vale milhões, essa atividade é muito parecida com pegar uma criança na periferia e trabalhar com ela para resgatar valores. Os dois trabalhos exigem muito de nós”, diz.
Kathye Karg também tem paixão por carros, sendo os antigos parte de sua história de infância. Menos romântica com as questões práticas, ela sabe que, para garantir futuro mais digno aos jovens pobres de Bauru, é preciso perseverança. “Tem que mostrar para eles o quanto é importante. Não vão ficar numa oficina só se quiserem. Podem enxergar mais longe, embora seja algo muito longe da vida deles, tanto pela idade quanto pela classe social. O exercício efetivo da cidadania requer perseverar. Seus filhos não vão toda vez que você manda”, exemplifica.
Para ela, mais importante do que precisar, é querer. Atento a isso, o Senai está disposto a investir em outros projetos de natureza semelhante. Segundo Alexandre Capelli, a função do Senai não se limita ao emprego. Também visa capacitar os jovens a obter renda. “O aluno pode abrir uma oficina dele, por exemplo. A gente fala que a pessoa tem que ter conhecimento, habilidade e atitude. Se gosta daquilo que faz, já é 90% do caminho andado para ser um profissional de sucesso. Carro não é exceção”, ressalta o diretor.