Bairros

Reforma futura da praça terá de ser ampla

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Talvez seja possível que, quando a principal praça da cidade comemorar seus 100 anos de história, esteja diferente do estado que se encontra no momento. Ao completar 95 anos, o local não encanta mais quem passa por ela. Pelo contrário, a maior parte das pessoas relata só passar por ali para diminuir a distância a ser percorrida de um ponto a outro.

Apesar de Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) possuir mais de 250 praças que também necessitam ser recuperadas, o secretário da pasta Valcirlei Gonçalves da Silva admite que o local necessita ser reformado amplamente. Ele adianta que somente a Semma não possui recursos suficientes para reformular o local. O secretário diz que a última grande reforma no local foi realizada pela Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan). “Foi nessa reforma que as características do projeto original da praça foram alterados”, lembra.

Silva diz que ainda não existe um projeto de recuperação pronto para o local, mas admite que para executar a reforma será necessário contar com outros setores da prefeitura, como a Secretaria Municipal de Obras. O secretário relata que já conversou com o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) sobre a praça Rui Barbosa e que ficou acertado que um projeto amplo de recuperação será formulado.

Valorização

A notícia de uma possível reforma foi bem recebida por pessoas que guardam boas lembranças do local. Ary Nunes Garcia, vizinho há 85 anos da praça e que torce para que o local volte a ser valorizado pela sociedade, conta que já acompanhou todas as dezenas de reformas feitas ao longo da história da praça e que lamenta a descaracterização sofrida no final da década de 80.

“Infelizmente, a beleza e o encanto que o local oferecia para a cidade se perderam com aquela reforma, mas nada impede que outro projeto traga de volta o encanto para este local esquecido”, diz.

O secretário cita, por exemplo, que pretende na elaboração do projeto sugerir a troca de 100% do piso da praça. De acordo com ele, o material utilizado atualmente já está com seu prazo de validade vencido e por isso terá que ser substituído em sua totalidade.

“Mas essa troca deve ser feita de uma só vez, por isso, o piso que está lá terá que agüentar mais um pouco”, lamenta. Em diversas partes da praça, rachaduras e até buracos podem ser encontrados facilmente.

Quem está diariamente no local torce para que a reforma dê à praça um ambiente moderno e atrativo. Benedito Gomes acredita que a cidade se encontra carente de ambientes que ofereçam lazer para as pessoas. Na sua visão, a reformulação precisa atender aos anseios de seus freqüentadores.

“Temos aqui jogadores de cartas, jovens andando de skate e vendedores ambulantes que tentam ganhar a vida no local. O ideal seria pensar uma praça que atendesse a todo esse público de maneira harmoniosa”, sugere.

Enquanto isso, alguns torcem que a reformulação que está nos planos do município resgate no projeto original, por exemplo, os lagos que foram desativados. Seja um novo projeto ou recuperação do original, todos concordam que a praça que abriga a Catedral do Divino Espírito Santo, conhecida como “marco zero” da cidade, precisa ser reformulada e cuidada.

Nilson Ghirardello, professor e vice-diretor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp de Bauru e idealizador do projeto da Praça da Paz, outro logradouro bastante querido dos bauruenses, acredita que somente um bom projeto arquitetônico e paisagístico não é suficiente para atrair antigos e novos freqüentadores para esses locais.

De acordo com ele, a vida nesse espaços faz com que ela se autovigie. Dessa forma, o professor defende que as praças públicas de Bauru ofereçam opções para atrair grande movimentação ou concentração de pessoas tanto durante o dia quanto no período noturno.

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Investimento na época provocou divergências

Nem sempre a praça principal da cidade foi chamada de Praça Rui Barbosa. O local, em toda sua história, sofreu muitas modificações em ralação a seu nome, alguns oficiais e outros dados pelo povo bauruense. Largo da Matriz, Jardim Público, Coronel José Ferreira Figueiredo, Doutor Cerqueira César e Marechal Bittencourt. Em 1923, ano da morte do senador Rui Barbosa, a cidade resolveu homenageá-lo dando seu nome à praça mais importante da cidade.

Se por um lado a beleza do local encantava as pessoas, por outro revoltava. Na imprensa da época, o contraste da praça com o restante da cidade foi o assunto principal durante muito tempo. A iluminação abundante não condizia com a maior parte da cidade, que vivia na escuridão. O mesmo se dizia dos lagos artificiais transbordantes, quando nas casas a falta de água era quase diária.

Na época, a Praça Rui Barbosa foi chamada de “conto das mil e uma noites” pelo jornalista Carlos Marques, editor do jornal O Tempo. Críticas e elogios eram feitos a todo momento pela magnitude da obra. De uma forma ou de outra, a praça foi adotada pelos bauruenses como o local preferido da sociedade na época.

De acordo com Luciano Dias Pires, pesquisador da história da cidade e jornalista responsável pelo Bauru Ilustrado no Jornal da Cidade, era na praça que a cidade recebia os visitantes ilustres que passavam pela cidade, e nela também eram realizados os principais eventos do município.

“Os primeiros carnavais de Bauru foram realizados em volta dessa praça. Os carros alegóricos da época desfilavam para o público, que assistia da praça”, recorda.

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Capela deu lugar à praça

Antes mesmo de ser construído o Jardim Público de Bauru, primeiro nome dado à Praça Rui Barbosa, já era motivo de polêmica. Na época, a urbanização da antiga praça municipal foi um grande acontecimento, principalmente pelo investimento pesado feito pelo município, que construiu dois lagos artificiais, pontes de cimento que simulavam madeira, jardins, iluminação perfeita e calçamento.

A existência da antiga capela do Divino Espírito Santo, além de não combinar com o projeto moderno adotado para a praça, também limitava a execução do projeto. Dessa forma, Igreja e Município entraram em atrito. Que de acordo com o historiador e jornalista Luciano Dias Pires, a polêmica aumentou ainda mais quando, em uma certa manhã, a capela foi encontrada destruída.

Pouco tempo depois, as arestas foram aparadas e ficou tudo acertado com a construção da nova Igreja Matriz mais afastada, para que o projeto da praça pudesse ser executado por completo. A matriz construída na época foi substituída pela Catedral atual em 1955. A praça foi entregue à população no dia 12 de abril de 1914.

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