Só mesmo pais e mães para declarar o quão importante, normalmente, são as visitas ao pediatra de confiança. Mas justamente a consulta, muitas vezes demorada, tornou-se uma das vilãs da especialidade. Mal remunerada, é a principal fonte de rendimento do médico. Em outras áreas, o profissional conta com cirurgias ou procedimentos específicos, que ajudam a melhorar o orçamento mensal.
Sem a prerrogativa, para muitos pediatras em Bauru, não vale mais a pena manter o consultório. Preferem dar plantão em pronto-atendimentos, onde as ofertas de emprego são vastas e a compensação financeira, mais adequada. A situação não é uma peculiaridade local. Afeta profissionais em todo o País. Não à toa, a procura por residência médica em pediatria segue curva descendente há pelo menos cinco anos.
O contexto é confirmado pelo coordenador da Comissão de Residência Médica da Faculdade de Medicina de Marília (Famema), Tarcísio Ribeiro Machado. De acordo com ele, neste ano, sobraram duas vagas. Na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, elas sempre são preenchidas, porém a procura caiu em relação ao ano anterior, informa a assessoria de imprensa. A diferença de rendimento entre as áreas da medicina fez até com que pediatras de Bauru voltassem à residência médica para dispor de outra especialidade. Ainda assim, erra quem acredita na escassez desse tipo de profissional na cidade. Segundo portaria do Ministério da Saúde, deve haver 0,2 médico da especialidade para cada mil habitantes. Considerando que a população bauruense está estimada em 357.132, seriam necessários 71 pediatras.
Plantões
Bauru conta com número semelhante, conforme a avaliação de especialistas consultados. Mas, de acordo com vários deles, o total é alto quando a referência são os consultórios. Porém, o mesmo volume de médicos não é capaz de garantir escala de trabalho confortável em todos os plantões em funcionamento atualmente.
Os pediatras se dividem em atendimentos no Hospital Estadual, no Pronto-Atendimento Infantil (PAI), no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (Centrinho), na Maternidade Santa Izabel, no Hospital da Unimed, no Prontocor e São Lucas, por exemplo. Somente nesses locais, entre dia e noite, seriam necessários 28 profissionais de plantão. Como a demanda é grande, a escala em muitos locais fica apertada.
Por conta da situação, por uma questão de logística, a Unimed Bauru suspendeu o pronto-atendimento pediátrico anteriormente oferecido no hospital da Beneficência Portuguesa. O Hospital de Base também não conta mais com pediatria para atender convênios.
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“Mercado regulará”
O mercado regulará a crise pela qual passa a pediatria, na avaliação do presidente da Unimed Bauru, Ajax Rabelo Machado. Também conselheiro do CRM e pediatra, ele acredita que quando o especialista faltar no mercado, será melhor remunerado. “A saída é a sociedade que vai descobrir. É uma grande reflexão que a sociedade tem que fazer”, avalia.
De acordo com ele, outras especialidades que dependem especialmente de consultas passam pela mesma dificuldade. É o caso da clínica-geral e reumatologia, por exemplo. “O fenômeno chama mais atenção na pediatria porque tem uma função social mais vista. Falta pediatra no Pronto-Socorro e isso é chamativo, mas falta psiquiatra também. Essas especialidades não têm os chamados procedimentos”, acrescenta.
Segundo Ajax, a tabela de honorários médicos da Associação Médica Brasileira não faz diferenciação entre consultas, apesar das circunstâncias específicas de cada especialidade. Para piorar, embora os médicos ainda pareçam uma categoria unida, já não são mais. “São muito individualistas. Algumas especialidades são unidas, como anestesiologia e oftalmologia, por exemplo. Hoje em dia, as associações médicas ficaram um pouco enfraquecidas e as sociedades (como a Brasileira de Oftalmologia, por exemplo) tomaram esse espaço”.
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Plano de saúde x SUS
O valor pago atualmente para consulta médica por planos de saúde eqüivale ao que o Sistema Único de Saúde (SUS) pagava há 20 ou 30 anos. A comparação foi feita por Carlos Alberto Monte Gobbo, conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM).
“Na época, motivou a criação desses planos de saúde suplementar para melhorar um pouco a remuneração do médico. O SUS pagava muito mal. Hoje, o SUS paga muito pior e uma consulta médica paga por muitos planos de saúde é muito próximo ao que o SUS pagava antigamente. Hoje, o pediatra tem que fazer muita consulta com plano de saúde para sobrar alguma coisa para ele. É uma profissão veementemente clínica”, reitera.
De acordo com ele, o máximo de procedimento possível para remunerá-los um pouco melhor é a recepção de bebês. Conforme a reportagem apurou, os planos de saúde pagam por consulta entre R$ 28,00 e R$ 35,00. Já a remuneração no SUS segue outro critério (por horas trabalhadas). Ainda segundo Gobbo, o desinteresse do médico no sexto ano para com a especialidade tem ainda outra razão. Na rede pública, ele corre uma porção de riscos.
“Trabalham em locais mal equipados, com carência de recursos, demanda muito grande de pacientes. Traz um risco maior de errar, de fazer atendimento mais superficial”, explica. Segundo o conselheiro, a questão será discutida no encontro pela valorização do SUS, que será realizado em São Paulo.
“Não existe hoje uma política séria de atenção básica. O CRM está lutando para que o governo assuma um plano de carreira e salário. Isso em nível municipal, estadual e federal. Para que os médicos se fixem na cidade. O Estado passou para o município a atenção primária e urgência e emergência”, comenta.
Porém, o encargo não veio acompanhado de orçamento suplementar, afirma. “O que muitas cidades se limitam a fazer é ganhar ambulâncias do Estado para colocar os pacientes e jogá-los numa cidade maior”, conclui.
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Hospital-escola
A valorização do pediatra passa por várias medidas, na opinião do professor Antônio Zuliani, chefe do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu. Para ele, órgãos como a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) devem tomar providências nesse sentido.
“É preciso ainda ter hospitais de excelência na área da pediatria. Temos que ter equipamentos adequados e um ambiente acolhedor, adaptado para o atendimento à criança e ao adolescente. O ideal seria haver centros que atuassem nas áreas social e educacional, em parcerias com hospitais-escola, como é o caso do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB)”, explica.
Zuliani acredita que o ensino da pediatria precisa ser revisto e adequar-se aos novos tempos, valorizando a semiologia e a reciclagem dos conhecimentos do profissional em todas as outras áreas de atuação, através de ambulatórios de especialidades, informa por meio da assessoria de imprensa.
“Hoje, o tipo de criança a ser atendida e as doenças apresentadas por elas são bem diferentes daquelas de 30 anos atrás. O público infantil, atualmente, sofre do aumento do colesterol, obesidade, distúrbios psiquiátricos, que não eram comuns no passado. São as chamadas ‘novas doenças’, decorrentes de mudanças nos hábitos alimentares, sociais. Os pais também precisam se conscientizar e, quando precisarem, levar seus filhos em especialistas, não em médicos de adultos. Somente assim os graduandos poderiam se interessar muito mais pela pediatria”, finaliza.