O estoquista Eduardo Vitor enconomizou horas de sono para tentar uma consulta médica para o filho de 3 anos no Pronto-Atendimento Infantil, anteontem. Ele trabalha de madrugada, chegou em casa às 5h (após o expediente) e às 11h já estava a caminho de atendimento médico para o pequeno Gabriel. “Criança não sabe esperar, ainda mais com dor”, comenta.
Persistente, quase três horas depois, mesmo sem se alimentar, permanecia no local. “Comprei um lanche e um suco para ele. Já passou pela pré-consulta, mas não tenho previsão de quando será atendido”, comenta. Pai de outras duas crianças, já permaneceu no local por cinco horas até ser atendido, em outra oportunidade. De acordo com o estoquista, que mora no Pousada da Esperança, as senhas para pediatria na unidade básica de saúde do bairro apenas são distribuídas às segundas-feiras.
“É muito concorrido. Só distribuem 16”, explica. O mesmo problema foi enfrentado por Juliana Cristina Barreto. Sem alternativa, se dirigiu ao PAI onde aguardava um pediatra para a filha de colo, há duas horas. “Só têm dois pediatras aqui hoje”, afirma. Atualmente, a Secretaria Municipal de Saúde tem déficit de seis desses especialistas. Conta com outros 47 para atendimento no PAI e na rede básica.
Plano de cargos e salários
Na tentativa de aplacar o já histórico problema na saúde pública municipal, o responsável pela pasta, Fernando Monti, informa que trabalha em várias frentes. Entre elas, a física. “Estamos com todo um plano de reformulação das unidades. Este ano estamos cuidando basicamente de duas unidades de pronto-atendimento, a do Mary Dota e Ipiringa. A questão de equipamento não tem grandes problemas”, explica.
Ele defende ainda que os profissionais da saúde participem da concepção de programas médicos. “A tradição do setor saúde é assim: um grupo que fica na concepção e outro executando. Essa é uma visão muito ultrapassada. Queremos que participem”, diz. Mas o esforço dessa atual gestão, que talvez mais agrade os profissionais da área, é justamente o plano de cargos e salários, já em elaboração.
“Estamos fazendo um estudo bastante profundo, gostaria que ficasse pronto em um mês, mas é demorado. Vai beneficiar todos os profissionais de saúde. Vai ser um proposta, que se traduzirá em projeto de lei. Vai depender de aprovação da Câmara, tem uma interface com a viabilidade financeira, se vai ter crise ou não. Mas nós temos o reconhecimento hoje que existem muitas distorções”, acrescenta Monti.
Segundo o secretário, em última instância, está em curso uma reorganização sistêmica da saúde. “Dentro do plano de cargos e salários queremos fazer a criação de novas modalidades de remuneração, como a de plantão. Não temos mecanismos para pagar um plantão. Temos apenas um sujeito contratado pela carga horária. Queremos dinamizar a saúde, dar mais flexibilidade”, explica. As medidas beneficiarão, inclusive, os pediatras, cujo interesse poderá ser despertado.