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O ‘dono’ da rua mais famosa de Bauru

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Corria a década de 1890. Os vereadores do recém-criado município de Bauru resolveram votar projetos de lei que conferiam nomes a algumas vias da cidade. A mais antiga ganhou nome de Araújo Leite, em homenagem ao primeiro juiz de paz. A rua perpendicular ganhou o nome de Primeiro de Agosto, alusão à data em que o distrito de paz foi elevado à condição de sede do município.

A rua paralela foi chamada de Ezequiel Ramos, em honra ao senador estadual (naquele tempo, o Poder Legislativo paulista tinha uma câmara alta e outra baixa) que lutou para que o povoado de Bauru fosse reconhecido como sede de município. Já outra via acabou batizada de Costa Ribeiro, homenagem aos irmãos José e Francisco Pereira da Costa Ribeiro, o primeiro, alto funcionário da Secretaria da Fazenda; o segundo, vereador na cidade.

Indignado, o comerciante João Batista de Carvalho desmontou um caixote de madeira, apanhou uma tábua, escreveu nela algumas palavras e depois a fixou em um poste da rua onde morava. A placa levava os seguintes dizeres: “Rua dos Esquecidos”.

Batista de Carvalho, um dos pioneiros de Bauru, tinha sido vereador, nos tempos em que a sede do Município estava localizada em Fortaleza. Exercia ainda a função de juiz de paz e possuía um armazém de secos e molhados na cidade.

“Ele achava que também merecia ter recebido uma homenagem da Câmara. Por isso, resolveu fazer aquele protesto”, afirma o historiador bauruense Gabriel Ruiz Pelegrina. O comerciante faleceu em 10 de maio de 1901. Três anos mais tarde, o então prefeito Gérson França decretaria: “A partir desta data, a rua dos Esquecidos passa a ser denominada rua Batista de Carvalho.”

Se, por um lado, João não teve a chance de presenciar a homenagem em vida, teve a sorte de ver a via que leva seu nome se tornar a mais famosa da cidade. Atualmente, a Batista de Carvalho é considerada a principal rua de comércio em toda a região.

Nem sempre foi assim. Nos tempos em que João Batista de Carvalho era vivo, a economia de Bauru girava em torno da Araújo Leite. Em 1905, com a chegada da Estrada de Ferro Sorocabana, a antiga rua dos Esquecidos passou a representar o principal acesso à Estação Ferroviária.

Em poucos anos, vários estabelecimentos comerciais foram surgindo ao longo da via. Hoje, é difícil encontrar alguém que more num raio de pelo menos 100 quilômetros de distância de Bauru e nunca tenha ouvido falar na rua Batista de Carvalho.

João Batista - ou Baptista, segundo explica o pesquisador bauruense Irineu Azevedo Bastos, que por sinal, é bisneto do pioneiro - de Carvalho nasceu em 1823, na cidade mineira de Caldas.

Um breve relato biográfico escrito pelo filho mais velho, Olímpio, já falecido, afirma que João era “filho de Manoel Luiz Batista, parente de uma família Ribeiro, de Minas Gerais, que tinha o apelido de Alemão, por ser ruivo e de olhos azuis”. O avô João Mendes de Carvalho havia sido vereador em Araraquara.

João Batista de Carvalho passou por Araraquara e Descalvado. Mais tarde, fixou residência em Lençóis Paulista. Ali, no ano de 1872, casou-se com Maria Agostina de Jesus, com quem teve sete filhos: Olímpio - originalmente, explica Irineu Azevedo Bastos, o nome dele era grafado com “y” (Olympio)-, o mais velho; João Batista de Carvalho Filho, que se tornaria prefeito em Penápolis; Deoclecina; Antônia; Maria Mendes de Jesus, avó de Irineu; e Juventina.

Transferiu-se para Espírito Santo do Fortaleza em 1885. Dois anos mais tarde, seria eleito vereador para a primeira legislatura do recém-criado município. Em 1889, mudou-se para Bauru e foi morar em um casebre situado nas proximidades do ribeirão das Flores, onde hoje está instalado o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Bauru.

Católico fervoroso, João participou da comissão que construiu a primeira capela da cidade, por sinal, localizada a pouco mais de 200 metros de sua residência. Por ironia do destino, em 1914, a igrejinha acabaria sendo demolida para que a rua Batista de Carvalho pudesse ser prolongada.

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Humildade

De acordo com a neta Vera Regina Fava Paccola, 62 anos, o pastor Olímpio Batista de Carvalho, filho do pioneiro João Batista de Carvalho, era um homem humilde. “Eu me lembro que, certa vez, quando eu era criança, uma vizinha disse que estávamos cometendo pecado, pois havíamos comido carne na Semana Santa. Fiquei preocupada e fui perguntar ao meu avô o que ele achava de tudo aquilo. Aí, ele me respondeu: ‘Se o ato escandaliza seu próximo, o melhor é não fazê-lo’”, comenta.

Ao contrário do pai, Olímpio nunca quis saber de se enveredar pela política. “Ele apoiava o Adhemar de Barros (ex-prefeito e governador de São Paulo, inúmeras vezes candidato a presidente da República), assim como eu. A diferença é que eu subia em palanques para fazer discurso, ao passo que ele era mais contido. Uma vez, perguntei a ele se era pecado orar para que o Adhemar ganhasse a eleição. Ele me disse: ‘Você deve pedir a Deus para que o melhor vença!”, conta a professora aposentada Enira Batista de Carvalho, 87 anos, filha de Olímpio.

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