Fórmula do sucesso na profissão e família
Apenas 37 anos e já eleita a melhor pesquisadora do mundo no estudo de cáries pela Associação Internacional de Pesquisa Odontológica (IADR). Marília Afonso Rabelo Buzalaf é um orgulho para Bauru.
Quando criança, ao invés de bonecas, os presentes que mais chamavam a atenção de Marília eram os kits de ciência. Desde cedo, ela já sabia o que queria fazer quando crescer: pesquisar em benefício da sociedade que custeia seu trabalho, como ela gosta de dizer.
A dedicação às pesquisas já rendeu mais de 100 artigos científicos publicados e a criação de alguns produtos, como a pasta de dentes com menos flúor para o combate da cárie e da fluorose infantil. Além da ciência, a família tem grande espaço na vida da pesquisadora que, acredita na união da vida pessoal e profissional, como a fonte da felicidade humana.
Mãe de trigêmeos, Marília Afonso Rabelo Buzalaf é professora e pesquisadora do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), da Universidade de São Paulo (USP), e especialista em cariologia. Leia os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - No ano passado, você foi eleita a melhor pesquisadora do mundo no estudo sobre cáries. O que foi esse prêmio?
Marília Afonso Rabelo Buzalaf - Na verdade, esse prêmio não foi decorrente de uma única pesquisa. O pesquisador é inscrito com todo seu currículo na área da cariologia, ciência que estuda cáries. Um sócio da Associação Internacional de Pesquisa Odontológica (IADR) deve indicar uma pessoa com o perfil adequado para ganhar o prêmio. Fui indicada por dois pesquisadores, uma brasileira e um americano. Trabalho nessa área desde que entrei na faculdade e toda a minha produção científica foi levada em consideração. Na época do prêmio, eu tinha por volta de 120 artigos publicados. Soube que tinha ganho em fevereiro, mas o prêmio foi entregue em um congresso no Canadá, em julho do ano passado.
JC - Qual é a característica básica da sua pesquisa?
Marília - Eu trabalho, principalmente, com compostos capazes de prevenir a cárie e a erosão dentária. Dentro da cariologia, existe a erosão, um problema causado pelo consumo de bebidas ácidas, entre outros fatores, que causam perda dos minerais que compõem o dente. Dentre os compostos estudados, o mais importante é o flúor, que previne tanto a cárie quanto a erosão. Porém, seu uso não deve ser em excesso porque causa a fluorose dentária, um problema vindo, acredita-se, da pasta de dente.
JC - A pasta de dente criada por sua equipe é um dos resultados da pesquisa?
Marília - Sim. As crianças costumam engolir boa parte do pasta de dente colocada na escova, principalmente as que têm sabores. Esse é um dos motivos que nos levou ao estudo, por cinco anos, da utilização de um creme dental com menos flúor que o normal. O problema é que não existe consenso entre os estudos sobre a eficácia desse produto no combate às cáries. Por isso, resolvemos fazer uma pasta com a metade do flúor das convencionais. Para assegurar seu sucesso no combate às cáries, diminuímos o PH da pasta. Com ela, a criança está prevenida contra cárie e, possivelmente, livre da fluorose. No final do ano passado, a Universidade de São Paulo (USP) fez uma olimpíada de inovação e inscrevemos nossa pasta. Havia mais de 400 projetos inscritos em diversas áreas. Fomos os vencedores.
JC - O creme dental ‘bauruense’ chegará ao mercado?
Marília - Fizemos um teste durante 20 meses, em que 1,4 mil crianças com 4 anos de idade usaram a pasta de dente. Nosso produto é simples e inovador. O ideal dele é a sua aplicabilidade e o alcance social. O produto foi patenteado pela USP e estamos em fase de negociação com algumas empresas para decidir quem vai colocar o produto no mercado.
JC - Para você, qual é a função da ciência?
Marília - É gerar conhecimento. O cientista deve ter em mente que a sua ciência deve ser aplicada e gerar benefício para a população. Porque, na verdade, quem sustenta as universidades públicas é a população. Então, o que pesquisamos deve ser transformado em produtos ou procedimentos clínicos que beneficiem a sociedade, como essa pasta que criamos, por exemplo.
JC - Você sempre quis ser cientista?
Marília - Quando criança, pensava em ser médica. Mas, sempre gostei de kits de ciência, misturava muitos ingredientes para fazer perfume, por exemplo. Uma vez, eu tinha uns 7 anos de idade, e estava na fazenda de um tio quando uma cobra enorme apareceu. Então, o pessoal a matou, eu peguei uma faca e abri a cobra para ver o que tinha dentro. Havia um rato na barriga dela. Não contente em cortá-la, abri o rato também. Peguei o coração dele, coloquei em um vidro com álcool e guardei aquilo por anos. Sempre fui muito curiosa e adorava descobrir e pesquisar coisas. Tanto é que me formei em odontologia mas nunca fui dentista, antes de acabar a faculdade já estava “mergulhada” nas pesquisas.
JC - Seus pais percebiam sua tendência para o mundo da ciência?
Marília - Sim. Eles percebiam e me incentivam. Independente de qualquer coisa, meus pais fizeram questão de nos dar a melhor educação. Eu gostava muito de ler e minha mãe vivia comprando livros para mim. Era mais fácil me ver com livros do que com bonecas ou outros brinquedos.
JC - Sua juventude foi dedicado aos estudos?
Marília - Eu sempre fui muito dosada com os estudos, namoro e lazer. Ficava em casa e estudava todos os dias, mas os finais de semana eram sagrados para a diversão. Acredito que uma pessoa não consegue ser feliz se dedicando apenas a um lado da vida. Devemos dividir nosso tempo entre os estudos, trabalho, vida social e familiar. Não sou uma pessoa que passou a juventude apenas com os livros. Eu estudava bastante, mas me divertia também. Comecei a namorar meu marido muito cedo, tinha apenas 13 anos.
JC - Então você teve apenas um namorado?
Marília - Essa é uma boa história. Moramos na (rua) Araújo Leite por muito tempo, tínhamos a mesma lavadeira, eu conversava com as irmãs e com a mãe dele, nossos pais eram amigos, mas eu nem sabia da existência dele. Então, fui ao casamento de uma prima do meu pai, que morava em frente à casa da irmã gêmea da minha sogra. Ela havia se mudado da rua Araújo e lembrava de mim como criança. Quando ela viu que eu havia crescido, me apresentou para o Cláudio (o marido), que na época tinha 16 anos. Eu nunca havia saído de casa sozinha, e ela pediu autorização para meu pai. Então, saímos do casamento com as irmãs dele e fomos para um barzinho. Depois de um mês, já estávamos namorando e não nos largamos mais.
JC - Qual é o espaço que a família tem na sua vida?
Marília - A família é a base de tudo e vem em primeiro lugar. Comecei a fazer medicina em Botucatu, mas fiquei lá apenas uma semana. Já namorava há quatro anos e tinha que ficar longe dele e da minha família. Juntando esse fato e o de meu pai ser dentista - eu achava a profissão dele muito interessante -, decidi cursar odontologia aqui na FOB-USP, que é uma ótima referência.
JC - Há quanto tempo você dá aulas na FOB?
Marília - Sempre gostei de pesquisar. Acabei a graduação e já comecei meu mestrado, aqui mesmo. Então, surgiu uma vaga para docente aqui na bioquímica e eu ainda não tinha doutorado. Porém, para minha sorte, foi aberto o concurso e nenhum doutor se inscreveu, o que fez com que abrissem a vaga para mestres. Defendi minha dissertação, prestei o concurso e comecei a lecionar em 1996. Depois fiz doutorado e alguns pós-doutorados curtos nos Estados Unidos e na Inglaterra.
JC - Encontrou dificuldades ao longo do caminho?
Marília - Muito. Acredito que, quando canalizamos nossas energias e deixamos nosso potencial aflorar, conseguimos coisas que as pessoas acham impossíveis. Temos que lutar e insistir, que uma hora acontece, e isso em qualquer área da vida. Por exemplo, me casei aos 20 anos e só consegui engravidar aos 27. Eu não conseguia engravidar, mesmo não tendo problemas, nem meu marido. Foram momentos difíceis, mas superados. Fiz tratamento, consegui realizar esse sonho e aconselho as mulheres que estão com dificuldade de engravidar para que não desanimem e façam o tratamento sem medos.
JC - O que a cientista Marília faz nos raros momentos de folga?
Marília - Gosto de ler, ir ao cinema e à academia. Tenho uma loja que funciona para mim como anti-stress. Vou até lá, cuido da parte financeira e até me arrisco a desenhar alguns modelos de roupas.
JC - Sendo uma mulher de sucesso profissional e pessoal, o que você tem a dizer sobre a mulher atual?
Marília - Acredito que, hoje, as pessoas não estão conseguindo unir o lado pessoal com o profissional. Vejo muitas mulheres que se dedicam, exclusivamente, à carreira e deixam de lado a estrutura familiar. E, quando se dão conta, os anos passaram e se vêem sozinhas. Isso acontece com os homens também. Na noite, por exemplo, os jovens querem sair e se relacionar com muitas pessoas, não se preocupam com o lado sentimental, apenas com o prazer. É muito importante esse lado afetivo. Construir uma família, ter com quem dividir os sonhos, problemas e as alegrias do cotidiano. Converso sempre com meus filhos sobre a importância de saber dosar a vida e dar valor à família.