Cultura

Sobre mundos: O sentido da religião

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

O filme “Uma Mulher Contra Hitler”, de Marc Rothemund, retrata, sob a perspectiva da jovem Sophie, o movimento de resistência ao Nazismo organizado por estudantes em Munique. Sophie e Hans Scholl são irmãos e pertencem a um grupo de estudantes inconformados com a situação de seu país. Da simples inconformidade, os estudantes passam para uma ação de conscientização de outros alemães. Eles, porém, são denunciados por um funcionário da universidade e presos pela Gestapo.

Sophie tenta driblar o interrogatório, mas Hans confessa toda a verdade. Tanto Sophie como os outros se tornam exemplos de resistência contra um sistema desumano, um exemplo que nos falta nos dias atuais. Sem duvida alguma, hoje o inimigo não é tão nítido como na Alemanha nazista, mas justamente por isso se faz necessário a reflexão sobre as desigualdades em um país tão abundante de riquezas como o nosso.

Vivemos em um mundo movimentado por um constante processo de globalização. Isso significa um universo no qual as culturas se aproximam e as sociedades se tornam pluralistas. No caso da nossa sociedade brasileira, não somente a pluralidade de costumes e comportamentos se tornam uma realidade social, mas principalmente a pluralidade de religiões. A religião é, para o brasileiro, um aspecto importante de seu cotidiano. Porém, da mesma forma que o brasileiro precisa desenvolver um senso crítico em relação aos comportamentos, costumes, estruturas políticas, ele também necessita desenvolver em relação a qualquer religião uma santa criticidade.

A fé não pode ser cega. Afinal, uma espiritualidade séria envolve o ser humano por inteiro: individualidade, relações inter-pessoais, estrutura social. Toda expressão de fé verdadeira exige discernimento, senso crítico e principalmente conhecimento. Já dizia Mestre Eckhart: “Para se ter o miolo, é preciso quebrar a casca”. Se a fé não for acompanhada de senso crítico e conhecimento ela pode cair em enormes contradições. Esta análise crítica sobre a fé se inicia com a recuperação do significado original do fenômeno religioso.

Religião significa re-ligar, reatar algo que já esteve unido e foi rompido. Assim, religião deve ser sobretudo aproximação, convergência. Em outras palavras, a religião que gera desunião, desrespeito, isolamento, marginalização pode ser qualquer coisa, menos religião.

Principalmente para o Cristianismo, isso deve estar muito claro. Afinal, a sua tradição essencial está baseada no respeito pleno ao ser humano. São João define o próprio Deus com a palavra “amor” (1 Jo 4,8) e Jesus reafirma a tradição judaica sintetizando os mandamentos da Lei em dois: no mandamento do amor a Deus (Dt. 6,5) o associando imediatamente ao mandamento do amor ao próximo (Mt. 22, 36-40; Mc 12, 28-31; Lc 10, 25-28; Lv. 19, 18).

Isso quer dizer que, para o Cristianismo, o amor a Deus só faz sentido se ele se traduzir no amor ao próximo, que é a pedra de toque da justiça. Porém, este amor bíblico não é o amor erótico e muito menos o amor que surge da simpatia, mas sim o “agapé”, ou seja, o respeito profundo pelo outro e um engajado interesse por sua felicidade. Não é pelo cumprimento de preceitos cerimoniais ou cultuais que se honra a Deus, mas pelo socorro que se dá ao ser humano na necessidade (Mt 12, 1-8; Mc 2, 23-28; Lc 6, 1-5; 13, 10-17).

Nós seremos julgados pelo grau de respeito que possuímos para com o nosso próximo, sobretudo para com o menor de todos (Mt. 26, 31-46) e para com os inimigos (Mt 5, 42-48; Lc 6, 27-35). O Cristo chega a ridicularizar com a parábola do “Bom Samaritano” (Lc 10, 29-37) aqueles religiosos que seguiam os preceitos e não praticavam o amor. Nesta parábola um pagão demonstra mais amor que um sacerdote e um levita. Santo Irineu afirmou que Deus se fez como nós para que possamos nos tornar como Ele.

Portanto, religião deve ser um processo de deificação do ser humano, caso contrário é algo perigoso, instrumento de escravidão, exploração ou alienação. Quem se diz religioso deveria, apesar de todos os dogmas de sua religião, afirmar como o místico islâmico Ibn Arabî: “meu coração abriu-se a todas a formas. Ele é um pasto para as gazelas e um convento para os monges cristãos, um templo de ídolos e a Caaba do peregrino, as tábuas da Tora e o livro do Corão. Eu pratico a religião do amor; seja qual for a direção na qual suas caravanas avancem, a religião do amor será minha religião e minha fé”.

Louvar a Deus, portanto, não pode significar um viver pequeno-burguês em uma sociedade, na qual a maioria está desprovida de educação, saúde, emprego, enfim, da dignidade como pessoas humanas.

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