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Bauru homenageia ‘xerife' J.J. Cardia

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

O delegado de polícia aposentado J.J. Cardia morreu ontem, em Bauru, aos 67 anos. Ele estava hospitalizado desde a última sexta-feira na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base. Por volta das 3h50 de ontem, faleceu vítima de uma parada cardiorrespiratória causada por complicações em órgãos vitais, em decorrência de um câncer.

O velório foi feito no Centro Velatório Terra Branca durante a manhã e à tarde. Cardia foi sepultado no Cemitério do Jardim do Ypê, por volta das 16h45. Os familiares receberam o apoio de integrantes das polícias Civil e Militar, amigos e pessoas que conheceram o delegado. A carreata até o cemitério seguiu com batedores da Polícia Militar abrindo o caminho.

O sepultamento foi rápido. Com uma prece e uma salva de palmas, Cardia desceu ao túmulo. Em seguida, o silêncio simbolizou a admiração por um policial dedicado à causa da segurança pública.

O delegado seccional de Bauru José Henrique Gomes dos Santos ressaltou que Cardia desempenhava as atividades policiais com a mesma intensidade que se sentia orgulhoso por ser delegado de polícia. “Era uma pessoa, entre os policiais que conheço e convivo, que posso afirmar com certeza que era o mais orgulhoso do cargo de delegado”, define Santos.

O delegado Ronaldo Divino estava muito emocionado durante o velório. “J.J. era tudo. Foi uma página da Polícia Civil que virou”, afirma Divino. O delegado assistente da delegacia seccional de Bauru, Adib Jorge Filho, diz que o delegado era uma pessoa que amava a instituição (Polícia Civil). “Ele era obstinado em dar o melhor de si para atender as pessoas. Às vezes, em detrimento até da família”, destaca.

Sabedoria

J.J. Cardia, que ficou conhecido com o “xerife” de Bauru, foi delegado por três décadas. Durante 17 anos, comandou a Delegacia de Investigações Gerais (DIG-Garra). Nesse período, conquistou respeito em todos os segmentos da sociedade bauruense e nas polícias Civil e Militar.

O policial da DIG Antonio Alício Tomazini comenta que, dos seus 26 anos na polícia, em grande parte trabalhou sob o comando de Cardia. Ele diz que o sucesso de J.J. Cardia foi administrar a delegacia especializada com “sabedoria e inteligência”. “Foi um dos delegados mais atuantes. Era um companheiro que não deixava ninguém na mão. Era um excelente coração e um companheiro na atividade policial”, afirma.

Cardia provocava medo nos marginais. Ele era um entusiasta de investidas em operações com as equipes do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra). O major PM Nelson Garcia Filho destaca a fama de “autoridade” mantida pelo delegado. “Eu admirava que, na época em que era tenente e tinha que apresentar ocorrências, ele vinha a qualquer hora de casa para abrir a delegacia. A dedicação dele era fantástica, porque vivia a polícia. Era um delegado temido”, elogia.

Ontem, dezenas de policiais civis da Seccional de Bauru, dos distritos, do Plantão Policial, das delegacias especializadas e de delegacias da região de Bauru suspenderam sua rotina diária para homenagear Cardia. Também estiveram no velório e sepultamento o tenente-coronel José Humberto Nardo, representando o coronel José Guerra Júnior, que dirige o Comando de Policiamento do Interior (CPI-4); o comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI) tenente-coronel Benedito Roberto Meira, e o major PM Nélson Garcia Filho.

Cabo PM

Antes de se dedicar por três décadas à Polícia Civil, J.J. Cardia foi da Polícia Militar (PM). Por isso, cultivou ótimos contatos com os PMs. De 1963 a 1976 foi o “cabo Cardia”, patente alcançada antes de sua saída para a Polícia Civil. Ele foi do Destacamento de Polícia Montada do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI). O tentente-coronel PM José Humberto Nardo destaca que Cardia mantinha uma ótima relação com a PM. Recém-chegado a Bauru, Nardo teve que apresentar uma ocorrência e Cardia de imediato reconheceu o brasão da Cavalaria em seu uniforme. O delegado já partiu para contar suas peripécias do tempo de cavalariano, quebrando qualquer gelo. “Ele sempre foi solícito e competente”, destaca Nardo.

Delegado

Nascido em Bauru em 1942, José Jorge Cardia, o J.J. Cardia, se dedicou à Polícia Militar de 1963 a 1976. Prestou concurso público e assumiu a função de delegado da Polícia Civil em 1976 e se aposentou no início de 2006. Atuou no município de Guarujá, litoral Paulista. Na região de Bauru, trabalhou nas cidades de Avaí, Balbinos, Pongaí, Uru, Duartina, Cabrália Paulista, Pirajuí, Piratininga, Presidente Alves, Reginópolis e Lençóis Paulista. Posteriormente, em vários distritos policiais de Bauru. Durante 17 anos comandou a Delegacia de Investigações Gerais (DIG-Garra) em Bauru. Ao se aposentar, abriu uma empresa de segurança privada.

Faleceu ontem em Bauru, aos 67 anos. Deixou a esposa Ubiraci Alves da Silva Cardia, sua mãe Geralda Cardia, os filhos Gleiner, Hudson e Fred, os netos Gleiner e Gleison e a bisneta Ana Júlia, de 6 anos.

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Delegado era temido e respeitado

O delegado de polícia J.J. Cardia solucionou inúmeros homicídios, latrocínios, roubos, seqüestros, desmontou quadrilhas e esquemas criminosos, atuação que lhe valeu o tratamento como “xerife de Bauru”. Em uma reportagem divulgada no JC ele foi descrito desta forma, e seu filho Hudson Cardia lembra que o pai fez questão de guardar a matéria em uma moldura.

Em um texto publicado na Tribuna do Leitor do JC em 22 de fevereiro de 2005, Vagner Diniz expressou sua admiração por Cardia. Na época, o leitor residia no município de Canoas (RS): “Que saudades de Bauru, a criminalidade abrange todas as cidades e Estados, porém, quando temos alguém realmente interessado em ajudar, tudo fica mais brando, como sempre. Parabéns para esse profissional chamado J.J. Cardia. Uns 10 iguais a ele e, com certeza, o Brasil seria melhor. Ótima matéria. Abraços.”

Naquele mesmo ano, foi presa uma quadrilha com uma lista de vários nomes de empresários para serem seqüestrados em Bauru. Uma das vítimas, que teve o nome preservado, foi entrevistada pelo JC. Um integrante da quadrilha já havia se aproximado dele propondo um negócio imobiliário que seria o chamariz para o seqüestro. A equipe da DIG, sob o comando de J.J. Cardia, se antecipou evitando que os alvos fossem sequestrados.

O comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI) tenente-coronel Benedito Roberto Meira recorda-se do tempo que ainda era capitão e mantinha contato com o delegado da DIG-Garra.

Meira relembra a teoria criada por Cardia para desvendar um caso de homicídio de difícil solução. Segundo Meira, a fórmula era deixar a história de lado por cerca de um mês. Quando as coisas esfriassem, ele intimava todos os possíveis envolvidos e pelo menos um confessava ou indicava o autor do crime.

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