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Mãe tenta enterrar bebê desde domingo

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

Com o enxoval de bebê disposto sobre a cama, Ivanete José Santos, 27 anos, não é capaz de conformar-se. No último sábado, após enfrentar as dores do parto normal, soube na Maternidade Santa Izabel que Jonathan nasceu morto, já com nove meses de gravidez completos. Pior. Apenas hoje deve conseguir enterrá-lo. O sepultamento só foi marcado para esta quarta-feira pela manhã, no Cemitério do Redentor, por meio de uma decisão judicial obtida no final da tarde de ontem.

Não bastasse conviver com a desconfiança de negligência médica, o sofrimento da família foi prolongado frente à dificuldade em se obter a certidão de óbito expedida pelo cartório. Por conta de uma suposta contradição no documento fornecido pela maternidade, o órgão informou impossibilidade em emiti-lo. Sem a certidão, a Funerária Municipal se recusou a fazer o sepultamento sob o risco de cometer uma ilegalidade.

O corpo do bebê, pesando 3,80 quilos, foi encaminhado ao necrotério do Hospital de Base. “Tenho vontade de pedir para vê-lo e sumir com ele no colo. Trazê-lo para casa de ônibus mesmo”, desabafou a mãe ontem à tarde, antes da decisão judicial. Jonathan morreu de parada cardiorrespiratória por anóxia – falta de oxigenação - intra-útero.

A informação consta na declaração de óbito emitido pela Maternidade Santa Izabel, onde o médico responsável declarou que o local da morte é ignorado. Ao mesmo tempo, informa o endereço da Maternidade Santa Isabel. A divergência de informações foi constatada já na funerária, que não pode enterrar uma pessoa cujo local da morte é ignorado sem o atestado de óbito. Por conta da contradição, a certidão não é emitida pelo cartório, que remeteu ontem o caso para a Justiça.

O trâmite foi necessário porque o médico teria recusado-se a refazer o documento por acreditar que ele foi formulado de modo correto. Foi procurado por funcionários do cartório e familiares de Ivanete. Ela conta que o bebê nasceu cabeludo, com a cabeça bem redonda, mas com a boca roxa. Diz ter ouvido na sala de parto que sofreu muito antes de morrer.

Histórico

Desde o oitavo mês, Ivanete se preocupava com a gestação. Na opinião dela, desde então, perdia líquido da bolsa. No entanto, nas consultas de pré-natal, foi orientada a não preocupar-se. Na quinta-feira, teve a impressão que o bebê já não mexia mais. Esteve na consulta de rotina na unidade básica de saúde. Junto com o médico, ouviu os batimentos de Jonathan, concebido dois meses depois de Ivanete dar à luz Ana Júlia, atualmente com 11 meses.

A mãe foi orientada a voltar à unidade hoje, caso não sentisse contrações. Mas elas vieram no sábado à noite, quando a família acionou uma unidade do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Cerca de uma hora após o contato, chegou à maternidade.

No caminho, os sinais vitais da paciente foram checados, informa o coordenador do Samu João Sérgio Carneiro. De acordo com ele, Ivanete só não foi atendida antes porque a viatura responsável pelo Jardim Ferraz, de plantão na Vila Falcão, atendia uma criança picada por escorpião.

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Na maternidade

Ao chegar na Maternidade Santa Izabel, Ivanete José dos Santos conta que permaneceu meia hora recebendo os primeiros atendimentos, antes de subir para a sala de parto. Quando se dirigia para lá, o médico lhe disse que não daria garantias sobre a vida da criança.

“Se ele disse aquilo, já sabia que meu filho estava morto. Mesmo assim, me deixou sentindo dores. Eu fazia força, sentia dores imaginando que meu filho estava morto. Foi horrível”, relata. A Secretaria Municipal de Saúde informou, por meio da assessoria de imprensa, que Ivanete iniciou acompanhamento da segunda gestação na unidade básica de saúde centro em 12 de março deste ano, sendo realizado exame de ultra-som no dia 16 do mesmo mês. Na ocasião, foi confirmada uma gestação de 32 semanas e três dias.

A paciente foi acompanhada pelo ginecologista da unidade, sem nenhuma intercorrência nos dias 19 e 27 de março, além dos dias 3, 8, 16 e 23 de abril. Segundo informações do médico, em todas as consultas os movimentos fetais e os batimentos cardiofetais estavam positivos.

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Maternidade afirma que todos os procedimentos foram seguidos

A Maternidade Santa Izabel informa que todos os procedimentos no atendimento a Ivanete José Santos foram feitos dentro dos padrões éticos, profissionais e técnicos. A começar pelo documento que atesta o óbito.

“Está correto, tudo dentro dos conformes”, reitera o diretor clínico e técnico da maternidade, Sergio Antonio Henrique. De acordo com ele, consta no documento um campo para informar onde o óbito ocorreu. Foi colocado ignorado porque o bebê já chegou sem vida à instituição. Portanto, não é possível precisar onde teria ocorrido. Já no campo que pede informações sobre o estabelecimento que atestou o óbito foi colocada a Maternidade Santa Izabel, informa Henrique.

De acordo com ele, o médico que atendeu Ivanete, desde o início, não conseguiu escutar o batimento do bebê. “Ela já estava com dilatação de nove centímetros. Já estava quase nascendo. Foi colocada na sala de parto e fez o parto”, explica o diretor. Ele ressalta que, mesmo em casos de óbito, a literatura médica recomenda o parto vaginal. “É padronização do Ministério da Saúde”, acrescenta. A orientação é a mesma embora Ivanate tenha dado à luz há apenas 11 meses.

Henrique confirma que a paciente teve rotura perineal (entre a vulva e o ânus). Enfrentou o problema porque o nenê já estava nascendo, informa. No entanto, pelas condições em que deixou o ventre da mãe, Jonathan havia morrido há mais de 24 horas. Como não era recente, não dava para reanimar.

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