Contrários à maneira como a delegacia regional da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), em Bauru, retomou suas atividades, músicos procuraram a reportagem do JC Cultura para expressar sua indignação. Eles questionam não apenas a fiscalização de bares e casas noturnas e a atuação do órgão, mas a própria reabertura da entidade.
Para os músicos, falta clareza no retorno da OMB de Bauru, inativa desde 2006 e reaberta sob o comando de Jarbas Basílio Sobrinho, nomeado novo delegado, em fevereiro. “Não o reconhecemos como novo delegado. Nunca ouve uma eleição. Essa reabertura foi baseada em quê? Como foi escolhido o delegado?”, questionam David Sérgio Dias e Rafael Santana de Lima.
Ambos os profissionais, descontentes com a Ordem desde a sua gestão anterior, possuem liminares que garantem o direito de se apresentarem em quaisquer estabelecimentos sem a necessidade de filiação. “Nesse período que ficamos sem a Ordem, não sentimos diferença nenhuma. Para nós, músicos, não mudou nada, porque ela não oferece benefício nenhum ao profissional”, argumenta Dias.
Roberto Bueno, presidente da OMB - Conselho Regional do Estado de São Paulo, responde que a nomeação do delegado local foi realizada após uma procura de quase dois anos por algum músico que pudesse assumir a regional. “Desde o fechamento da OMB em Bauru, estamos pagando o aluguel do escritório e procurando um novo delegado, mas nenhum músico se manifestou ou se ofereceu. A nomeação do novo delegado foi feitas às claras e devidamente informada, com publicação no Diário Oficial”, afirma o presidente.
Segundo Basílio Sobrinho, a nomeação é resultado ainda da falta de interesse dos filiados em realizar votações. “O mandato de cada delegado é de três anos. Na última gestão, o cargo foi ocupado por Fernando Machado por 15 anos. Nunca ouve interesse por parte dos músicos em eleger um novo delegado”, opina. “A necessidade de reabrir o escritório em Bauru nasceu da sobrecarga que recaiu sobre o conselho regional de São Paulo. Os músicos precisavam ir até lá ou até outras cidades para, por exemplo, fazer a carteirinha da Ordem”, completa.
Bueno reitera que a função da Ordem é a fiscalização em defesa do mercado de trabalho dos músicos. “Existe uma lei federal que tem que ser respeitada. E a finalidade da Ordem é moralizar a situação, dando valor para quem estuda realmente e para quem tem vontade de vencer na carreira. Esses profissionais vão ter todo o apoio. Hoje mesmo, tive um problema, aqui em São Paulo, de racismo. O músico foi tocar em um estabelecimento e foi vítima de preconceito. A Ordem está lutando por esse profissional e é esse o objetivo da Ordem: estar ao lado do músico”, relata.
Basílio aproveita para lembrar que os profissionais que possuem decisões judiciais que os desobrigam da necessidade de filiação, continuam a trabalhar normalmente. “Nesses casos, não será gerado problema nem para o músico, nem para a casa. O estabelecimento não será multado”, frisa.
Associação
A forma de atuação adotada pela OMB em Bauru também está entre os questionamentos dos músicos. “A impressão que tenho é que, a exemplo da gestão anterior, a Ordem vai agir de forma coercitiva, contra o músico”, afirma o cantor e instrumentista Luiz Ornelas.
Para o músico, a ausência de luta pelos interesses dos profissionais fez com que o órgão perdesse credibilidade frente à classe. “Até seu fechamento, sempre fui filiado à Ordem. De certa forma, me alegrei quando fiquei sabendo que ela iria voltar. Acredito que a categoria deve, sim, estar reunida e regularizada, mas vendo a forma como a regional foi reaberta, sem assembléias, nem votações, acho que vai ser igual ao que era antes”, acredita.
Na opinião de Ornelas, a retomada da regional deve ser pautada no diálogo. “O que o órgão precisa fazer é ouvir as necessidades dos profissionais, discutir o que cada um pode fazer pelo outro para, sobretudo, reconquistar a confiança dos músicos.”
Por outro lado, David Sérgio Dias e Rafael Santana de Lima não vêem esperança na reformulação da entidade. Os músicos bauruenses lideram a criação de uma associação dos músicos da cidade e região, a fim de unir a classe. “Não vemos mais possibilidade de contar com a Ordem. Uma associação trabalharia em prol dos músicos em questões de pagamentos, na criação de uma tabela de cachê, entre outras necessidades”, afirmam.
Segundo Basílio Sobrinho, ao contrário da gestão anterior, a proposta da OMB é basear sua atuação no diálogo e troca de idéias. “Queremos agir de maneira aberta. Desde a reabertura da Ordem, me coloquei a disposição para tirar dúvidas e receber sugestões. Queremos promover encontros, assembléias, enfim, ouvir os músicos. Mas vejo que muitos profissionais, principalmente os que estão resistindo à Ordem, não nos procuraram, nem demonstraram interesse em conversar”, finaliza o delegado.