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Dr. Automóvel: O difusor aerodinâmico da F1

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Fala-se muita besteira por aí, principalmente por formadores de opinião da mídia televisiva. Isto faz com que as pessoas se convençam de que estão bem informadas e disseminem a bobagem para outros incautos. Em todo desenvolvimento mecânico, principalmente em um projeto de ponta com altíssima tecnologia como a Fórmula 1, não acontecem milagres nem se tem espaço para chutes sortudos. Tudo é calculado e projetado para um resultado específico. Quando algo não dá certo como planejado, não faltou sorte e sim talento. Outra coisa importante é que qualquer projeto automotivo é um pacote completo e não um monte de peças montadas aleatoriamente. Tudo tem a ver uma coisa com a outra. Não é por que uma peça (um determinado pneu, por exemplo), funciona bem em um carro, vai ser fundamental para outro. Se as suspensões forem diferentes, o comportamento daquele pneu também será e poderá levar a um desempenho totalmente diferente de um carro para outro.

Com o tão falado difusor aconteceu o seguinte, em minha opinião. Quais são as equipes que o desenvolveram e que hoje estão disputando na frente? Brawn GP, Toyota e Williams. Onde estavam estas equipes na temporada passada? A Brawn GP é o que sobrou da extinta equipe Honda, que desistiu da Fórmula 1 devido à crise mundial. A Toyota e a Williams estavam no fim do grid. Como estavam mal, se dedicaram durante todo o ano passado para o carro novo, de acordo com as novas regras. As demais grandes, como Ferrari, McLaren, Renault e BMW estavam disputando o campeonato e quase toda sua engenharia estava dedicada aos carros que competiam e não no modelo do ano que vem. Daí que as 3 fraquinhas desenvolveram modelos completos, com um estudo aerodinâmico aprofundado e integral desde o início, levando à criação do difusor na traseira que muitos ainda acham como peça fundamental para o sucesso destas equipes. Na verdade todo o sistema aerodinâmico dos carros leva em consideração o fluxo completo de ar que passa por cima e por baixo dos carros, e esta diferença entre cima e baixo cria diferenças de pressão que forçam o carro contra o solo, o chamado downforce. Na verdade, é o mesmo princípio da sustentação das asas de um avião, só que invertido. O ar passa pela asa dianteira, que o direciona para baixo e para as laterais do carro, passando pelo motor e caixa de câmbio. Na parte traseira inferior do carro, abaixo do câmbio, fica o famoso difusor. Nas três equipes que o desenvolveram, os carros tem um difusor vazado que distribui a passagem de ar e melhora o fluxo, aumentando o downforce.

A interpretação das regras é como a das leis, todo mundo procura brechas para defender sua própria incompetência. As grandes equipes não tiveram tempo ou talento para descobrir esta possibilidade legal de uso do difusor e entraram com queixa na Corte de Apelação da FIA. Esta definiu por duas vezes que o dispositivo era legal e pronto, os outros tiveram que correr atrás do tempo perdido. Hoje desenvolvem difusores duplos, com outra passagem superior além da inferior. Mas o grande acerto das três pioneiras foi fazer o trabalho aerodinâmico completo. Como disse o Rubinho Barrichello, com muito acerto por sinal, não basta apenas colocar o difusor em outro carro que ele melhora. É um trabalho completo.

As equipes da Toyota e da Honda eram duas das que tinham maiores investimentos na Fórmula 1, e no ano passado investiram muito em estudos aerodinâmicos. A Honda saiu do páreo e a Brawn GP assumiu seu espólio, herdando o estudo e aplicando-o muito bem. A Toyota também fez seu bom desenvolvimento e está tendo o retorno agora. A McLaren e a Toro Rosso dispõem de difusores fechados e não vazados, que não permitem que o ar passe por baixo do carro mas sim pelo lado, assim como a Ferrari. Hoje eles têm que modificar o design da parte de baixo do assoalho, para garantir alguma chance de chegar ao pódio. A Red Bull, que tem o grande projetista Adrian Newey, já encontrou uma boa solução e vejam o que o Sebastian Vettel anda aprontando nas pistas.

Isto nos leva a concluir que todo projeto bem sucedido tem que ter uma relação de continuidade, pois todos os sistemas do carro estão interligados de alguma forma. Nossos carros de passeio precisam ter motor, freios, conforto, espaço de forma coesa para terem sucesso.

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