A menina de 6 anos que foi internada anteontem pela manhã no Hospital Estadual (HE) Arnaldo Prado Curvêllo de Bauru sob investigação de gripe suína poderá ficar isolada em quarto de pressão negativa por mais sete dias, período no qual se completam dez dias de monitoramento desde o aparecimento dos sintomas. A informação é do infectologista Edson Carvalho de Melo, membro da comissão de Controle de Infecção Hospitalar do HE.
No entanto, a principal hipótese da equipe do HE é a de que a menina não esteja com a gripe suína. O infectologista afirma, inclusive que, se for fechado outro diagnóstico nos próximos dias, a menina será retirada do isolamento e poderá até ir para casa. “Estamos trabalhando com hipóteses de doenças mais simples, como amigdalite e mononucleose. No entanto, pelo fato dela ter estado nos Estados Unidos estamos realizando os procedimentos recomendados pelo Ministério da Saúde e mantendo a menina em isolamento de contato e respiratório até sair o resultado dos exames”, explica Melo.
O material para os exames foi coletado assim que a paciente chegou ao hospital e, em seguida, foi encaminhado ao Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, para realização das análises. A equipe médica ainda não tem previsão de quando sairão os resultados. Os órgãos estaduais e federais foram notificados do caso - trata-se de um procedimento padrão.
A criança deu entrada no HE ontem com febre, dor de cabeça, dores musculares, articulares e uma tosse discreta. Por ter feito uma viagem de 20 dias a Orlando, nos Estados Unidos, com os pais, da qual retornou no dia 20 de abril, foi considerada suspeita de adquirir a gripe suína e está sendo monitorada no hospital.
Em conversa com os pais da menina, os médicos foram informados de que ela começou a apresentar os sintomas há três dias. Neste período, foi encaminhada ao pediatra da família, que iniciou o tratamento com antibióticos. Como a criança ainda não apresentava melhora, foi levada ao Pronto-Socorro da Bela Vista, de onde foi removida para o HE.
“No momento a menina está tomando apenas remédios sintomáticos. Não estão sendo ministrados antibióticos e nem medicamentos para a gripe suína. Ela está estável, tranqüila, nada que inspire maiores cuidados. Há grandes chances de não ser nada grave, inclusive já houve a regressão de alguns sintomas”, informa Melo.
Os pais e irmãos da criança estão bem e não apresentaram nenhum sintoma. Como o prazo de observação recomendado pelo Ministério da Saúde para viajantes que retornaram das áreas de risco é de 10 dias, os médicos descartam a possibilidade de contaminação da doença nestas pessoas. A menina também freqüentou a escola por menos de uma semana, mas como o caso não foi confirmado, ainda não é necessário realizar procedimentos no colégio. O nome da paciente não foi divulgado.
O infectologista frisa que não há motivo para pânico na cidade. “O medo da população é a chave para o caos. Nenhum funcionário do HE e nem a população de Bauru estão em risco. As pessoas não devem pensar que qualquer gripe já é sintoma da doença. Só é necessário o monitoramento de viajantes que retornaram dos países de risco e apresentem os sintomas”, ressalta.
O HE é um dos hospitais de referência no tratamento da gripe suína no País. Para tal, dispõe de infra-estrutura adequada e de uma equipe especializada para tratar os casos suspeitos em Bauru e nos outros 67 municípios que integram o Departamento Regional de Saúde 6 (DRS-6).
____________________
Quartos de pressão negativa
A criança de 6 anos sob investigação da gripe suína está em um dos 16 leitos de isolamento preparados pelo Hospital Estadual (HE) de Bauru especificamente para o tratamento da doença.
O ambiente desses quartos é mantido, através de aparelhos, sob pressão negativa (menor que a pressão atmosférica normal). Com isso, o ar contaminado com o vírus – a doença é transmitida através das vias aéreas – não sai do quarto devido a essa diferença de pressão. Por segurança, cada quarto dispõe ainda de uma antecâmera, também mantida em pressão negativa. Isto faz com que, no momento da abertura da porta, o ar infectado não chegue nem mesmo aos corredores da unidade. Filtros especiais localizados no teto são utilizados para possibilitar a saída de ar e eliminar os germes. As janelas são lacradas.
____________________
Máscaras não são necessárias
Embora nenhum caso da gripe suína tenha sido confirmado no Brasil e a equipe do Hospital Estadual (HE) Arnaldo Prado Curvêllo de Bauru alegar ser mais provável que a menina internada na instituição não tenha a doença, lojas de produtos médicos de Bauru têm atendido clientes interessados em adquirir máscaras cirúrgicas descartáveis.
“Não há uma procura intensa, mas várias pessoas já ligaram para ver se vendemos e saber qual é o preço. Além disso, um homem que ia para os Estados Unidos veio até aqui e comprou duas caixas de máscaras”, contou Daniele Soares, vendedora de uma loja do ramo.
Gilmara Damasceno, funcionária de outro empreendimento comercial, alegou que já foram vendidas unidades do produto. “Duas pessoas já vieram aqui e levaram máscaras. Outras ligaram perguntando”, afirmou.
A procura maior é por parte de viajantes que vão para as áreas de risco. “Algumas pessoas que iam viajar vieram aqui e levaram máscaras. Um casal que sairia em lua-de-mel resolveu vir aqui e levar umas. São mais as pessoas que vão viajar e não o povo da cidade”, diz Eveline de Campos, responsável técnica por uma loja de produtos médicos.
Questionado sobre esta iniciativa da população, o infectolgista Edson Carvalho de Melo, membro da comissão de Controle de Infecção Hospitalar do HE, disse que o uso de máscaras em Bauru é desnecessário. “A compra de máscaras é uma alternativa exagerada para as pessoas que vão ficar em Bauru. O medo é a chave dos caos, se uma pessoa começar a usar, todas vão querer aderir à idéia. Na minha opinião, não há necessidade disto neste momento”, diz.
____________________
Área de risco exige cuidado redobrado
Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou alerta global em relação à gripe suína, foram estabelecidos alguns cuidados para quem está indo ou voltando das áreas de risco, como México, Canadá e Estados Unidos.
Quem se dirige a estes locais deve usar máscaras cirúrgicas descartáveis, durante toda a permanência nas áreas afetadas; cobrir o nariz e a boca com um lenço ao tossir ou espirrar; evitar locais com aglomeração de pessoas; evitar o contato direto com pessoas doentes; não compartilhar alimentos, copos, toalhas e objetos de uso pessoal; evitar tocar olhos, nariz ou boca; lavar as mãos freqüentemente com sabão e água e não usar medicamentos sem orientação médica. As pessoas que voltam das áreas afetadas devem ficar atentas ao aparecimento de sintomas da gripe suína durante 10 dias.
Os familiares do viajante que permaneceram no Brasil não precisam usar máscaras durante o contato com quem voltar. O coordenador de infectologia do Hospital Estadual (HE) Arnaldo Prado Curvêllo de Bauru, Gustavo Kawanami, explica ainda que, na hipótese do viajante vir a desenvolver a doença, a família também será monitorada.
“Em casos deste tipo, quando uma pessoa volta do Exterior e tem contato com a família, o mais provável é que a doença não se desenvolva ou ocorra de forma branda. Mas, quando casos são confirmados, a família também é investigada”, explica. No Brasil ainda não foi confirmado nenhum caso da doença e os especialistas frisam que não há motivo para pânico.