Descaso, falta de informação e queixas constantes são elementos que marcam a rotina das unidades básicas de saúde em Bauru. Concebidos, originalmente, para fazer o trabalho de prevenção a doenças, os núcleos de saúde do município viram-se obrigados, de uns tempos para cá, a absorver um enorme contingente de pessoas em busca de atenção imediata. E o pior. É possível ao usuário fazer quantas consultas ele quiser, sem que com isso tenha a garantia de um atendimento seguro e coerente.
Como a cidade não conta com unidades de pronto-atendimento (as chamadas UPAs), os bauruenses que sofrem de alguma doença precisam recorrer aos núcleos de saúde ou ao Pronto-Socorro Central (PSC) para obter uma resposta para os seus problemas.
Com isso, tanto as unidades básicas quanto o PSC acabam se convertendo em cenários que muitas vezes lembram um campo de refugiados de guerra. Deitados no chão frio, sem direito sequer a uma proteção contra o sereno da madrugada, seres humanos se aglomeram nas portas dos núcleos de saúde, na esperança de conseguirem uma vaga para consulta.
Alguns aguardam desde as 2h, mas isso não quer dizer que conseguirão passar pelo médico. Para o cidadão comum, os métodos que regem a saúde pública do município são uma incógnita. Tudo o que as pessoas conhecem são as brechas do sistema, inúmeras por sinal.
Concebida a partir de critérios há muito ultrapassados, a Saúde de Bauru apresenta, hoje em dia, inúmeros problemas estruturais. As próprias autoridades municipais reconhecem as falhas. “Não temos uma rede de serviços. Cada lugar funciona com uma lógica própria”, admite o secretário de Saúde, Fernando Monti.
Atualmente, não há interligação entre as várias unidades de saúde de Bauru. Se um paciente quiser, poderá, no mesmo dia, ser atendido em diferentes núcleos ao redor da cidade, sem grandes dificuldades. Para tanto, terá apenas de apresentar o documento de identidade no balcão e contar com a sorte de haver uma vaga para a especialidade desejada.
Nesta semana, a reportagem do Jornal da Cidade percorreu três unidades de saúde em Bauru e conseguiu constatar de perto esse problema. Na quarta-feira, este repórter conseguiu ser atendido pelo médico duas vezes: de manhã, no Núcleo de Saúde do Centro; à tarde, no núcleo do Jardim Redentor, onde chegou a receber medicamentos gratuitos. Em ambos os casos, precisou apenas apresentar o RG e informar um endereço fictício.
“O médico do ‘posto’ deveria conhecer o paciente pelo nome, saber onde ele mora, como se alimenta, qual seu nível socioeconômico. Você jamais poderia ser um estranho no núcleo de saúde”, critica Rose Lopes, tutora em atenção básica pelo Ministério da Saúde.
Na opinião dela, seria correto que o município fornecesse a cada cidadão um cartão unificado, que permitisse acesso ao seu prontuário. “Todas as informações sobre a pessoa seriam acompanhadas pelo núcleo de saúde da região onde ela mora”, salienta.
Rose - que já foi presidente do Conselho Municipal de Saúde e hoje é coordenadora do Conselho da Vila Dutra - lembra que a rede de atenç
ão básica deveria fazer o acompanhamento e a descrição do paciente.
“O núcleo de saúde teria de ser um local que as pessoas visitassem rotineiramente para evitar ficarem doentes. Infelizmente, hoje, não é o que vem ocorrendo em Bauru. A cidade está gastando na cura de doenças recursos que deveriam ser usados no trabalho de prevenção”, afirma ela.
Hoje, os núcleos de saúde de Bauru até se esforçam para dar conta da demanda para a qual foram concebidos. Como, por lei, os médicos têm de realizar 16 consultas no período de quatro horas diárias (a idéia é que eles dediquem 15 minutos, no mínimo, para cada paciente), boa parte das vagas acabam sendo destinadas para aqueles que participam dos programas de prevenção ou controle de doenças.
O problema está nas vagas que sobram, que acabam sendo utilizadas por pacientes em busca de atendimento imediato para problemas complexos que os núcleos de saúde sequer estão aparelhados para resolver.
“Existem determinados exames e procedimentos de média e de alta complexidade que as unidades básicas não têm condições de realizar. Como o paciente não encontra no núcleo respostas para sua doença, acabará recorrendo ao PSC. O problema é que lá os tratamentos são caros demais”, salienta Rose.