Ser

Mãe é a minha profissão!


| Tempo de leitura: 4 min

A liberação feminina modificou o mundo: colocou a mulher no mercado de trabalho em definitivo, tornou-a independente financeiramente e a introduziu eventualmente no cargo de chefe de família. E alterou, também, a forma de ser mãe. Gostar do trabalho, muitas adoram. Gostar de ser mamãe, idem. Porém, ser mãe e trabalhar ao mesmo tempo é bem complicado. Tanto que muitas deixaram suas carreiras profissionais para ter os papeis mais antigos da mulher: gestação, parto e criação dos filhos. Porém quais serão os resultados, para mães e filhos, desta decisão?

A advogada Carla Sampaio, 32 anos, está com esta dúvida. Quando ficou grávida de Celeste, atualmente com 1 ano e 4 meses, tinha em seu planejamento distanciar-se por 6 meses do trabalho e logo após, voltar ao batente. O nascimento da filha despertou para outra realidade. “Eu fico sofrendo para ir pro trabalho diariamente. Desejo estar com ela o tempo inteiro. Telefono para casa diversas vezes diariamente para saber se está tudo certo. Mesmo tendo total confiança na babá que possuo. Quando ela disse a primeira palavrinha, ‘arroz’, e eu não estava em casa com ela e sim trabalhando, fiquei chateada em não estar presente nessa hora”, lamenta-se.

A vontade de estar com o filho Lucas em todas as horas está modificando a forma como a arquiteta Marcela Farias vê o seu trabalho. Com sete anos de carreira, ela tem uma vida com muito conforto. Seu trabalho, que antes era prazeroso, se transformou em suplício. “Quando tenho que ir para o trabalho, após dar o almoço para ele, eu sofro muito. E noto que ele sente isso também já que, quando me vê indo embora, fica chorando muito. Estou sem estímulo no trabalho, assim que chego no serviço já quero ir embora”, confessa.

Marcela e seu marido têm conversado muito sobre a possibilidade dela parar de trabalhar, mesmo por um tempo, para se dedicar totalmente à maternidade. “Nós podemos seguir com o nosso padrão de vida e as despesas de Lucas mesmo se eu parar. O que receio é que, depois dele crescer, eu me arrependa do que fiz: perder uma boa carreira profissional e ficar meio perdida. Tenho medo do futuro, porém, meu coração, agora, pede essa decisão”, comenta ela.

Os especialistas acham normal o receio de Marcela. Para eles, largar a carreira em nome dos filhos pode causar uma frustração. A não ser que essa situação esteja bem amadurecida, como um ciclo que acaba, um trabalho que não tem tanto gosto, essa decisão pode ser muito difícil. Já que as mulheres gostam de trabalhar e amam a maternidade.

____________________

Qualidade e quantidade

A perda de uma carreira profissional que começava sua decolagem é, atualmente, o que provoca mais frustração à dona de casa Ruth Figueira, 58 anos. Mãe de Gabriel, 31 anos, e Flávio, 26 anos, ela abdicou do trabalho quando Gabriel estava com 5 meses. “Larguei tudo. Meu marido e eu decidimos que eu não necessitava trabalhar e eu parei de bobeira”, afirma ela. Não é que ela se arrependeu de ter criado seus filhos e acompanhado bem próximo o crescimento deles - hoje já formados. “Porém, poderia ter realizado isso como diversas mulheres, trabalhando fora de casa. Conciliar esses dois papéis pode ser feito, observo pelo sucesso que certas amigas minhas conseguiram”, diz. Há dez anos, Ruth está separada do marido. De acordo com ela, foi nesse ponto que os problemas surgiram. “Eu não tive mais meu sustento próprio, não tinha trabalho. As coisas tinham se alterado bastante. Estava totalmente defasada em um mercado que já é, em geral, inchado, quer dizer, sem nenhuma oportunidade.

Já Flávio não reclama de remorso. Ele apenas se diz preocupado ao observar que, de certa maneira, sua mãe hoje depende dele. “Quando lembro que vou casar, sair de casa, fico apreensivo por ela. Se bem que, ela sozinha, os custos serão menores. Mas, de toda maneira, tenho uma responsabilidade a mais”, diz ele. “Penso que era melhor até para ela ter se mantido trabalhando fora de casa, mesmo quando éramos pequenos. Quando aconteceu o divórcio de meus pais, vi a dificuldade que ela encarou para tentar voltar ao mercado e não conseguir. A auto-estima dela ficou baixíssima, ainda mais numa situação emocional difícil”, relembra.

Para os especialistas, tantas mudanças nas funções da mulher na sociedade e na estrutura da família nos últimos anos fizeram com que surgissem situações como a de Ruth com mais freqüência. A solução para essas mulheres é tentar esquecer o passado. O que passou, passou. É necessário hoje ir à procura do desafio de passar por tantas barreiras que foram impostas. Largar a carreira profissional definitivamente para cuidar dos filhos significa um abandono de si própria. É dar prioridade à família em detrimento de si mesma. O fundamental, em uma hora como esta, é se pôr de novo em primeiro plano para voltar a ter seus reais desejos, objetivos e recursos. Um auxílio profissional neste processo pode ser valioso para superar tantas dificuldades.

Comentários

Comentários