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Comemoração pára Getúlio Vargas

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

A avenida Getúlio Vargas parou para ver a maior - e, desde ontem à noite, a mais feliz - torcida do Estado passar. Milhares de corintianos vindos de diferentes pontos da cidade tingiram a zona sul de preto e branco. Por volta das 18h, quando os primeiros torcedores começaram a chegar. O árbitro Sálvio Spindola ainda não havia apitado o final do jogo, sacramentando o empate em 1 a 1 com Santos (resultado que garantiu o 26.º título paulista para o Corinthians), mas os carros já ensaiavam um buzinaço frenético na Getúlio. Na esquina da Ignácio Alexandre Nasralla, um pequeno grupo de torcedores provocava: “Lugar de peixe é dentro do aquário...”

Não demorou muito e a galera de preto e branco começou a chegar por todos os lados, com suas flâmulas, foguetes e bandeiras. Em pouco tempo, a área mais nobre de Bauru estava tomada - era do povo. Uma multidão que, como uma vez já disse Osmar Santos, estava ali para cobrir a cidade de paixão e loucura, com uma felicidade que desabrocha e contagia as pessoas pelas ruas e avenidas.

Que o diga a comerciante Fátima Sabino, proprietária de um estabelecimento situado nas proximidades da Rádio 96 FM - local onde ocorreu a maior aglomeração de torcedores. “Estou neste ponto há quase dois anos e já tive a oportunidade de acompanhar comemorações de palmeirenses e são-paulinos. Digo para você, porém, que festa igual à dos corintianos não tem. Eles são fiéis de verdade”, afirmou ela, que é torcedora do Palmeiras, arqui-rival do Corinthians.

Do lado de fora do estabelecimento, o batuque corria solto. Quem ditava o ritmo da festa eram os irmãos Cláudio e Ricardo Borgo. “Os ‘porcos’, os ‘bambis’ e os ‘lambaris’ estão todos mortos”, desabafou Cláudio, 37 anos, que trabalha como promotor de vendas.

Os corintianos não queriam apenas comemorar; precisavam soltar um grito que estava sufocado na garganta. Até alguns meses atrás, seu clube do coração era motivo de chacota para os adversários. Havia estado na Segundona do Brasileiro e cometeu a loucura de acolher em seu elenco um jogador que era dado, por muitos, como acabado para o futebol. Não sabiam os rivais, porém, que o Corinthians é um mistério da vida - vai buscar alegria no fundo da alma do povo.

“Ronaaaaaldo!” era o grito mais ouvido no meio da festa. “Todo esse alvoroço é por causa dele (do camisa 9)”, resumiu Júnio Lopes de Aquino, que foi à comemoração acompanhado da esposa, Aline Cristiano, 27 anos, e do filho, Leonardo, 7, todos corintianos fanáticos e devidamente “fardados”.

“Agora, vão ter de engolir o Ronaldo! E pode ter certeza de que vão se engasgar, porque o bicho está gordo que só vendo. Está pesado, mas está passando por cima de todo mundo”, alfinetou o técnico em telecomunicações Carlos Eduardo dos Santos, 28 anos, que fez questão de levar à festa os filhos Cauã, 5 anos, e Camili, 5 meses.

“É o primeiro título dela. O próximo será o da Copa do Brasil. A final será entre Corinthians e Internacional”, profetizou. Mas, e se menina resolver contrariar o desejo do pai e mudar de time? “Não tem jeito. Esse amor passa de geração para geração. É como uma religião”, afirmou.

Democrática, a festa do povo tinha espaço para todos que desejassem comemorar. Por essa razão, até os animais resolveram dar o ar de sua graça na Getúlio. A poodle Mel, por exemplo, trajava uma camisa para homenagear os torcedores fanáticos do clube.

“Ela é apaixonada pelo Corinthians. Quando o time marca gol, ela fica toda contente, começa a latir e a correr sem parar”, garantiu a dona, a estudante Nataly Freitas, 19 anos. Se pudesse falar, na certa Mel, a exemplo do restante da massa, também renderia tributos ao craque Ronaldo.

E não era para menos: ontem, a Fiel incorporou de uma vez por todas um novo ídolo ao seu panteão. Não que ele tenha sido o único lembrado pelos torcedores. “Muitos outros atletas se destacaram nesta conquista: o Elias, o André Santos... Esses jogadores foram crescendo de rendimento ao longo do campeonato”, avaliou o operador de máquinas Ânderson Carlos Faria, 34 anos.

Ele conta que, no começo do ano, estava meio receoso com relação ao futuro do clube. “Para mim, o Corinthians tinha até condições de chegar à decisão, mas eu achava que não conseguiria ser campeão. Depois, no decorrer do torneio, fui superando a desconfiança e percebi que iríamos vencer, com certeza”, garantiu Ânderson. Agora, o medo acabou. Aliviada, a nação sofredora só tem a comemorar - e a sonhar com os lances geniais de seu novo xodó.

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