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Labor (relativo a 1º de Maio)

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 2 min

O trabalho dignifica o homem. Vejam aquele. Todos os dias, logo nos primeiros raios de sol, sai com seu machado nas costas a enfrentar mais uma difícil labuta. As mãos calejadas, o rosto sulcado, e no corpo as marcas das intempéries da vida. A mata é densa, emaranhada, cheia de surpresas. De espinhos a cobras, de galhos a pedras, adentra. A força nos punhos, a pancada firme e contínua e o golpe final. O obstáculo inclina-se, range por alguns segundos e... tomba.

Bichos espantam-se, insetos se espalham, aves se alvoroçam. Privilegiados na fuga, buscam proteção na, ainda, gigante floresta. Ganham mais algum mísero tempo na iminente extinção. As árvores, inertes, sentem os passos, percebem a sina e apenas esperam. O homem, na sua frágil certeza e desapercebida sabedoria, imagina vencer.

Acredita, com a mais inabalada fé, que aquela picada aberta com sofrimento e suor nas entranhas da selva é a sua nobre contribuição para um futuro que chegará melhor. Orgulhoso, o honesto e disciplinado trabalhador volta ao lar com a certeza do dever cumprido. Exausto, repousa à espera dos novos raios do sol de amanhã.

Surgem novas gentes, novos sonhos, novas buscas. Enfim, o progresso! Moderno, belo, avançado. Vejam este homem. Culto, educado, polido está longe da força bruta, da aparência rústica, do esforço braçal. Todos os dias liga o carro, fala ao celular, conecta-se à internet. Não vê os primeiros raios do sol e seus espinhos são outros. Dribla AVCs, infartos e cânceres, Mas acredita, com a mais inabalada fé, que a competição, o estresse e a conquista do sucesso são importantes investimentos para um futuro que chegará melhor.

Assim, pensa, avalia e decide: num mundo com tanta tecnologia, informação e condições não podemos tolerar atrasos como o desse lenhador. E todos os machados foram substituídos por motosserras.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista em Bauru

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