Pelo menos 65 mil pessoas ficaram sob ameaça de desabastecimento de água em Bauru em parte por deficiência operacional, negligência ou imperícia do setor que controla o funcionamento dos poços profundos mantidos pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE). Nem mesmo o diretor de produção da autarquia, Fábio Randi, consegue explicar com clareza as falhas no sistema apresentadas em produções como as ocorridas na Nações (18 mil), Distrito III (40 mil) e Jardim América (17 mil pessoas).
A queima da bomba do poço Nações Unidas, na semana passada, foi mais um episódio. A causa tem elementos mecânicos, mas também de recursos humanos. A rigor, o DAE reconhece que não tem controle organizado e seguro sobre o sistema que gerencia.
Por esta e outras razões, o laudo da Ebara Indústrias Mecânicas - fabricante de inúmeras bombas que sustentam a produção de água em poços profundos em Bauru - define que a nova pane no motor que havia sido trocado há apenas um mês deu-se por sobrecarga mecânica. O equipamento operou fora das condições ideais (crivando), sofreu avarias em componentes e travou.
Detalhe: as proteções do quadro de comando da bomba do poço Nações não atuaram, contribuindo com as deficiências. Ontem, após uma tentativa confusa de explicar a pane, o diretor Fábio Randi confirmou pelo menos alguns indícios da vulnerabilidade operacional. Ele apresenta a tese verbal de que o nível dinâmico da água no poço caiu de forma abrupta, ao mesmo tempo em que menciona “provável encrustração” (sujeira).
A ausência de “aviso” no nível de produção - embora o relatório estivesse até então estável a uma altura de 156 metros e depois 161 metros de profundidade da bomba no poço - seria então explicada pela falta de relês. Mas se o DAE tem mais de 150 dispositivos no estoque, por que eles não estão instalados? Resposta: “Nunca antes na história o nível dinâmico caiu tanto de forma inesperada”.
Para corrigir mais uma de várias falhas no sistema, o DAE agora vai adquirir cabos tripolares para, enfim, instalar os relês. Enquanto isso, o laudo aponta que o funcionamento irregular da bomba gerou perda de garantia. Mais prejuízo em mais de uma ocorrência em poucos meses no mesmo poço. Mas não se tem nenhuma notícia de abertura de sindicância administrativa para levantar possíveis responsabilidades.
O recém empossado presidente do DAE, Rafael Ribeiro, reconhece que está diante de deficiências operacionais e de mão-de-obra. “Não vamos assistir bombas queimadas com o DAE dizendo para a população que ficou sem água por causa de problema eletromecânico. O sistema tem falhas e estamos atuando para corrigir. Os procedimentos operacionais também terão de mudar. Vamos apurar responsabilidades”, comentou.
A revisão do funcionamento operacional e mecânico poderá esclarecer como e quem controla a vazão dos poços. No poço do Distrito Industrial III, por exemplo, a vazão determinada pela simples abertura do registro era superior a 200 m3/hora, apesar de documento interno advertir contra. Tiveram até que soldar o acesso ao equipamento de controle de vazão para ninguém abrir o dispositivo a ponto de colaborar com nova queima de bomba.
No poço do Jardim América, até agora, não se sabe quem instalou a bomba em posição errada. A pane do poço Primavera ainda não tem nem laudo e o caso do Jardim América está à espera de posição do fabricante, em terras gaúchas.
Por fim, a divisão de produção também não explicou a falta de verificação de limpeza após a troca anterior na Nações, bem como do quadro de controle do equipamento, além da razão pela qual o poço que apresentava vazão (produção) em queda de 96 m3/hora, em abril passado, passou a trabalhar com retirada de 161 m3/hora logo em seguida.