Política

Para Aloysio, 3º mandato é ‘agressão’

Monise Centurion e Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 6 min

Para o secretário da Casa Civil do governo de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira, um terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seria uma agressão à Constituição, mas minimizou críticas ao presidente da República ao afirmar que ele tem sido muito correto com São Paulo. Homem forte do governador José Serra (PSDB), cogitado para disputar a sucessão paulista em 2010, Aloysio nega a pretensão da pré-candidatura.

Durante uma hora e meia, em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ), no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, Aloysio defendeu o programa de privatização de estradas com implantação de pedágios e disse que há muito preconceito, demagogia e sensacionalismo de políticos e da imprensa nas críticas ao programa do governo de construir novas penitenciárias no Interior.

“Não se pode construir presídio na Lua. O presídio tem que ser colocado nas cidades e regiões onde são mais necessárias”, alegou. Ele afirma, no entanto, que as saídas temporárias de presos, previstas em lei federal, a chamada “saidinha”, para quem tem bom comportamento no Dias das Mães e em outras datas comemorativas, é uma das “bizarrices do Brasil”. A seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Há um movimento de buscar um terceiro mandato para o presidente Lula? Como o senhor vê essas articulações? Aloysio Nunes Ferreira - É uma agressão à Constituição. Eu acredito que o presidente é sincero quando diz que não quer (mais um mandato). Eu tenho muitas críticas a sua gestão, mas não tenho nenhuma dúvida quanto ao seu compromisso com a democracia.

JC - Que críticas seriam essas? Aloysio - Eu vejo problemas especialmente na gestão do ponto de vista econômico. Perdemos oportunidade de crescer mais no momento de grande prosperidade mundial, por conta de câmbio equivocado. Acho que o governo Lula abusa do incremento de custeio, que é como o colesterol ruim das pessoas. Os investimentos públicos têm nível decepcionante, não acrescentaram nenhum quilowatts no parque energético do País. Acho que ele acordou tarde para que há uma problema habitacional. Depois de seis anos e meio lançar uma política habitacional para atender a questão habitacional do país é uma descoberta tardia, o que me leva a crer que há problemas de gestão em seu governo. O PAC só desembolsou até agora R$ 16 bilhões. Nos primeiros anos já investimos R$ 20 bilhões no Estado. Acho que ele cometeu um erro grave que foi o aparelhamento pelo PT de órgãos do Estado que já estavam fora do chamado mercado político. Em órgãos como Banco do Brasil, Petrobrás, agências reguladoras, chamado aparelhamento, o que causou prejuízo ao seu próprio governo. O presidente tem sido muito correto no trato com o governo de São Paulo. Está atento aos nossos problemas. O Rodoanel Sul tem uma participação do governo federal.

JC - Neste momento, o senhor se vê como pré-candidato a governador de São Paulo? Por quê? Aloysio - Eu cansei de dizer isso. Não sou neste momento pré-candidato a governador do Estado de São Paulo. Neste momento eu sou secretário-chefe da Casa Civil do governo Serra. E porque nós temos um governo pela frente. Essa decisão de ser candidato ou não vai depender de muita coisa, inclusive da decisão do governador de vir a ser candidato a presidente da República. Acho que seria absolutamente prematuro e incompatível com a minha função estar aí hoje como pré-candidato do governo. Tenho funções pesadas de coordenação de governo, de articulação de uma base política que é pluripartidária, pertenço a um partido que tem muitos nomes e condições de disputar eleição, de modo que seria absolutamente ruim para o governo e para meu próprio desempenho dentro da secretaria estar agora em campanha eleitoral.

JC - Até que ponto pesquisas como a recente do Datafolha, que apontam o ex-governador Geraldo Alckmin em melhor situação que o senhor pode influenciar na definição do PSDB? Aloysio - Inegavelmente o ex-governador Geraldo Alckmin tem prestígio político, é um nome conhecido, foi um bom governador, disputou recentemente várias eleições majoritárias. E eu sou um político mais dedicado à articulação, a uma longa vida parlamentar. Mas o fato é que qualquer pesquisa feita, neste momento, fora de um contexto já eleitoral, não é decisiva para a escolha de uma eventual candidatura deste ou daquele. A história de São Paulo é farta de exemplos de que estas coisas mudam quando o eleitor começa a pensar na campanha. Quando os candidatos se apresentam, quando os programas são expostos. O que eu acho, é absolutamente normal, que o Alckmin tenha sempre nas pesquisas uma porção muito boa, e merecida. Ele também é, como eu, secretário, não é pré-candidato. Se for ele o candidato, eu estou na campanha dele, como já estive em outras.

JC - O senhor poderia ser candidato a uma vaga no Senado e Alckmin sairia como governador? Aloysio - Tudo isso é prematuro. O relógio da eleição foi adiantado pelo presidente Lula. Desencadeou uma série de especulações e articulações que, na minha opinião, são prejudiciais para quem está governando, para quem tem a responsabilidade de governar Estados e um país, que vive um momento difícil em sua economia, com ambiente de desemprego, de medo do desemprego, de queda nos investimentos. É uma hora de somar e não de dividir.

JC - Por que existe a dificuldade do PSDB se compor às vésperas de eleições. Foi assim para prefeito da Capital, está sendo assim para presidente da República com o embate anunciado entre Serra e Aécio Neves. Isso não ajuda a oposição? Aloysio - O PSDB não enfrentará nenhum problema na escolha do candidato a governador do Estado. Nós vamos estar unidos, qualquer que seja o nome escolhido. O fato de ter o Serra e o Aécio como eventuais candidatos acho muito bom para o partido, porque são dois governadores de muito prestígio, muito bem avaliados e dos dois principais Estados brasileiros. Não vejo como isso possa atrapalhar o partido. É óbvio que, quando chegar o momento, se encontrará fórmula com prévia, com convenção, para escolha do candidato. E quem não for escolhido irá acompanhar o vencedor. Não há nenhuma dúvida quanto a isso. Não vai haver racha no partido.

JC - Em ano pré-eleitoral, como fazer a máquina pública funcionar sem que a agenda política contamine as ações oficiais? Aloysio - É preciso ter espírito público. Governar naquilo que é essencial, naquilo que é importante. Não há uma receita. Acho que é uma questão muito subjetiva: colocar o interesse geral acima do interesse partidário, não discriminar no trato com os municípios aqueles que são partidários do governador e aqueles que militam em outros partidos de oposição. Adotar condutas que o governador Serra adota.

JC - Pode ter uma dobradinha com o PTB? Aloysio - Nós temos na Assembléia Legislativa uma base de sustentação muito ampla, integrada pelo PTB que, aliás, apoiou o governador Serra na sua eleição. Mas não há ainda discussão sobre composição de chapas. Uma base muito ampla que nos permite apoiar projetos muito inovadores, polêmicos como foi, por exemplo, o projeto que restringe o fumo em ambientes fechados.

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