Ao tempo natural e cíclico das estações e do clima se justapõe - e, por vezes, se contrapõe - a percepção da duração registrada pelos homens. O calendário, instrumento de domesticação e de domínio do tempo, submete a memória pessoal e coletiva. É no conflito entre tempo natural, tempo percebido e tempo mensurado que se insinua a idéia de história. Noção que se torna ainda mais complexa, quando se leva em conta a existência de um dia-a-dia das sociedades humanas e a necessidade científica de descrevê-lo e interpretá-lo. Mas qual memória (e que tempo) deve-se priorizar nos estudos históricos? Individual ou coletiva? Transcendendo a história como ciência e como culto público, ao mesmo tempo à montante (enquanto reservatório de história, rico em arquivos e documentos/monumentos) e à jusante (pois é eco sonoro - e vivo - do trabalho histórico), a memória coletiva faz parte das grandes questões das sociedades contemporâneas.
Como diria Leroi - Gourhan: “A memória coletiva é biologicamente tão indispensável à espécie humana como o condicionamento genético o é às sociedades de insetos: a sobrevivência étnica funda-se na rotina; o diálogo que se estabelece suscita o equilíbrio entre rotina e progresso, simbolizando a rotina o capital necessário à sobrevivência do grupo, o progresso, a intervenção das inovações individuais para uma sobrevivência melhorada”. A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje.
Mas a memória coletiva é não somente uma conquista: é também um instrumento e um objeto de poder. São as sociedades cuja memória social é primordialmente oral ou que estão em vias de constituir uma memória coletiva escrita que melhor permitem compreender esta luta pela dominação da recordação e da tradição, esta manifestação da memória. O caso da historiografia etrusca constitui, talvez, a ilustração de uma memória coletiva tão estreitamente ligada a uma classe social dominante que a identificação dessa classe com a nação significou ausência de memória, quando a nação desapareceu: “Não conhecemos os etruscos, no plano literário, a não ser por intermédio dos gregos e dos romanos: não nos chegou nenhuma relação histórica, admitindo que esta tenha existido. Talvez as suas tradições históricas ou para-históricas nacionais tenham desaparecido com a aristocracia que parece ter sido a depositária do patrimônio mural, jurídico e religioso da sua nação. Quando esta deixou de existir enquanto nação autônoma, os etruscos perderam, ao que parece, a consciência de seu passado, ou seja, de si mesmos”.
Veyne, estudando o evergetismo (prática de atividades altruístas por parte dos ricos e poderosos) grego e romano, mostrou admiravelmente como os ricos “sacrificaram então uma parte de sua fortuna para deixar uma recordação do seu papel”. Num estudo inédito consagrado aos Beti dos Camarões meridionais, o escritor Mongo Beti relata e ilustra a estratégia que permite aos indivíduos ambiciosos e empreendedores “adaptar” as genealogias a fim de legalizar uma hegemonia contestável. Nas sociedades desenvolvidas, os novos arquivos (orais e audiovisuais) não escaparam à vigilância dos governantes, que se dedicam a controlar esta memória tão estreitamente como os novos utensílios que a produzem como, por exemplo, o rádio e a televisão.
Diante da ação dos grupos dirigentes em busca do controle sobre a memória coletiva, Triulzi apresentou um contraponto: ele denunciou a subordinação da antropologia africana tradicional às fontes “elitistas” e nomeadamente às genealogias manipuladas pelos clãs dominantes. Triulzi decidiu, em contrapartida, pesquisar a memória do homem comum africano. Propôs o recurso, na África (como acho que deveria acontecer aqui, no Brasil), “às recordações familiares, às histórias locais, de clãs, de famílias, de aldeias, às recordações pessoais..., a todo aquele vasto complexo de conhecimentos não-oficiais, não-institucionalizados, que ainda não se cristalizaram em tradições formais... que de algum modo representam a consciência coletiva de grupos inteiros (famílias, aldeias) ou de indivíduos (recordações e experiências pessoais), contrapondo-se a um conhecimento privatizado e monopolizado por grupos precisos em defesa de interesses constituídos”. Cabe, em suma, aos profissionais científicos da memória (antropólogos, historiadores, jornalistas, sociólogos), fazer da luta pela democratização da memória social um dos imperativos prioritários de sua objetividade científica.
O autor, Nei Vilela, é professor de história moderna, história contemporânea e história da América, na Universidade Sagrado Coração; coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela; e diretor de eventos do Instituto Cultural de Artes Cênicas do Estado de São Paulo