Cairo - Num discurso histórico em que citou várias vezes o Corão, o presidente Barack Obama apresentou ontem propostas para selar um “novo começo” nas relações entre os EUA e o mundo muçulmano. Obama defendeu pôr fim à “desconfiança mútua’’ como forma de pacificar o Oriente Médio.
Discursando na Universidade do Cairo, Egito, Obama saudou a platéia com o tradicional salam alekum (em árabe, a paz de Alá esteja convosco) e rompeu vários tabus na tentativa de conquistar o 1,5 bilhão de muçulmanos mundo afora, alvo da fala endereçada ao vivo por rádios e TVs por satélite.
“Este ciclo de desconfiança e discórdia precisa acabar’’, disse Obama diante das cerca de 3.000 pessoas no auditório da universidade. A fala, que durou 55 minutos, foi interrompida várias vezes por aplausos e até por um grito de “eu te amo”.
“Vim até aqui em busca de um recomeço entre os EUA e os muçulmanos, que seja baseado em interesse e respeito mútuos e na (idéia) de que os EUA e o islã não são excludentes”, afirmou o presidente, que prometeu combater “os estereótipos negativos do islã’’.
Apoio ao Irã
Obama levantou bandeiras caras a todos os muçulmanos. Ele defendeu o direito de existência da “Palestina”, criticou o expansionismo israelense e o passado colonialista do Ocidente, reconheceu o direito de todas as nações, “incluindo o Irã”, de ter um programa nuclear civil e citou várias passagens do “Corão sagrado” que exaltam a paz e a tolerância.
Num claro esforço para romper com a retórica incendiária e confrontativa de seu antecessor George W. Bush, Obama destacou os vínculos históricos entre os americanos e o islã.
O democrata lembrou que o Marrocos foi o primeiro país a reconhecer os EUA e afirmou que a maioria dos 7 milhões de muçulmanos americanos têm educação e renda maior que a média da população. O discurso do Cairo foi considerado um marco pelo fato de Obama ter destacado pela primeira vez seu sobrenome “Hussein” (em árabe, o bom) e detalhado claramente os laços de sua família com o islã. “Sou cristão, mas meu pai vem de uma família queniana que inclui gerações de muçulmanos”, disse Obama, que enumerou algumas das contribuições islâmicas à modernidade, como a invenção da álgebra e da bússola magnética.
Em outro divisor de águas, o democrata tornou-se o primeiro presidente americano a admitir em exercício a participação da CIA no golpe que derrubou o governo iraniano do nacionalista Mohammed Mossadegh, em 1953, em represália à sua decisão de nacionalizar a indústria petroleira do país. Foi a primeira vez que a Casa Branca ajudou a derrubar um governo no Oriente Médio. O caso alimenta até hoje a desconfiança de Teerã em relação a Washington.
Raízes profundas
O aceno de Obama tinha o claro objetivo de amenizar o ressentimento de muitos muçulmanos em relação aos EUA.
As raízes do antiamericanismo muçulmano remontam ao início do século 20, quando os EUA apoiavam as potências que colonizavam países na África, Ásia e Oriente Médio.
O endosso dos EUA à criação, em 1948, do Estado de Israel - que expulsou milhões de palestinos de suas casas- acirrou a animosidade.
Desde então, a Casa Branca tornou-se o maior fornecedor de armas e dinheiro a Israel, que humilhou militarmente todos os seus inimigos árabes e expandiu seu território. A contrariedade com a aliança israelo-americana ajudou a fomentar o extremismo nacionalista e religioso no Oriente Médio árabe.
O antagonismo se refletiu no estereótipo do terrorista islâmico, presente em muitos filmes americanos.
O espectro do choque das civilizações, nome de um livro do americano Samuel Huttington que se tornou referência entre pensadores conservadores, ganhou força com os ataques do 11 de Setembro.
Aos atentados da Al-Qaeda sucederam a prisão de Guantánamo, a invasão do Iraque e as torturas em Abu Ghraib.
Apesar da busca por denominadores comuns, Obama deixou claro que será implacável com extremistas - ele não usou a palavra “terrorismo”.