Em 1989, o candidato Lula poderia ser comparado a um parrudo motor a diesel. Original de fábrica, ia bem nas esburacadas estradas de terra, certas vielas acadêmicas e esquecidas ladeiras periféricas pelas quais trafegava a esquerda brasileira. O problema foi que, embora forte e rústico, ou até mesmo por isso, não rodava bem nos asfaltos pavimentados durante séculos pela direita. Rangia nas arrancadas, esfumaçava nas aceleradas e fazia as elites se borrarem de medo nas ultrapassagens. Sem conseguir empolgar a classe média, não emplacou. O povo optou por outro modelo, digamos mais moderno e estiloso, embora com motorização duvidosa. Não deu outra, fundiu.
Veio então um sofisticado modelo FHC. Mesmo longe de ser uma Ferrari, soube colocar o País em velocidade cruzeiro, ou melhor, Real. Em meio a privatizações polêmicas e protótipos de mensaleiros que ajudaram a lhe render uma reeleição, deixou como maior legado a estabilidade econômica que, justiça seja feita, nasceu no mandato estepe de Itamar. Chegou 2002 e com ele surgia também um novo Lula, bem diferente da versão 89. Algumas mudanças na carenagem aqui, uma suspensão maleável acolá e um bom trato no visual: o vermelho básico dava lugar a novas matizes cromáticas com diversidade ideológica, e mais ecléticas sob nuances fisiológicas. Enfim, passamos o recibo. E assim, também, foi passada a tão disputada faixa presidencial.
A maneira atabalhoada que o intelectual requintado e o operário retirante protagonizaram este ato acabou por simbolizar um marco histórico para o Brasil. A visível comoção misturada a um íntimo sentimento de orgulho, paradoxalmente expressado por ambos, revelavam uma essência que só a democracia conseguiria proporcionar, e apenas ela capaz de explicar. Fizemos, então, um test-drive na primeira versão Lula. Entre traições, mensalões e um competente bolsa-família, mesmo com alguma inspiração em bons programas do governo anterior, Lula preparava sua versão 2006.
Com generoso espaço interno, opcionais tentadores e oportunistas itens de série, perde a originalidade, mas ganha a eleição. Alguns bons resultados nas políticas de inclusão, a quase marolinha que se transformou a crise internacional e um bagageiro capaz de levar a classe D aos shoppings resulta em altos índices de satisfação do cliente. Mas não sai barato. O apetite de alguns aliados deixa as peças mais caras, as revisões mais salgadas e os cavalos a mais no motor consumem muito combustível, bem acima do que governo estaria disposto a bancar. Aliás, se bobear, encher o tanque dessa turma poderá lhe custar uma Petrobras inteira.
Mas, apesar tudo, negar que Lula é um líder, pela sua trajetória de vida, nato, é pura cegueira. Preservar a segurança dos mais ricos, sem tirar a esperança dos mais pobres, ou vice-versa, faz dele, seja aqui ou aos olhos do mundo, de fato “o cara”. E isso não é pouco. Planejar sua versão 3.0 é o mínimo que poderia se esperar das pranchetas políticas. Resta saber se vale a pena. Para Lula, como cidadão, penso que não. Sua biografia não mereceria pagar os possíveis custos dessa opção. Como homem público, talvez possa sucumbir à tentação de, na falta de opção, continuar levando os brasileiros no “rumo certo”.
Agora, como uma peça que é no emaranhado tabuleiro do xadrez político nacional, e porque não mundial, a opinião pessoal de Lula terá importância reduzida num derradeiro jogo de interesses, assim como o seu real poder numa hipotética versão 2010. Que, caso vingue, será mais flex do que nunca.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista - e-mail: lvbauru@gmail.com