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Relacionamentos descartáveis

Luís Carlos Cardoso
| Tempo de leitura: 3 min

Foram-se os tempos em que os relacionamentos eram duradouros, onde amizades eram para sempre, onde os casamentos eram “até que a morte os separe”. As relações afetivas passam por transformações das mais profundas e intensas. Nos tempos atuais, os relacionamentos parecem ter prazo de validade como todo produto em supermercado. Parecem descartáveis! O avanço tecnológico marca a nossa “era digital”. O sociólogo Vila Nova destaca a importância da chamada cultura de massa nas sociedades do presente como um fenômeno emergente. É inegável o poder dos meios de comunicação em disseminar informações instantaneamente a todo o mundo, que acaba por promover o distanciamento entre as pessoas e uma padronização universal dos sentimentos, tanto quanto o distanciamento na vivência desses sentimentos.

Um processo de enrijecimento, de brutalização do ser humano, incapaz de vivenciar o sofrimento ou a alegria alheios. Acabando por assimilar esta “técnica de sentir sem vivenciar o sentimento”, até mesmo os próprios sentimentos. Sem generalizações, é a figura do homem contemporâneo: um verdadeiro autômato. O ser humano despersonaliza-se.

O progresso - que fique claro, não queremos nos colocar contra ele, pelo contrário, gostaríamos poder ver, juntamente e na mesma intensidade da evolução científica e tecnológica, também o progresso espiritual, moral do ser humano, que ao invés de evoluir, sofreu uma involução -, trouxe consigo profundas mudanças na ética social. Ideologias caíram por terra, o senso de moral se transformou, o sexo liberado tornou-se banal, ato incidental.

O avanço tecnológico trouxe consigo a individualização do “ser”, transformando-o num ser egoísta, sem energia própria, que se alimenta da energia do outro, seja ela financeira ou moral. A capacidade crítica das pessoas parece ter sido anulada, tornou-se mais importante o “ter”, de preferência à custa dos sacrifícios alheios, do que o “ser”. Conceitos e valores de ética, de moral e de caráter foram vulgarizados, tornados “caretas”. As relações entre as pessoas, muitas das vezes, duram apenas o tempo suficiente e necessário para atender esses ou aqueles interesses.

Se desde os mais remotos tempos de que se tem notícia, até digamos, fins do século XVIII e início do século XIX, a idéia de virtude estava associada ao comedimento e à renúncia, virtuoso era o homem honesto, digno e modesto. Hoje, a “esperteza” tornou-se, para grande parte das pessoas, a forma apropriada de se relacionar com os demais e, nesses tipos de relação, dignidade, caráter, moralidade e honestidade são relegados, esquecidos; a cabeça do ouro é o degrau para chegar onde se quer, sem escrúpulos, sem senso de moral ou caráter. As relações de amizade ou mesmo matrimoniais são, muitas vezes, construídas alicerçadas no interesse de explorar o outro, de tirar vantagens, não importando se de forma licita ou desavergonhadamente ilícita, importa tão somente a obtenção daquilo que se deseja. A competição é inerente à nossa condição humana, mas a competição, a busca de obter vantagens a qualquer custo, inescrupulosamente, atropelando valores éticos e morais, isso é desvio de caráter, se não total falta dele.

Não desejamos trazer aqui uma mensagem de desesperança na raça humana, ou uma profecia apocalíptica. Porém, é um grito de indignação, um grito de alerta contra este estado de desvirtuação de princípios tão básicos e tão essenciais ao sadio convívio humano em sociedade. Por mais que possa parecer contraditório, é um manifesto de fé na capacidade das pessoas em promover mudanças e resgatar valores. Não percamos a fé na dignidade das pessoas - ainda mesmo que de poucas pessoas -, nem a confiança no valor do ser humano. Faz-se mister refletirmos sobre que tipo de sociedade estamos construindo. Recentemente (17/5 pp.), neste jornal, na coluna sobre mundos, padre Beto no artigo “Amizade sem Fronteira”, com a licença dele e nossas escusas pela ousadia, faz o que vimos como uma abordagem diferente do mesmo tema aqui tratado, vale a pena reler o artigo e refletir.

O autor, Luís Carlos Cardoso, é servidor da Secretaria de Negócios Jurídicos de Bauru, aluno do curso de direito do Iesb/Preve - e-mail: luiskardoso@hotmail.com

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