Ser

Paixão, amor e a difícil arte dos relacionamentos

Cristina Rodrigues Franciscato
| Tempo de leitura: 11 min

Paixão, do latim passio, significa “grande sofrimento”, “emoção ou sentimento que ofusca a razão”, “forte entusiasmo”, “furor incontrolável”. Na Grécia, o termo similar páthos indica algo que vem de fora, que nos acontece e nos submete. Trata-se de uma força tão poderosa e intensa que os antigos gregos reverenciavam-na como divina: a implacável e temida Afrodite.

Todos estamos sujeitos a ela e as relações amorosas costumam nascer do apaixonamento. Quando um relacionamento a dois segue em frente, a paixão pode tomar caminhos diferentes: alça vôo e desaparece, não sem antes causar estragos, ou se deixa transformar em amor.

A complexa arte do amor e das relações conjugais é tema de estudo e trabalho do psiquiatra Nairo de Souza Vargas, que estará em Bauru nos dias 19 e 20 deste mês para participar da 5ª Jornada de Psicologia Junguiana de Bauru e Região. Ele é médico, psiquiatra, analista junguiano, membro fundador da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, membro da International Association for Analytical Psychology, professor-doutor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e autor do livro “Terapia de Casais - Uma Visão Junguiana”.

Nairo de Souza Vargas especializou-se em trabalhar com casais e famílias. Sua dissertação de mestrado e tese de doutorado foram sobre terapia de casais. Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida por ele ao caderno Ser.

Jornal da Cidade - Como funciona a terapia de casais?

Nairo de Souza Vargas - Trabalho sempre dentro do referencial teórico Junguiano, mas com grande autonomia. Tenho formação em psicodrama e uso alguns recursos dessa linha. A psicologia junguiana propõe que todo ser humano traz em si a possibilidade de realizar seus potenciais mais profundos, tornando-se aquilo que realmente é, através do processo de individuação. Uma boa relação conjugal deve favorecer o crescimento e a realização dos parceiros, e a terapia de casais busca ajudar os envolvidos a melhor compreenderem os problemas da relação. Em princípio, sempre atendo o casal junto. Excepcionalmente, quando existe alguma indicação ou desejo, posso atender o casal separadamente, mas sempre com um contrato muito claro de que aquilo que acontecer entre eu e um dos cônjuges não será sigilo. Isso é importante para não se perder a condição de igualdade entre os dois, evitando confusões.

JC - Dos casais que procuram terapia, qual a porcentagem daqueles que investem na relação e continuam juntos?

Nairo - Na minha experiência pessoal, a quantidade de casais que investem, transformam e revitalizam a relação é muito maior do que aquela que se separa. Talvez porque a separação apenas vai se configurar como válida quando realmente acabou o amor, assim como a disposição de se viver juntos como aliados. A maioria dos casais que me procura vive uma situação de crise aguda ou de desencontros crônicos, mas o casamento ainda não acabou. Porém, já aconteceram casos de casais que vieram e concluíram que o melhor caminho era a separação. A terapia de casais não visa a manutenção do casamento, nem, ao contrário, sua dissolução. Seu objetivo é ajudar o casal a encontrar um grau melhor de saúde e de qualidade de vida para ambos. Aí entram alguns preconceitos que devem ser trabalhados, como a idéia de que a separação inevitavelmente fará mal aos filhos. Quando a separação é verdadeira, quando o casamento está morto e gerando grande sofrimento, quase sempre os filhos vão senti-la como algo melhor do que a continuidade da situação anterior. Numa escola de bom nível em São Paulo, a porcentagem atual de filhos com pais separados é praticamente 50%.

JC - A que o senhor atribui um índice tão grande de separação?

Nairo - Acredito que ele se deva, entre outros fatores, ao nível elevado das exigências e expectativas dos parceiros quanto à relação. Antigamente, bastava que ela não fosse muito ruim para que o casamento continuasse. Por outro lado, hoje se vive muito mais do que em épocas anteriores, gerando uma perspectiva mais longa de vida em comum, o que também aumenta a chance da separação. Assim como antigamente as circunstâncias externas conspiravam para a manutenção do casamento, hoje elas atuam no sentido de facilitar a separação. Diria até que a separação tornou-se um ato irresponsável e o casamento, algo banalizado: na primeira dificuldade o casal desiste.

JC - Após uma separação muito rápida e não elaborada, não se corre o risco de reproduzir o mesmo modelo insatisfatório com o próximo parceiro?

Nairo - O casamento é um local onde os parceiros entram em contato com suas dificuldades e limitações, projetando-as no outro. Quando alguém desiste de uma relação sem evoluir, sem se transformar, sem crescer com a experiência, é quase inevitável que esta pessoa reproduza o modelo mal sucedido, principalmente quando encontra um terceiro na fase sombria da relação. Ela sai do casamento carregando a situação não compreendida e esperando o oposto do novo parceiro. Por isso, não é favorável assumir novo vínculo logo após a separação, pois o risco de repetir o mesmo roteiro é grande.

JC - Grandes dificuldades numa relação podem, ao invés do rompimento, propiciar uma mudança real dos parceiros?

Nairo - Eu acredito sim que as pessoas possam mudar, principalmente em relação a situações mórbidas e neuróticas. Não existe relação que seja tão profunda, significativa e propiciadora de mudanças na vida de alguém quanto o casamento. Mas desde que seja vivido de modo pleno, verdadeiro, válido. O casamento propicia situações de provações e sacrifícios que trazem muitas possibilidades de transformações. Ele é, em tese, um caminho muito rico de individuação, porque cria muitas chances de encontro com as diferenças.

JC - Então, ao contrário dos que vêem o casamento como instituição falida, o senhor acredita, ainda hoje, neste formato de relação?

Nairo - O que está falido é o casamento rígido e patriarcal que impõe papéis pré-estabelecidos e estreitos. É aquele em que o marido deve, necessariamente, comportar-se como provedor e chefe da família, e a mulher precisa ser afetiva e dedicada exclusivamente aos interesses do esposo e dos filhos. Um casamento que estabeleça rígidas limitações às individualidades está realmente falido, mas não aquele que propicie o desenvolvimento dos parceiros. Uma relação assimétrica no casamento não é mais possível. A verdadeira relação conjugal tem de ser simétrica, com respeito aos limites de cada um e direitos semelhantes.

JC - O senhor afirma que sacrifícios são necessários numa relação. O que seriam eles?

Nairo - É importante discriminar sacrifício de violência e/ou desrespeito pela individualidade do outro. Algum sacrifício é necessário para o amadurecimento da relação, uma espécie de “renúncia sagrada”. O que alguém sacrifica para aprofundar e melhorar a relação é um investimento pessoal. O sacrifício não é feito pelo outro, mas por aquilo que a própria pessoa prioriza, no caso o desenvolvimento e manutenção de uma relação fundamental para ela. A pessoa renuncia a um prazer instantâneo em prol de uma realização menos imediata. Na prática é difícil saber o limite entre o sacrifício construtivo e aquilo que faz a pessoa sentir-se lesada, roubada de si.

JC - Como fica a questão da traição neste contexto?

Nairo - Se a pessoa tem o profundo sentimento de que se não fizer algo estará se violentando é melhor que ela o faça, desde que esteja preparada para as conseqüências de seu ato. Recentemente, fiz uma palestra e um homem de cerca de 50 anos me perguntou como ele poderia deixar de se relacionar com uma moça bem mais nova que estava disponível. Argumentou que, se não vivesse a experiência, ficaria mal, pois o casamento estaria privando-lhe de algo muito bom. Mas se fosse em frente, teria muitos problemas com a esposa. Hoje, tal situação é comum também para a mulher. Uma opção seria agir sem que o outro descobrisse, mas isso provocaria o enfraquecimento da relação consigo mesmo e com o parceiro.

JC - Como agir então?

Nairo - Não existe uma resposta fácil, nem uma fórmula pronta. Há aqueles que propõem o chamado casamento aberto, mas na minha prática nunca conheci um que deu certo. Não somos uma espécie que tem um determinismo genético no comportamento sexual, como têm as espécies animais. Temos uma consciência muito rica e desenvolvida e que nos permite escolhas. É natural que aquele homem da minha palestra, numa busca de maior intensidade de vida, fique tentado a sair com a moça atraente e disponível. Mas terá de fazer uma escolha consciente: ou sacrificar essa vivência em prol de alguma coisa que julga melhor para a própria vida, ou ir em frente e arcar com as conseqüências. O mesmo é válido para qualquer um.

JC - A que o senhor atribui o êxito de relações duradouras hoje em dia?

Nairo - O êxito de uma relação está na capacidade de investimento dos parceiros. A paixão acaba, inevitavelmente, com o convívio e as retiradas das projeções. Então entra a capacidade de se construir uma verdadeira relação amorosa, relação de gente com gente. Na paixão você não se relaciona com o outro, mas com aquilo que imagina, deseja e teme ser este outro. Projetamos no parceiro não apenas o que idealizamos, mas aquilo que não desenvolvemos em nós. É com essa imagem do outro que nos relacionamos na paixão.

JC - O apaixonamento parece algo raro nos tempos atuais, não?

Nairo - Hoje assistimos a banalização dos encontros e da sexualidade. Os jovens freqüentemente “ficam” por “ficar”, o que gera empobrecimento das relações, tornando-as muito pouco consistentes. O corpo tem um histórico de repressão e negação: o espírito era bom, era de Deus, e o corpo era do demônio. Essa dissociação é muito ruim e o resgate da importância do corpo foi fundamental, mas aconteceu num movimento compensatório que levou ao extremo oposto. Hoje há um exagero de valorização do corpo e um empobrecimento em relação ao espírito. Como a libido é uma só, se eu a direciono apenas para um lado faltará para o outro. Assim, a possibilidade de um encontro verdadeiro está muito diminuída. Daí a dificuldade do apaixonamento, que ocorre de maneira superficial e defendida. Um envolvimento mais profundo está se tornando algo muito difícil para o jovem. Antigamente existia o medo do indivíduo ser rejeitado, hoje predomina a dificuldade do indivíduo gostar do outro.

JC - Sobre a chamada “Idade do Lobo”, que hoje pode ser também a “Idade da Loba”, o que o senhor poderia nos dizer?

Nairo - A doutora Iraci Galiás, muito apropriadamente, denominou esta fase de “segunda adolescência”. Na primeira adolescência deixamos de ser filhos de alguém para sermos nós mesmos. É um momento realmente difícil sair do mundo dos pais e se tornar indivíduo. É um período de crise. Do mesmo modo, na segunda metade da vida, vivemos uma segunda grande crise em termos de identidade. Uma crise no sentido de definir o que mais se quer da vida. Nesta fase, freqüentemente já desempenhamos muitas daquelas tarefas que temos como fundamentais: já nos realizamos profissionalmente, já casamos e tivemos filhos. Agora os filhos estão na adolescência ou já passaram dela e saíram de casa. É quando o casal vai buscar novos papéis para além do papel de pai e mãe.

JC - Alguns problemas, nesta fase, não resultariam da transferência dos papéis de pai e mãe para a relação conjugal?

Nairo - Isso acontece e muito: a mulher fica mãe do marido e o marido, pai da mulher. Ou, dito de outro modo, o marido torna-se filho da mulher, que também passa a ser filha do marido. Aí o vínculo fica reduzido apenas ao parental e os cônjuges chegam até a chamar um ao outro de “pai”, “mãe”. A cultura estimula muito o desenvolvimento maternal na mulher e o desenvolvimento “filho da mulher” no homem. Também estimula a situação complementar: ao homem adulto cabe o papel paterno e à mulher, o papel de “filha do pai”. Isso origina um casal em que a mulher providencia para o marido suas roupas, alimentos, etc, e o marido também a trata como filha, orientando suas opções e dando-lhe inclusive mesadas. É necessário um exercício equilibrado e adequado desses quatro papéis - “pai”, “mãe”, “filho da mãe” e “filho do pai” - para que o casal possa vivenciá-los em momentos diferentes, conforme a ocasião. Isto proporcionará um bom desempenho na relação de alteridade dentro do casamento. O problema é a fixação num determinado papel.

JC - Como o senhor definiria uma boa relação conjugal?

Nairo - A conjugalidade vai além da relação parental e diz respeito a uma relação de igualdade entre os cônjuges, onde está em jogo a afirmação da alteridade. A relação parental se estabelece pelo procriar, alimentar, cuidar, etc. Mas o que caracteriza essencialmente a relação de casal é a conjugalidade. O verdadeiro casamento deve permitir o desenvolvimento das potencialidades dos parceiros e incluir desejo sexual, fraternidade, solidariedade, alguns ideais comuns, além de respeito e admiração mútuos. Assim, cada cônjuge funciona como inspirador e enriquecedor para a vida do outro.

• Serviço

A 5ª Jornada de Psicologia Analítica Junguiana tem como tema “Encontros e Desencontros: as múltiplas faces de Eros” e será realizada nos dias 19 e 20 deste mês.

É uma promoção do Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e Região. Informações e inscrições pelo telefone (14) 3223-2326.

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