Com o sucesso da novela das oito sobre a Índia, relembrei fatos relacionados à Indira Nehru-Gandhi. Era a década de 1970, quando ela permitiu a explosão de uma bomba nuclear no deserto de Rajasthan, próximo à fronteira com o Paquistão. Ganhou a guerra, o ódio de Nixon e decretou “estado de sítio” no momento em que o seu governo enfrentava denúncias de corrupção. Durante os nove meses de regime de exceção, aconteceram atrocidades enormes. O governo absoluto tem dessas coisas. As lembranças servem para outra conversa, o terceiro mandato.
Vi a posse do senhor Lula da Silva pela televisão. Quando terminou sua fala, eu disse: discurso de quem quer ficar 40 anos. Ele possui um projeto político-ideológico definido e pretende permanecer no poder por um longo tempo. Meu marido respondeu: isso é uma democracia, em quatro anos vai haver eleição. Lembrei-me do fato ao acompanhar as discussões sobre mais um mandato. Algo preparado durante anos e não idéia de um sujeito qualquer. Ele vai reapresentar seu projeto com 166 assinaturas, cinco menos do que o necessário para a mudança constitucional permitindo prefeitos, governadores e presidente disputarem o terceiro mandato. Como perguntar não ofende: qual é a do deputado, hein? Igualar o Brasil a Cuba e Venezuela? Não adianta o Lula dizer que alternância no governo é importante. Palavras o vento leva e o subtexto mostra que ele e seu partido não pretendem alternar nada. O poder corrompe e mesmo governantes honestos fecham os olhos à corrupção em prol da permanência no cargo.
“Dizer que é constitucional o terceiro mandato é dizer que o quarto também é. E não tem como evitar dizer que é constitucional o quinto mandato, fragilizando a idéia de República”, declarou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto. Portanto, não sou a única a ver o golpe por trás da mal contada história... Bom seria se todos os deputados pensassem como o doutor Ayres, porém partidos políticos no Brasil são frágeis e o interesse eleitoral se sobrepõe ao avanço institucional.
No meu entender, o governo deixou para a última hora a apresentação do projeto com a intenção de desorientar a oposição desnorteada, por natureza. Trata-se de uma velha tática. O golpe de 1964, após longo amadurecimento, ocorreu de maneira repentina. Depois vieram os atos institucionais, as prisões dos opositores, a tortura, o assassinato de políticos, estudantes e jornalistas. Mas o golpe era militar e a direita comandou. Sei... Mas, na Índia, a família Nehru-Gandhi era socialista e aconteceu algo semelhante ao relato acima, se não foi pior. Como afirmou o ministro, depois do quarto, vem o quinto e assim por diante, como os golpistas de 64, como Castro e como Chavez. A alternância referida por Lula seria: Getúlio/democracia/militares/democracia... e para variar de novo uma ditadura?
A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC