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Rota misteriosa entre Atlântico e Pacífico passa na região de Bauru

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

Uma rota de origem misteriosa e polêmica, construída séculos antes da chegada dos colonizadores europeus à América, passa pela região. Conhecida como o Caminho de Peabiru, é inclusive tida como sagrada. Seu tronco principal ligava o Atlântico ao Pacífico, já nos idos de 1.300. Um de seus ramais partia de São Vicente, no litoral, e seguia até Botucatu (a 100 quilômetros de Bauru), onde havia um entroncamento de estradas. O Caminho de Peabiru era a principal delas, capaz de conduzir rapidamente o viajante ao Peru.

Obra viária transcontinental competente, seu tronco principal tinha mais de quatro mil quilômetros. O caminho tinha um metro e 80 centímetos de largura e um rebaixamento de 40 centímetros de profundidade em relação ao nível do solo. Em vários trechos, o piso contava com uma erva capaz de impedir o avanço do mato. Em muitos outros, especialmente nos mais difíceis, era forrada por andesita - como o próprio nome sugere, uma pedra dos Andes.

“Hoje há ainda (o caminho) no Mato Grosso. Há pelo menos uns 80 quilômetros com esse piso”, comenta Hernâni Donato, o maior especialista brasileiro no assunto, principalmente na rota paulista. Pesquisador do tema há mais de 60 anos, ele ainda estuda como as pedras foram trazidas de tão longe. Ele tem uma proposta própria sobre os autores do Caminho de Peabiru, mas não arrisca contá-la. Guarda segredo para seu próximo livro, ainda sem previsão de lançamento.

Pernoite

Certo é que incas, índios, exploradores espanhóis, missões religiosas e até prateiros usufruíram dela. Segundo Donato, documentos comprovam lhamas vindas do Potosí (montanha de prata situada no Peru), séculos após a construção do caminho, carregadas do metal. Passavam por Botucatu até chegarem a Santana do Parnaíba. Por aqui, pernoitavam num ponto onde hoje existe uma pequena igreja (Bom Jesus do Ribeirão Grande), próximo ao Posto Maristela, na rodovia Castello Branco.

Reconstruída, a igreja atualmente está sediada nas terras de um condomínio fechado, próximo ao posto. E a proximidade com a via não é mera coincidência. De acordo com Donato, quase todas as estradas que partem de São Paulo rumo a Botucatu tiveram como orientação geral o Caminho de Peabiru. A Marechal Rondon é uma delas. “O próprio Marechal Rondon, nas suas incursões pelo Interior do Brasil, utilizou o caminho. Era limpo, gostoso, seguro”, acrescenta, o jornalista, escritor e pesquisador Anthemo Feliciano.

Autor do livro Rumo ao Centro-Oeste Paulista, ele colaborou com Donato na obra Achegas para a História de Botucatu. Feliciano reitera o entroncamento em Botucatu. Também conta que, naquele trecho, muitos séculos após sua construção, o Caminho de Peabiru foi interrompido porque servia como desvio de valores, evasão à alfândega. Foi reaberto séculos mais tarde, por determinação de um governador.

“Ele mandou reabrir um caminho de Botucatu ao presídio de Iguatemi confiscando toda a comida, toda a plantação que houvesse na região para reunir num paiol. Esse paiol é a origem de Itatinga”, informa Donato.

Montanhas de documentos respaldam os estudiosos sobre a real existência da obra viária transcontinental, mas seu traçado exato perdeu-se na história.

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Império

Sumidade no assunto, Hernâni Donato acredita que o Caminho de Peabiru tenha sido aberto como estratégia de domínio imperial do continente. Por enquanto, não adianta qual povo teria trabalhado neste sentido, nos idos de 1.300. Certo é que nos últimos 40 anos, o assunto voltou a ficar na mira de estudiosos em todo o País.

Enquanto mistérios não são desvendados, histórias e lendas paralelas são contadas e aguçam a curiosidade de interessados. Uma delas conta que o caminho atravessaria um túnel na região de Botucatu, onde pessoas desapareceriam ao percorrê-lo. Embora seja nascido na cidade, Donato nunca ouvir falar sobre o assunto, atualmente comentado até por jovens em Bauru.

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Quem construiu o caminho?

A quem atribuir a autoria do Caminho de Peabiru? Talvez seja esse o maior mistério ainda a ser revelado. Atualmente, existem ao menos 14 indicações. No Sul, onde existia um importante ramal em Santa Catarina, estudiosos apontam para os índios macro-jê, conhecidos por Jê. Seriam inimigos dos tupis-guaranis. Há ainda quem defenda os incas como responsáveis pela estrada transcontinental.

Por que não chineses, que dominavam a navegação e até fizeram uma meia circunavegação da África? “É a mais remota das possibilidades, acho que não”, diz Hernâni Donato, o maior especialista brasileiro no assunto, principalmente na rota paulista. “Não foi índio. Eles a encontraram pronta e serviram-se dela. Não tinham técnica para isso. Eu não sei quem foi. Tenho uma proposta. Há inúmeras outras. A mais comum é dos incas, mas não acredito”, explica.

Donato está certo de que o tronco principal do Caminho de Peabiru foi aberto por volta do ano 1.300, sendo que os incas se formaram apenas um século depois. Neste caso, seria uma civilização anterior. Os incas também aproveitaram o trajeto e aprenderam com ele para a elaboração de outras obras viárias. “O Peabiru foi aberto por um povo ainda não identificado, mas de altíssima cultura”, acrescenta o pesquisador, sem adiantar sua versão - a ser publicada no próximo livro. Ele já é autor de Sumé e Peabiru, que será reeditado.

Nos últimos tempos, ainda têm sido anunciadas extensões do Peabiru no Norte do País, que não se conhecia há 20 anos. Grupos numerosos de estudiosos se deslocam até a Amazônia, sendo que alguns atribuem o feito do caminho aos fenícios. Em algum lugar do Oriente Médio dispunham de estaleiros capazes de acumular água e recursos para atravessar o oceano. Frente ao contexto, existe uma forte teoria de que eles tiveram um império no Norte e teriam chegado até os Andes.

Por essa ótica, há quem defenda os fenícios como fundadores da cultura inca. Outra corrente supõe os judeus como ascendentes dos incas - uma vez que duas das 12 tribos que fundaram o judaísmo se perderam. Teriam atravessado o oceano em navios fenícios. Donato, no entanto, não acredita nestas possibilidades.

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