Quando acabei de ler a última linha de “SuperMedia”, livro de Charlie Beckett que trata de uma nova era para o jornalismo, senti-me mais seguro sobre o “jornalismo cidadão”. É o modelo que “salvará o mundo”, como disse o autor. A paisagem atual está repleta de grandes fábricas de notícias que estão perdendo espaço, audiência, leitura e dá sinais de debilidade financeira. A divisão de notícias da CBS já não é nem sobra daquela criada por Ed Murrow. O “Le Monde”, fundado por Hubert Beuve-Méry para restabelecer a honra do jornalismo francês no pós-guerra, está lutando para sobreviver. O “The New York Times” já vendeu parte da sua sede, quer se livrar do filiado “Boston Globe” e admitiu um mexicano como sócio. A nova geração dos Sulzbergers mandou para os ares o orgulho e a tradição construída pelos seus pais e avós. O “Daily Express”, no passado uma presença dominante no mercado britânico, agora se reduziu a ponto de se tornar parte de um grupo dirigido por um pornógrafo.
Os últimos 150 anos foram a era do jornalismo heróico, um período em que os jornalistas desenvolveram sua auto-imagem como responsáveis por corrigir os males da sociedade. Houve jornalistas como o francês Émile Zola que colocaram sua pena a serviço da indignação, diante das falsas acusações contra o capitão Alfred Dreyfus. Nos anos 1960 em diante, uma legião de repórteres investigativos faziam parte de um quadro de profissionais intransigentes que exigiam prestação de contas dos poderosos. Os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do “Washington Post”, ficaram famosos por suas reportagens sobre o caso Watergate no começo dos anos 1970. Aqui no Brasil tivemos Ricardo Kotcho, em plena ditadura, denunciando os abusos cometidos pelos poderosos de plantão com o dinheiro público. Desde então o país ficou sabendo o que é “mordomia”. Esse jornalismo investigativo acabou, porque é caro para as empresas cada dia mais combalidas financeiramente. São elas incapazes de sustentar suas bases organizacionais com editorias, treinamento e estruturas de carreira. Agências noticiosas, free-lancers, fotos compradas ainda têm que completar a estrutura, sem falar nos caríssimos equipamentos e insumos.
O jornalismo baseou sua auto-imagem e sua justificativa para existir na crença de que os membros da sua audiência de massa se tornassem melhores cidadãos. Este padrão não está em decadência. Pelo contrário, foi aperfeiçoado. O cidadão não quer só ser informado. Quer o direito de também informar. As denúncias das mazelas das nossas instituições, em grande parte vêm do público. Becket acredita que o jornalismo precisa ter como base essa “realidade experimentada”. O jornalismo cidadão extrai sua legitimidade e sua prática dessa realidade. Fico satisfeito com o Jornal da Cidade, onde seus editores cada vez mais abrem espaço aos leitores. Pessoas do povo são ouvidas, ainda que de modo sucinto, sobre problemas locais vivenciados. A Tribuna do Leitor dá espaços para excelentes colaborações. Debates de alto nível e idéias proveitosas dão ao JC dimensões que não seriam alcançadas somente com profissionais. “Quanto mais os jornalistas da redação se comportarem como cidadãos, mais forte será o jornalismo” - disse o autor citado. O jornalista não pode ter a pretensão de somente ele escrever para que todos o leiam. Nos novos tempos, todos escrevem para que todos leiam. Sobreviverá a mídia que entender este conceito simples.
De certa forma, os blogs e a web (jornalismo de internet) marcam um retorno ao jornalismo do século 17 e 18 - um período empreendedor nos quais as pessoas que tinham algo a dizer montavam seus negócios e publicavam panfletos e boletins noticiosos. Quando se discute a exigência de diploma para o jornalista, tema recorrente nos sindicatos e nas escolas de comunicação há cerca de 30 anos, é preciso vislumbrar um mundo no qual aqueles que estão ávidos para dizer alguma coisa possam fazê-lo. Esse mundo é o de hoje. Quem desejar prestar testemunhos sobre horrores e maravilhas pode transmitir suas palavras e imagens. Quem se indigna com suspeitas de delitos empresariais e governamentais pode encontrar ferramentas que permitem investigar e expor. Tudo isso resulta em considerável ganho de poder. Não implica ainda que a prática do jornalismo tal qual o conhecemos seja destronada - algo que espero jamais aconteça. Pelo contrário. Ao menos oferece a democrática possibilidade de nos tornarmos, nós todos, heróis.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC