Pode até parecer história repetida, mas com a chegada do inverno, as fortes quedas de temperatura obrigam as pessoas a se proteger como podem do frio intenso. Para alguns, a tarefa é bastante fácil: basta buscar no armário cobertores, edredons e agasalhos para amenizar os efeitos das baixas temperaturas. Mas para quem não tem nada disso, nem água quente para o banho ou um simples agasalho para uma mínima proteção, o jeito é se virar como pode.
O problema é mais crítico nas comunidades carentes de Bauru. Nas favelas, o “jeitinho brasileiro” está presente em cada barraco construído em alvenaria ou madeira. A maior parte das famílias usa o fogão a lenha para esquentar a água do banho para a família. Mas a criatividade pode ser vista por todo canto.
A maior parte dos moradores improvisa materiais como plásticos e carpetes encontrados descartados pela rua para garantir o aquecimento da casa. Na maior favela de Bauru, Ferradura Mirim, com centenas de barracos improvisados feitos com restos da construção civil, é fácil encontrar ainda dezenas de barracos quase “enrolados” em plásticos e lonas descartados pela população e recolhidos pelos moradores para diminuir a ação do vento frio.
A criatividade dos moradores das comunidades mais carentes da cidade vai mais além. A maior parte dos barracos onde normalmente o piso é de terra batida ganha o reforço do carpete, descartado por empresas e que, na mão dessas famílias, se torna um grande aliado no combate da friagem que vem do solo.
Dormindo junto
Como a quantidade de agasalhos e cobertores nem sempre corresponde à necessidade, o jeito é reunir a família numa mesma cama para garantir o aquecimento para todos. Neusa Maria de Lurdes Caetano conta como faz para não deixar nenhum dos três filhos passarem frio. “Junto os dois colchões e coloco os três para dormirem juntos, assim os dois únicos cobertores doados pela minha patroa garante que nenhum irá passar frio”, explica.
Sem cobertor ou agasalhos, alguns moradores se arriscam ao deixar o fogão de lenha aceso ou em trazer em um recipiente as brasas para aquecer o ambiente dentro do barraco. Indagado sobre o risco, Virgílio da Silva, também morador do Ferradura Mirim, conta que é a única alternativa que tem para manter quente o barraco de dois cômodos que divide com o filho. “Medo eu tenho, às vezes acordo assustado com medo de estar tudo pegando fogo, mas ou é isso, ou passar frio”, conta o morador que vive há 14 anos no local.
Ações de voluntários e de entidades na cidade ajudam a amenizar os efeitos do frio para as comunidades mais carentes. Osmarina Casemiro Leme, moradora no Jardim Andorfato, conta que há mais de um ano busca a sopa que é servida por voluntários há mais de 30 anos, na Creche Berçário no Núcleo Nova Esperança.
Além de tomar a sopa servida no local, Leme leva todo dia para casa um pote cheio que ela serve para o marido e para os três filhos à noite. “A gente toma a sopa e vai dormir. Para manter a casa aquecida durante à noite, as brasas do fogão de lenha são colocadas em uma lata e trazidas para dentro de casa para diminuir a sensação de frio”, conta.
Nessa época, diversas entidades e até empresas se unem à Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) para a realização da campanha do agasalho. Todo ano, milhares de agasalhos são recolhidos e doados nas comunidades mais carentes de Bauru. De acordo com a secretária municipal do Bem-Estar Social, Darlene Martin Tendolo, a campanha deste ano teve início no mês de abril e pretende arrecadar cerca de 200 mil peças. Até agora, metade do previsto foi arrecadado.
Seja o jeitinho dado por cada família carente ou ação de voluntários e entidades, são essas ações que amenizam o sofrimento trazido pelo frio para as pessoas que não tem condições financeiras para se proteger.