Embora o brasileiro adore se vangloriar de seu respeito pelas diferenças, não foi isso que uma pesquisa realizada em 501 escolas públicas de todo o País demonstrou. Baseado em entrevistas com mais de 18,5 mil alunos, pais e mães, diretores, professores e funcionários, o estudo revelou que 99,3% dessas pessoas demonstram algum tipo de preconceito.
As escolas de Bauru também participaram da pesquisa. No entanto, seus nomes não foram divulgados para preservar a identidade dos entrevistados.
O estudo, realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), foi divulgado ontem, em São Paulo. Trata-se de uma pesquisa pioneira no Brasil e tem como objetivo dar subsídios para a criação de ações que transformem a escola em um ambiente de promoção da diversidade e do respeito às diferenças.
Foram analisados o nível de preconceito em relação a sete categorias: étnico-racial, gênero, geracional, territorial, orientação sexual, socioeconômica e necessidades especiais. Em todas elas, o índice de discriminação foi muito alto.
Para o coordenador do trabalho, José Afonso Mazzon, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), os dados levantados são alarmantes.
“Praticamente, todos no mundo escolar tem preconceito, nem que seja muito pequeno. Achamos que estes índices são muito altos e, além disso, temos que levar em conta que às pessoas tendem a responder as perguntas de acordo com o politicamente correto e não com o que elas fazem diariamente”, diz.
Com relação à intensidade do preconceito, o estudo avaliou que 38,2% têm mais preconceito com relação ao gênero e que isso parte do homem com relação à mulher. Com relação à geração (idade), 37,9% têm preconceito, principalmente, com relação aos idosos.
A intensidade da atitude preconceituosa chega a 32,4% quando se trata de portadores de necessidades especiais e fica em 26,1% com relação à orientação sexual, 25,1% quando se trata de diferença socioeconômica, 22,9% étnico-racial e 20,65% territorial.
O estudo indica ainda que 99,9% dos entrevistados desejam manter distância de algum grupo social. Os deficientes mentais são os que sofrem maior preconceito com 98,9% das pessoas com algum nível de distância social, seguido pelos homossexuais com 98,9%, ciganos (97,3%), deficientes físicos (96,2%), índios (95,3%), pobres (94,9%), moradores da periferia ou de favelas (94,6%), moradores da área rural (91,1%) e negros (90,9%).
Em âmbito geral, a pesquisa constatou que homens são 20% mais preconceituosos que mulheres e que os entrevistados das regiões Sudeste e Sul apresentam as percepções menos preconceituosas, enquanto aqueles das regiões Nordeste e Norte apresentam maior grau de preconceito.
Além disso, notou-se que as escolas onde foi constatado maior nível discriminatório apresentaram pior desempenho na Prova Brasil, o que permitiu aos pesquisadores concluir que o preconceito atinge também o desempenho escolar.
Mazzon afirmou que o estudo foi encaminhado ao Ministério da Educação e espera que providências sejam tomadas. “O que a gente espera é que o governo adote políticas mais incisivas em relação a esta questão. Acredito inclusive que elas devem transcender o nível educacional, pois uma realidade com esta abrangência e intensidade não será resolvida a curto prazo. Serão necessárias décadas, mas algo precisa começar a ser feito”, ressalta.
De acordo com o diretor de Estudos e Acompanhamentos da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do Ministério da Educação, Daniel Chimenez, o resultado desse estudo será analisado detalhadamente uma vez que o Ministério já demonstrou preocupação com o tema e com a necessidade de melhorar o ambiente escolar e de ampliar ações de respeito à diversidade.
“No Ministério já existem iniciativas nesse sentido (de respeito à diversidade), o que precisa é melhorar, aprofundar, alargar esse tipo de abordagem, talvez até para a criação de um possível curso de ambiente escolar que reflita todas essas temáticas em uma abordagem integrada”, diz.
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Bullying
Negros, pobres e homossexuais estão entre as principais vítimas de bullying (prática discriminatória de um grupo de alunos contra um determinado colega, que se caracteriza por agressões físicas, acusações injustas e humilhações) nas escolas públicas.
Segundo a pesquisa, o grau de conhecimento de práticas de bullying chega a 19% contra alunos negros, 18,2% contra pobres e 17,4% contra homossexuais. Em seguida, 10,9% estiveram nessa situação por ser mulher e 10,4% por morarem na periferia ou em favelas.
O estudo também mostrou que os professores, funcionários, idosos, pessoas com algum tipo de deficiência física ou mental, índios e ciganos também foram vítimas de agressão nas escolas pesquisadas. Ainda de acordo com os dados, 5,3% dos entrevistados presenciaram os professores sofrendo agressões e 4,9% viram os funcionários das escolas serem agredidos.
O coordenador do trabalho, o professor José Afonso Mazzon, acredita que a situação é grave. “Em 20% das escolas havia alunos que tinham sofrido humilhações, acusações injustas ou mesmo agressões físicas. Isso inclui alunos, professores e funcionários. O único que ficou de fora foi o diretor. Isso é um absurdo”, afirma.