Teerã - A máxima instância constitucional iraniana convidou hoje os três candidatos derrotadas na controversa eleição presidencial da última sexta-feira a apresentarem pessoalmente suas queixas quanto ao pleito que reelegeu o ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad. O alvo do aceno é o reformista Mir Hossein Mousavi, líder do levante popular que está paralisando o Irã, mas o clérigo Mehdi Karubi e o conservador Mohsen Rezai também foram convocados a comparecer neste sábado diante do Conselho dos Guardiães da Revolução.
Instância criada após a Revolução Islâmica (1979), o órgão tem a missão de zelar pelo respeito aos princípios teocráticos que regem o país desde então.
As funções do grupo, que é composto de seis clérigos nomeados pelo líder supremo e seis juristas islâmicos indicados pelo Parlamento unicameral, incluem avalizar candidaturas a cargos eletivos e chancelar alterações legislativas.
O conselho anunciou hoje que os três candidatos derrotados apresentaram ao todo 646 denúncias de violação na votação de 12 de junho. Segundo o porta-voz dos guardiães, um candidato apresentou sozinho 390 denúncias -incluindo atrasos na entrega de cédulas, incitações a votar em Ahmadinejad e desvios do itinerário das urnas móveis.
O conselho já disse que acata a recontagem parcial de votos em regiões onde houve suspeitas de manipulação, mas deixou claro que não atenderá o pedido de anulação do pleito.
Os guardiães são sintonizados com o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, que endossou a reeleição de Ahmadinejad e o parabenizou por mais um mandato de quatro anos.
De acordo com os resultados oficiais, Ahmadinejad foi reeleito com 62,7% dos votos, margem que dispensou a realização de um segundo turno, que aconteceria ontem. O presidente teve 8 milhões de votos a mais do que em 2005, número tido como irreal pela oposição. Mousavi, que acabou com 33% dos votos, vê no pleito “fraudes em massa’’.
A Comissão Eleitoral negou pedido de Mousavi pelos resultados detalhados da apuração, alegando que a lei não dá aos candidatos tal direito. Mesmo que não resulte em mudança nos rumos da eleição, o convite aos candidatos derrotados é tido como recuo simbólico do governo diante da maior onda de protestos no Irã desde a Revolução Islâmica.
Mousavi liderou ontem pelas ruas de Teerã uma marcha convocada em homenagem aos sete mortos em choques com policiais nos protestos na segunda-feira. Atendendo a pedido do reformista, muitos manifestantes substituíram as roupas verdes - cor que simbolizou a campanha do candidato - pelo preto, como sinal de luto. Relatos de cidadãos comuns são praticamente o único meio de se saber o que acontece, já que as autoridades sustaram credenciais de jornalistas estrangeiros e bloquearam sites.
O governo iraniano reiterou ontem as acusações de ingerência externa ao dizer ter desbaratado uma conspiração terrorista fomentada por “forças estrangeiras” para explodir bombas em mesquitas e outros locais de Teerã durante a eleição.