Articulistas

A entrevista de Lula

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Na quarta-feira da semana passada (11 de junho), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu longa entrevista ao jornalista Stuart Grudgings e mais quatro colegas da Agência de Notícias Reuters. Li um resumo muito interessante na Internet, às vésperas da viagem do presidente à Ekaterimburgo, onde ele foi encontrar os demais chefes de Estado do grupo dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). Quase não houve repercussão na mídia brasileira, seja quanto às informações contidas na matéria seja em relação aos comentários dos jornalistas. Eles não escondem sua admiração diante do sucesso do líder-operário de pouca escolaridade que se tornou presidente e detonou as expectativas dos gestores de fundos e “especialistas” dos mercados financeiros que apostavam que a eleição de Lula seria um desastre para a economia brasileira.

Muito pelo contrário, cita a matéria, “a política econômica conservadora de seu governo superou há muito o pânico dos investidores enquanto programas sociais que ajudaram a tirar cerca de 19 milhões de pessoas da pobreza têm garantido índices invejáveis a seu governo, acima de 80% de aprovação popular. O “boom” econômico de cinco anos, alimentado pelas exportações de commodities e o charme do presidente - que funciona bem tanto em fóruns mundiais quanto em favelas do Rio de Janeiro - têm ajudado a transformar o Brasil numa força diplomática e em uma liderança do mundo em desenvolvimento. Sete anos depois de eleito Lula assume seu lugar num encontro das principais forças emergentes na Rússia, sem precisar disputar seu papel como salvador para a economia do Brasil e sua posição global”.

Na entrevista, o presidente revelou ainda que não esperava que avançasse a idéia de criação da moeda alternativa ao dólar americano nas transações comerciais entre terceiros países. Isso não chegou sequer a ser colocado como proposta na reunião dos BRICs e antes mesmo de viajar Lula já dizia que “gostaria de poder pagar em reais sem precisar comprar dólares... Mas isso não é uma coisa que se faz um acordo e começa a funcionar no dia seguinte”. E passou quatro informações de real interesse para o público interno que a imprensa brasileira, de um modo geral, não deu a devida importância (pelo menos na minha ótica): a primeira é que pretende manter integral o texto da Medida Provisória que trata da regularização fundiária na Amazônia, vetando, se preciso for, artigos inseridos no Congresso que possam contrariar o objetivo principal. A regularização vai permitir iniciar a tarefa de desvendar os mistérios amazônicos, sem o que não vamos ter propostas sérias para realizar o desenvolvimento e impedir a devastação; informou mais adiante que vai lutar para tornar permanente a redução dos impostos sobre produtos industrializados; a terceira é que não haverá terceiro turno eleitoral e por último, que pretende deixar para o sucessor - seja ele quem for - um orçamento garantindo a continuidade das obras do Programa de Aceleração do Crescimento - PAC.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor Emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

Comentários

Comentários