A idéia de que ao labutar muito qualquer trabalhador pode transformar-se em patrão e enriquecer é difundida pela ideologia capitalista, segundo o antropólogo Cláudio Bertolli, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Forte e presente, ela é uma maneira de cegar o indivíduo e garantir sua subordinação ao capital, afirma.
“A condição de vendedor da força de trabalho, de trabalhador, passou a ser considerada medíocre, cômoda, negativa”, diz o antropólogo. Por essa razão, sob lemas como o da ‘pró-atividade’, a cobrança exercida sobre os funcionários é cada vez maior, comenta. Ainda assim, ao acreditar na idéia de que com dedicação é possível começar como funcionário e tornar-se patrão, a pessoa não critica sua subordinação.
Pior. Quando a expectativa não é cumprida, a responsabilidade torna-se pessoal. Ela passa a ser, então, fracassada, perdedora. Na opinião de alguns, a pecha chega a ser pior que a de desonesta e corrupta. Para não sucumbir a tais fraquezas morais, tem ainda quem recorra à religião.
Por conta do contexto, muitos preferem ser ambulante a trabalhador formal. “Fiz uma pesquisa há muitos anos em São Paulo. 30% deles (dos ambulantes) eram pessoas que saíram do mercado de trabalho, pediram demissão para serem autônomos. Surpreende porque a gente pensava que (o ambulante) era o cara que havia perdido emprego ou não tinha outra opção”, conclui.
Do outro lado
Por mais de 40 anos, José Nelson de Campos trabalhou como funcionário de indústrias de calçado. Ganhava mal e trabalhava bastante. Depois, com a experiência adquirida por anos, abriu sua própria sapataria.
De tanto trabalho, chega a recusar serviço. “Qualidade e trabalho certo”, recomenda aos interessados em abrir negócio próprio. Ele ainda dá outro alerta: o novo empresário não pode mais se preocupar com sábados, domingos e feriados.