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Entrevista da semana: Fernando Antônio Dias

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Chargista criativo e motociclista aventureiro

Enquanto você está lendo esta entrevista, ele está no Paraná munido de capacete, jaqueta, botas de couro e muita sede de aventuras em mais uma de suas viagens cujos destinos costumam ser os encontros de motociclistas. Assim são muitos feriados e finais de semana do chargista Fernando Antônio Dias, o Fernadão, como é conhecido.

Quando não está desenhando, é assim que ele gosta de viver: sobre duas rodas e sentindo a sensação de liberdade que pegar a estrada com sua moto Shadow lhe proporciona. Pode-se dizer que a vida do chargista é dividida entre a arte do desenho e a paixão por motos. Como ele mesmo costuma falar: “o Fernandão não existe sem essas duas atividades”.

Amante, também, do bom e velho rock in roll, ele já perdeu a conta de quantas motos teve ou de quantos quilômetros já percorreu sobre duas rodas. O gosto por ‘pegar’ a estrada é tanto que ele faz parte do moto clube “Cães do Asfalto”, formado por motociclistas que têm como ideal curtir as emoções e alegrias das estradas.

Os traços de seus desenhos são bastantes conhecidos pelos leitores do Jornal da Cidade. Sua sensibilidade permite à crítica, uma dose certeira de humor que chama a atenção dos leitores há 18 anos. Conheça um pouco mais sobre a vida, os hábitos e os sonhos de Fernando Dias lendo os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - Quando você descobriu seu talento para o desenho? Fernando - Quando criança eu já adorava fazer desenhos. Nessa época, como a maioria dos moleques que gosta de fazer desenhos, o que eu mais gostava de desenhar eram personagens de histórias em quadrinhos e super-heróis.

JC - Sua família incentivava sua criatividade? Fernando - Bastante. A situação financeira da minha família não era muito boa, mas eu sempre tinha papel, lápis de cor, enfim, o material necessário para meus desenhos.

JC - Você já era criativo a ponto de inventar seus próprios personagens? Fernando - Sim, claro. Toda criança que gosta de desenhar um dia cria seus próprios personagens. Eu fazia gibizinhos. Já na escola, quando tínhamos os trabalhos em equipe, a arte e os desenhos sempre sobravam para mim.

JC - Qual foi seu primeiro trabalho como desenhista? Fernando - Na verdade, eu comecei a trabalhar com desenho fazendo cartazes para um supermercado. Eu devia ter uns vinte e pouco anos. Meu sonho sempre foi trabalhar com desenho e nunca pensei em ter outra profissão.

JC - Há quanto tempo você faz charges para o Jornal da Cidade? Fernando - Há 18 anos, aproximadamente. Como eu disse antes, sempre gostei muito de desenhar e trabalhava como cartazista de supermercado. Foi quando eu fiz um curso particular de caricatura com o chargista do Jornal da Cidade da época, o Alcione, hoje já falecido. Com o curso, ele pode conhecer meu trabalho. Alguns meses depois de ter terminado o curso, ele precisou sair do jornal, me indicou para a vaga e eu aceitei.

JC - Além das charges, quais são os seus outros trabalhos? Fernando - Eu também trabalho na Editora Alto Astral já há alguns anos e faço alguns freelancers na cidade.

JC - Dá para ganhar dinheiro com os desenhos? Fernando - Não muito. Dá para ter minha moto, viagens e minhas coisas. Não fiquei rico com os desenhos, mas é o que amo fazer. Já ouvi pessoas comentando sobre minhas charges e sem saber que eu as criei. Outras vezes, me elogiam dizendo que adoram meu trabalho, isso é muito gratificante.

JC - Hoje, o que te dá mais prazer ao desenhar? Fernando - Hoje em dia eu gosto de charge e cartoon, desenhos com uma certa dose de humor e sátira. Mas eu desenho o que for preciso.

JC - Você tem algum ídolo de profissão? Fernando - Não digo ídolo, mas eu gosto muito do trabalho do Fernando Gonsales, que faz o personagem Níquel Náusea. Também gosto do Laerte, entre muitos outros. São pessoas que têm um trabalho admirável.

JC - Você já expôs seus trabalhos? Fernando - Já fiz algumas exposições sim. Já expus minhas charges na gibiteca da Biblioteca Municipal e participei de algumas exposições em conjunto na cidade, mas nada muito grandioso.

JC - Há projetos maiores nesse campo? Fernando - Então, eu penso em fazer uma exposição maior sim. Mas a idéia é fazer com trabalhos inéditos e não com os publicados. Penso em expor charges e caricaturas, mas o que falta é tempo para fazer. Sonho em lançar um livro de charges, também.

JC - Há algum trabalho que você gostaria de fazer mas ainda não o fez por falta de tempo? Fernando - Gostaria de fazer caricaturas de muitas pessoas.

JC - O que você faz nas suas poucas horas vagas? Fernando - Nas minhas horas vagas eu gosto de viajar de moto, com certeza esse é meu hobby.

JC - E de onde vem essa paixão por motocicletas? Fernando - É uma coisa que eu não sei explicar e que há muito tempo faz parte da minha vida. Quando garoto, eu nunca tive vontade de ter um carro, como a maioria dos meninos. Eu sempre sonhei em ter motos.

JC - Você ainda tem lembranças da sua primeira moto? Fernando - Eu sempre tive vontade de ter uma moto e a minha primeira foi um modelo Agrale, uma moto velha que comprei quando eu tinha uns 20 e poucos anos. Na verdade, eu aprendi a andar de moto em uma Mobilete de uma namorada da época.

JC - Quantas motocicletas você já teve? Fernando - Nem sei quantas. Tenho lembranças de uma Saara. Uma moto que me acompanhou em muitas viagens. Hoje tenho duas, uma que uso para o trabalho e a minha moto de passeio, uma Shadow.

JC - Qual foi sua viagem mais longa sobre duas rodas? Fernando - Fui para Florianópolis. Foi uma viagem que fiz com um casal de amigos. Eles foram de carro e, eu, de moto. Foi uma viagem muito boa que eu fiz há uns oito anos. Demoramos uma semana para chegar até o destino porque fomos parando e conhecendo tudo pelo caminho. Nossa idéia foi exatamente essa, ir parando pelo litoral e curtir o caminho e as praias.

JC - Quais lugares você já percorreu de moto? Fernando - Muitos lugares. Já fui para Florianópolis, Trindade, Parati, Minas Gerais, conheci muitas cidades de São Paulo participando de encontros de motociclistas. Uma das estradas que mais gosto de viajar é a Rio-Santos. Posso dizer que é uma das mais bonitas de São Paulo e até do Brasil. Suas praias, montanhas, vista do mar e as matas são de uma beleza incrível.

JC - Você costuma freqüentar muitos encontros de motociclistas? Fernando - Sim. A idéia é ficar o maior tempo possível na estrada. Participo, há quase dez anos, de um grupo chamado “Cães do Asfalto”, formado por pessoas apaixonadas por motos. Somos bastante organizados com estatuto e regras. Viajamos juntos para os encontros e realizamos eventos sociais para ajudar entidades carentes como creches, por exemplo.

JC - O grupo é formado por quantas pessoas? Fernando - Aproximadamente 30 pessoas de todas as faixas etárias das cidades de Bauru, São Carlos, Limeira e Bebedouro. Nossas motos não são consideradas de velocidade, o que gostamos mesmo é das viagens, de curtir a estrada. Eu respeito o gosto de quem curte moto pela velocidade, mas essa não é a minha praia.

JC - Você deve ter passado por muitas histórias engraçadas por essas estradas, certo? Fernando - Muitas! Sempre que estamos na estrada acontecem coisas divertidas. Já erramos caminhos, ficamos horas à beira da estrada porque a moto de alguém quebrou. Nosso grupo é assim: quando uma moto quebra, todos paramos juntos, não seguimos o caminho se alguém ficou para trás. Já aconteceu da minha moto quebrar e eu estar sozinho na estrada, mas tive a sorte de ficar menos de meia hora antes do socorro chegar.

JC - De todas as histórias, quais marcaram mais? Fernando - Nunca sofri nenhum acidente grave, apenas alguns arranhões e coisas assim. Mas chuva e frio, isso já peguei muito por essas estradas, de ficar tremendo de frio por um bom tempo. Uma vez, estávamos indo para uma festa de aniversário do nosso moto clube em Limeira e tínhamos que levar muitas coisas. Então, colocamos tudo em um carro, uma das motos quebrou no caminho e paramos para esperar o amigo que ficou para trás. Lembro-me que o sol estava tão quente naquele dia e tinha uma árvore na beira da estrada. Decidimos colocar o carro embaixo daquela árvore, mas, o que parecia ser grama era, na verdade, um atoleiro. Imagine a cena, todo mundo atolado de roupa de couro e botas. Isso é para você ver a prática que temos com carros, conseguimos atolá-lo em uma pista dupla. Outra vez, estávamos na estrada e quebrou a moto do nosso amigo. Tivemos que amarrar uma corda na moto dele e puxar até o próximo posto. Damos boas risadas quando nos lembramos de coisas assim.

JC - Qual é o seu sonho de viagem sobre duas rodas? Fernando - Viajar por todo o Brasil e fazer a Rota 66, nos Estados Unidos. Esse é um trajeto histórico e que possui um certo misticismo. Não sei quando vou, mas pretendo ir logo.

JC - O que você sente quando está na estrada sobre uma motocicleta? Fernando - Me sinto liberto.

JC - Você gosta mais de desenhar ou de ‘pegar’ a estrada? Fernando - Gosto dos dois e não dá para separar. O desenho para mim é tudo, um hobby e meu ganha-pão, e a motocicleta é minha paixão. Sem essas duas atividades não existe o Fernando.

JC - O seu estilo sempre com motocicleta, jeans e jaqueta de couro remetem ao rock. Você é roqueiro? Fernando - Sim, eu adoro o Rock’n Roll. Na verdade, gosto de quase todos os tipos de rock. Gosto muito de Ramones, Rolling Stone, entre outras bandas e estilos. Quando adolescente, eu viajava de trem, carona, tudo em nome dos shows de rock. Meus amigos me chamavam para ir a São Paulo ou outras cidades para assistir a shows e nós pegávamos a estrada, do jeito que fosse possível.

JC - O que mais o desenhista Fernando gosta de fazer? Fernando - Adoro ler livros, revistas, jornais, gibis, enfim, sou amante da leitura. Além disso, o cinema é uma outra paixão minha e filmes de aventura são os preferidos.

JC - Você passa grande parte do seu tempo livre com os amigos. O que é a amizade para você? Fernando - Ela é fundamental. Eu tenho muito orgulho de ter muitos amigos. Nos encontros que freqüento, por exemplo, faço amigos de todas as partes do país.

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