Cultura

Opinião contra a repressão

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 5 min

“Podem me prender/ Podem me bater/ Que eu não mudo de opinião”. Os versões de “Opinião”, música de Zé Kéti, realçam o sentido político do espetáculo de mesmo nome que o artista, ao lado de Nara Leão e João do Vale, levou ao palco, em 1964. Considerado um marco na história da música e do teatro brasileiro, o musical foi recriado por músicos de Bauru e será apresentado em sessão única, amanhã, a partir das 21h, no Templo Bar.

Sob a direção de Sivaldo Camargo, que também integra o elenco, os músicos Audren Victorio, Denise Amaral, Regina Mancebo e João Paulo Biano, além de Norba Mota (violão), Marquinhos Belinazzi (baixo) e Toninho Martins (bateria), encararam o desafio de trazer de volta aos palcos o espetáculo que representou um ato de resistência ao golpe militar, em 1964.

“Mergulhamos na história e contexto do show e descobrimos o quanto ele é interessante e o quanto representou para época. Além de ser pouco conhecido por muitas pessoas”, considera Carmargo sobre a recriação do espetáculo, montado com destaque nacional pela última vez, em 1975, por Bibi Ferreira.

Para o diretor, o show destaca-se como marco tanto no âmbito da ditadura como da produção artística brasileira. “Foi o primeiro musical genuinamente brasileiro, ao unir música e teatro em um mesmo espetáculo. Além disso, foi a primeira grande manifestação artística feita durante a ditadura. Podemos perceber várias críticas no texto como, por exemplo, Zé falando para Nara que vermelho estava fora de moda. Agiam de forma sutil, mas sem deixar de serem críticos”, avalia.

Segundo o diretor, a reprodução do show com autenticidade foi uma das principais preocupações do grupo. “Mudamos muito pouco. No caso dos arranjos, por exemplo, tentamos manter o mais próximo possível dos originais. Foi feito mais uma adaptação para o tom dos cantores”, explica.

Essa busca pelo autêntico foi o que fez, também, com que o show recebesse três cantoras bauruenses para o lugar de Nara Leão. “Em 65, em São Paulo, foi Maria Bethânia quem assumiu o papel da Nara. Percebemos que algumas coisas ficavam melhor na voz de uma do que na outra. Assim, procuramos cantoras com timbres parecidos para que, assim como elas, na época, esse papel fosse dividido”, considera o diretor. “A idéia é fazer com que o público que viu o espetáculo na época reviva aqueles momentos emocionantes, enquanto os que não viram, tenham a oportunidade rara de conhecê-lo”, completa Camargo.

“Opinião” estreou em dezembro de 1964, no teatro do Shopping Center Copacabana, sede da Companhia de Teatro de Arena no Rio de Janeiro, com direção de Augusto Boal, texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, e direção musical de Dori Caymmi.

Roteiro

Assim como no original, 24 canções integram o roteiro da remontagem do show “Opinião”. Dividido em duas partes, o espetáculo aborda, na primeira, as tradições populares do Nordeste, as mazelas dos que migravam para as grandes cidades e a vida difícil nos morros cariocas. Na seqüência, o espetáculo discute a luta política na América Latina, além de questões como a produção de arte no Brasil. “A produção do show se dá a partir de relatos pessoais dos três cantores, como depoimentos sobre suas dificuldades artísticas, a opção pela música e seus desafios de vida”, explica o diretor, Sivaldo Carmargo.

Zé Kéti representava o samba marginal e suburbano do Rio de Janeiro; João do Vale, o migrante nordestino pobre que partia para os grandes centros econômicos do País; e Nara Leão, a menina da classe média urbana da Zona Sul do Rio de Janeiro, que vivia no universo da bossa nova. Dessa forma, por meio de diferentes canções, como “Peba na Pimenta”, que abre o show, os artistas colocam temas como a vida miserável do nordestino, os impasses e as dificuldades daqueles que migram para o Centro-Sul - acrescentam-se dados estatísticos sobre a fome, o analfabetismo e a mortalidade infantil no Brasil -, e a dificuldade dos artistas populares em gravar sambas e baiões.

“O show tem uma dinâmica muito legal. O Zé (Kéti) estava muito envolvido com o Cinema Novo e essa é uma referência que também aparece bastante, por meio dos textos e das canções”, comenta Camargo.

Apesar de assumir o papel de Zé Kéti, para o músico João Paulo Biano, integrante dos grupos Monte de Bossa e Mister Up Band, foi a postura de Nara Leão que mais lhe provocou fascínio. “Ver uma jovem de classe média indo contra sua família e rompendo com a própria cultura me impressionou muito. Estou feliz por ter a oportunidade de conhecer melhor esses três ícones da nossa música. Virei fã do ‘Opinião’”, destaca.

Entre os músicos, é unânime a eleição de “Carcará”, de José Cândido e João do Vale, como o ponto alto do show. A música, que mais tarde tornaria-se um dos símbolos contra a ditadura, faz referência à ave rapina do Nordeste, entendida como um símbolo da pobreza da região. “E hoje, mesmo depois de 45 anos, o Nordeste é uma questão que ainda enfrentamos. Outra riqueza do espetáculo é essa atualidade”, considera Camargo.

Entre as outras canções, estão “Pisa na Fulô”, “Partido Alto”, “Cicatriz”, “Desafio”, “O Favelado”, “Canção do Homem Só” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. (KB)

Serviço

Show “Opinião” amanhã, às 21h, no Templo Bar (rua Benjamin Constant, 1-34). Não serão vendidos ingressos antecipados. Entrada: R$ 10,00. Mais informações: (14) 3223-3493.

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