Economia & Negócios

Cheque especial deixa correntista no vermelho por 22 dias no mês

Por Lígia Ligabue | Com Agência Estado
| Tempo de leitura: 5 min

Quem tem conta em banco sabe bem que o cheque especial - crédito disponibilizado ao cliente, que se usado, deve ser devolvido com encargos - pode se tornar uma armadilha. Muitos correntistas começam usando um pouquinho do crédito e, com o passar dos meses, acabam em uma situação insustentável. Pesquisa divulgada pelo Banco Central (BC) mostra que, em março e abril deste ano, o correntista passou 22 dias do mês no cheque especial. Ou seja, muita gente ficou com a conta positiva apenas 8 dias. O restante do mês passou no vermelho.

O brasileiro sempre aproveitou o crédito do cheque especial. Desde que o BC começou a acompanhar o uso desse empréstimo automático, a média de dias de uso nunca foi menor a 19. Mas com a chegada da crise financeira mundial, a situação se agravou. Em outubro do ano passado, o crédito foi usado, na média, por 22 dias pela primeira vez na história. Esse número voltou a se repetir em março e abril deste ano.

O problema é pior para 9,7% desses clientes. Para este grupo, a conta corrente não volta a ficar positiva quando o salário chega. Isso porque um em cada dez usuários do cheque especial está permanentemente no vermelho há pelo menos 3 meses, situação que caracteriza, para o Banco Central, inadimplência.

O economista e consultor Adriano Fabri pondera que a crise e o crescimento dos índices de desemprego incidem no aumento de dias que os clientes bancários passam no vermelho, mas ele ressalta que é preciso resistir à tentação. “O desemprego sem dúvida é um dos motivos de descontrole do orçamento pessoal e o nível de emprego e renda foi afetado pelo momento econômico mundial difícil. Porém, em relação ao cheque especial, temos mais alguns fatores a considerar. O primeiro é a facilidade de uso. Crédito fácil é igual a uso fácil do dinheiro”, destaca.

Fabri pondera que o uso crônico do crédito é uma questão de hábito. “Concordo sim que seja um problema cultural, pois as pessoas não vêem o cheque especial como empréstimo e acabam incorporando-o à renda e direncionando os valores ao consumo. Acabam também deixando de perceber que, quanto mais fácil o crédito, mais caro é”, observa.

Para ele, o brasileiro precisa parar de considerar o especial como dinheiro extra. “Se as pessoas o vissem como empréstimo, seria o mesmo que buscar um crédito pessoal no banco para consumir além do que ganha”, aconselha.

Além do problema cultural e da conjuntura econômica atual, ele também avalia que o que leva ao uso indiscriminado do cheque especial é o costume que o brasileiro tem de se endividar para consumir - aproximadamente 90% do consumo é a prazo no País. E a situação ainda se agrava com o fato das taxas de juros brasileiras serem as mais altas do mundo.

Armadilha

O cheque especial é um contrato existente entre o banco e o consumidor para que a instituição financeira disponibilize crédito de um determinado valor, vinculado a sua conta bancária. Caso seja utilizado, deverá ser devolvido acrescido de juros e outros encargos.

O cliente deve ter cuidado, pois há bancos que, no extrato, somam o saldo da conta corrente com o valor disponível para o cheque especial como se fossem uma coisa só. O consumidor tem a falsa impressão de que esta soma compõe seu saldo real.

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Crédito deve ser usado só em caso de emergência

O economista e consultor Adriano Fabri avalia que por conta dos encargos pesados que incidem sobre o cheque especial, este crédito só deve ser usado em casos específicos. “Esse crédito fácil deve ser usado apenas em emergência. Pelo custo, não pode ser usado com freqüência. Até porque você usa uma vez e, se não cobrir, terá juros mensalmente. Dessa forma, o correntista tem mais uma despesa incorporada ao orçamento”, ressalta.

Fabri aconselha quem estiver usando o cheque especial praticamente durante todo o mês a quitar rapidamente a dívida. “Veja a possibilidade de fazer um empréstimo pessoal, de preferência consignado, que as taxas podem chegar a 25% da cobrada no cheque especial. Antecipar o décimo terceiro ou a restituição do Imposto de Renda também podem ser boas alternativas”, diz.

Dessa forma, explica o economista, o valor empregado para pagar juros do cheque especial pode ser usado para quitar as parcelas do empréstimo. “Claro que essa alternativa tem que ser combinada com um bom planejamento”, pondera. Além disso, ele ressalta que as orientações só funcionam se houver disciplina para seguir o que foi planejado.

Outra dica é manter padrão de vida compatível com a renda. “Ostentar algo que não possuímos é endividamento na certa”, diz. A família também deve ficar a par da situação. Por fim, Fabri orienta os consumidores a refletir antes de comprar. “Pondere sempre: satisfação presente versus tensão no futuro”, destaca. “E tenha paciência. Quando possível, faça uma poupança para fazer compras à vista. O dinheiro valerá muito mais”, afirma.

A auxiliar de classe Elaine Cristina Massucci, 31 anos, conta que a situação financeira de sua casa está mais controlada agora que cortou os cartões de crédito e cancelou o limite especial. “A situação começou a ficar complicada, pagava só o mínimo da fatura do cartão, depois entrávamos no cheque especial. Virou uma bola de neve”, lembra.

Para recuperar o equilíbrio, cortou as maiores fontes de juros. “Parei com o cartão de crédito e o cheque especial. Agora, só pago à vista. Ainda tenho pendências, mas aos poucos vamos saindo”, avalia. Para ela, a pessoa com dívidas deve se planejar. “O melhor é fazer um orçamento e ir acertando as contas. O importante é não deixar enrolar, senão perde o fio da meada”, diz.

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