O futebol nos apresenta nuances interessantes. Uma delas nos mostra quão tênue é a linha que separa o amor do ódio, a consagração do fracasso, a valorização do desprezo, enfim, o apoio do empurrão para o abismo. Sou corintiano, eternamente apaixonado pelo Timão, e confesso que não faço muita questão de almejar sucesso aos meus rivais neste “mundo da bola” que é o Brasil. Mas se existe um técnico de futebol que, embora quase sempre mal-humorado, veste a camisa da seriedade no trabalho, do bom caráter e da obstinação em busca das vitórias este é o Muricy Ramalho, do São Paulo Futebol Clube. Aliás, era. Foi despedido e desconsiderado depois de levar o Tricolor do Morumbi a tantas glórias e títulos por mais de 350 jogos. Títulos conquistados (Brasileiros e Libertadores) viraram fumaça na lembrança da diretoria do time do Morumbi.
De herói de muitas batalhas, Muricy foi transformado no bandido, no maior vilão, condenado por perder alguns jogos. Que pena! Que crueldade e falta de consideração! Esqueçamos da parte financeira, pois a situação dos grandes técnicos é altamente confortável, mesmo rompendo-se os contratos. Mas, onde fica a dignidade, a dedicação e o brio de saber do dever cumprido com suor e lágrimas e receber tamanha ingratidão?
Poderíamos comparar a diretoria do São Paulo, neste infeliz episódio do brilhante técnico Muricy, com aquela esposa ninfomaníaca que solicita ao seu viril marido 6, 7, 8, 9 transas seguidas e, quando o dedicado esposo-garanhão sucumbe sem completar a décima, ela simplesmente o chama de frouxo... Foi mais ou menos o que o São Paulo fez com seu treinador: esqueceu dezenas de ápices e o condenou por uma “afrouxada”. Lamentável!
Fernando Lucilha Jr.