Lá estávamos nós, em Porto Morrinhos no Mato Grosso do Sul, no aconchegante Rancho Bauru, às margens do lendário rio Paraguai. Na foto ao lado, pela ordem, Tadeu, mui falante e mais conhecido como “enciclopédia ambulante” pelos conhecimentos que formam seu arquivo mental. Niltinho, mais tranquilo e sossegado do que filho de deputado corrupto. Maurício, conhecido popularmente como “guarda-livros”, que mal aparece na foto (abaixo), fazendo o “V da vitória” na cabeça do Cabral. Cirilo Messias, grande gozador, mais gozador do que pescador. Fernando Lucilha, este que vos escreve, apaixonado pela pesca e, por fim, sentado na maior folga, o nosso jovem Cabral, que não descobriu o Brasil, mas conhece muito bem o “caminho das índias”!
Seria uma pescaria normal, não fora o episódio narrado pelo nosso grande amigo Tadeu. Foi assim... Saímos todos para a pesca, menos o Tadeu, que não estava muito a fim. Ficou sozinho no rancho, exposto aos perigos que o Pantanal oferece.
Quando de nossa volta, o susto! Tadeu estava pálido, com a roupa rasgada, ofegante e todo molhado! - O que aconteceu, você está bem? - gritamos todos juntos.
- Vocês não vão acreditar!
E começou a falar... - “A solidão e o silêncio de ter ficado só me levaram a armar uma linhada com linha 80, tendo como isca uma piranha inteira que, despretenciosamente, atirei ao rio. A calma das águas mansas do belo rio Paraguai me trazia uma paz momentânea. Aconcheguei-me na cadeira de balanço junto à margem segurando a linhada e quase adormeci. Repentinamente, a linha esticou e puxou rio adentro com tanta força, que me arrastou com cadeira e tudo! Que desespero, cara!
Deu tempo de pegar um facão que estava na cadeira, pensando em cortar a linha. A água já passava de minha cintura e eu segurando a linha com uma mão e na outra, o facão. O rio começou a borbulhar, a água ficou agitada e eu vi que tinha fisgado uma sucuri enorme! A cobra gigante se contorcia toda, jogando água pra tudo que era lado e veio pra cima de mim com aquele bocão aberto! Com o facão, acertei a cobra, cortando a bitela ao meio!
Não é que a bandida tinha engolido um jacaré inteiro! E o pior: o sangue na água atraiu as piranhas. Foi um Deus nos acuda! Com a água no peito, dançando mais que o Fred Astaire, comecei a golpear as piranhas para fugir das mordidas! A linha tinha sumido, pois o rio levou tudo, a cobra dividida em duas partes e o jacaré mortinho, todo amassado, coitado!
As piranhas foram atrás deles, graças a Deus, e assim pude retornar à margem, esbaforido e sem forças. Pensam que acabou? Pra completar a loucura, já fora do rio, dei de cara com um lindo e assustador urso polar branco, de 2 metros de altura que, graças a Deus, fugiu para o mato sem me atacar.”
Ficamos todos com aquela cara de “conta outra, Tadeu”! Foi aí que eu falei por todos : - Ô Tadeu, peraí, peraí! Você fisgou a sucuri, que engoliu o jacaré e que atraiu as piranhas. Até aí tudo bem, pois são habitantes do Pantanal. Agora, um urso polar branco por estas bandas já é demais!
Pasmem com a resposta do Tadeu: - É verdade, concordo pessoal, pois antes dele sair correndo, peguei o urso pelas orelhas e falei: o que é que você tá fazendo aqui, rapaz!!! O Tadeu quase foi linchado, mas a pescaria acabou bem!
Fernando Lucilha é pescador e contador de histórias