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Celebridade, fama e anonimato

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A morte de Michael Jackson ocupou as manchetes dos jornais e da mídia eletrônica de todo o mundo. No Twitter, que é o formato criado em 2006 para comunicação mais sintética na Internet, com 140 caracteres, as mensagens relacionadas ao cantor falecido chegaram a 5 mil por minuto. Deu pane no sistema.

Toda sua carreira, iniciada aos 5 anos, foi um fenômeno. Ele já vendeu 750 milhões de discos. Se fossemos calcular os CDs piratas, deveríamos multiplicar por dez esse número da distribuição oficial. Ganhou 13 Grammys e tornou-se o maior artista pop de todos os tempo. Deve ter faturado US$ 300 milhões só das gravadoras, o que lhe permitiu uma existência bizarra e cheia de excentricidades. Torrou tudo e deixou mais US$ 400 milhões de dívidas. Casou-se com a filha de Elvis Presley, Lisa Marie. A popularidade do sogro desaparece perto da sua, graças aos infinitos recursos tecnológicos dos quais a megaindústria do entretenimento se apoderou na passagem do século.

O fascínio público por celebridades chega a se constituir num culto, sem o sentido religioso. Essa idolatria não surgiu no século 20, mas foi a partir dele que estabeleceu uma relação íntima com toda uma indústria aliada a revistas, jornais, cinema, programas de televisão e a Internet. Dizem que é natural para os seres humanos prestar atenção em indivíduos que são notícia, por serem bem sucedidos socialmente. O homem e a mulher da caverna também tietavam os mais fortes e bravos caçadores e as crianças, fascinadas, procuravam copiá-los. Só que os estudiosos do comportamento humano estabelecem uma diferença entre famoso e célebre. Ser famoso é só pré-requisito para o status de celebridade. Famoso até criminoso pode ser, graças à publicidade dada pela mídia. Por isso mesmo, “infâmia”, no latim, era antônimo de fama pelo seu perfil de alguém reconhecido, mas no sentido do mau exemplo.

Os Beatles se declararam mais conhecidos que Jesus Cristo, pela penetração que tiveram também fora do mundo judaico-cristão. Michael Jackson conseguiu sintetizar sem revolucionar. Não mudou nada, mas mostrou talento musical, dotes de voz, de composição, de coreografia e de controle da carreira. Sua obsessão plástica o levou a dez cirurgias que o deformaram. Provavelmente, eram propostas de libertação, de se aproximar do seu ideal estético. Segundo ele mesmo, queria ter o rosto da cantora Diana Ross.

Vítima da síndrome de Peter Pan recusava-se a ingressar na fase adulta e insistia em continuar brincando com as crianças que arrastava para o seu parque de diversões particular, justamente chamado de Neverland (Terra do Nunca), na Califórnia. Para atrair mais suspeitas sobre a sua vida íntima, convidou para uma temporada em casa o então ator mirim Macaulay Culkin, astro da série “Esqueceram de mim”.

Em 1993, o cantor foi acusado de abusar sexualmente de um menor de idade. Segundo relatos da época, Jackson fez um acordo milionário com a família da suposta vítima. Daí para frente, ficou anos sem gravar porque não parou mais de responder a processos. Acabou absolvido das dez acusações. Suas duas passagens pelo Brasil foram significativas, principalmente a última, quando gravou o clipe da canção “They Don’t Care About Us” (eles não ligam para nós) com o grupo Oludum, na Ladeira do Pelourinho, na Bahia, e no Morro Santa Marta, no Rio. Antes, em São Paulo, sua comitiva atropelou um garoto e ele foi visitá-lo no hospital.

Em maio deste ano, surgiu a notícia de que estaria sofrendo de câncer de pele, mas foi desmentida logo em seguida. Esse comportamento que muitos consideram patológico, para outros pode ter sido uma série de excentricidades fabricadas para sustentar a sua celebridade.

O primeiro a anunciar sua morte para o mundo foi o site de celebridades TMZ, que deixou a TV e as outras mídias para trás. Até nisso, ele foi diferente. Manteve o mesmo trem de vida, com a saúde fragilizada já aos 50 anos. Se foi feliz, ninguém sabe. Com certeza deve ter se divertido muito. Deixa briga para uma centena de advogados. Imagine os direitos sobre os seus discos a serem relançados em ondas mundiais! Milhares de clones vão aparecer e repetir seus sucessos ao longo do século. Deixa também uma luva sem mão.

Famosos, célebres, anônimos. Tenessee Williams, em “Doce Pássaro da Juventude”, fala através do personagem Chance que a grande diferença não está entre quem é rico e quem é pobre, bom ou mau, célebre ou desconhecido. O que temos de levar em conta é quem teve prazer no amor e quem apenas observou o tempo passar, com inveja doentia de quem soube amar.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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