O progresso da medicina ocorrido nas últimas décadas ajudou a aumentar a expectativa de vida da população, tanto que, hoje em dia, é bastante comum as pessoas ultrapassarem a marca de 80 anos. A evolução das técnicas cirúrgicas e de terapia intensiva também fez com que crescessem as chances de sobrevivência dos portadores de enfermidades graves. Mas tais avanços trouxeram uma contrapartida salgada para os pacientes: infecções hospitalares.
“Se, antes, os pacientes em estado grave morriam mais rapidamente, nos dias atuais, as chances de sobrevida aumentaram bastante. A pessoa continuará viva, ainda que com a saúde debilitada. Com isso, ficará mais sujeita a possíveis infecções”, pondera o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, que é infectologista.
Ele comenta que a utilização cada vez mais freqüente de técnicas invasivas (incisões, tubos e cateteres) também contribui para a ocorrência dessas infecções. “É o preço que estamos pagando pelo avanço da medicina”, avalia Monti.
Hoje, as infecções hospitalares representam um dos principais motivos de “insônia” para os responsáveis por administrar hospitais, sejam eles públicos ou privados. Embora existam relatos bem antigos a respeito do problema, as infecções hospitalares só ganharam notoriedade junto à opinião pública brasileira durante a cobertura da lenta e dolorosa agonia do presidente Tancredo Neves, em meados dos anos 80.
Desde então, médicos e hospitais passaram a conviver com a desconfiança velada dos pacientes (“Será que terei destino semelhante ao de Tancredo, quando for internado?”) e infecção hospitalar passou a figurar no imaginário coletivo como sinônimo de erro médico.
De fato, os próprios médicos reconhecem que o paciente não dispõe de muitos meios para se resguardar contra infecções dessa natureza. Depois que deu entrada em uma unidade de terapia intensiva (UTI), por exemplo, a única coisa que pode fazer é torcer para que os profissionais que ali trabalham sigam à risca todas as regras necessárias para se evitar o contágio de doenças. Por outro lado, é preciso reconhecer que, dos anos 80 para cá, as instituições de saúde passaram a intensificar o cerco aos agentes infecciosos.
“As pessoas precisam entender que as infecções hospitalares não estão necessariamente relacionadas a erros médicos. Aliás, são eventos já esperados, que não devem ser encarados como um caminho sem volta. Hoje em dia, a medicina dispõe de meios para tratar a maioria das infecções existentes”, afirma Monti.
“Se algum administrador de hospital disser que a instituição que dirige está livre de infecções, estará mentindo descaradamente”, garante o diretor clínico do Hospital da Unimed, o ortopedista Roger Tedde Mansano. Na instituição, são realizadas, mensalmente, mais de 3 mil internações e cerca de 700 cirurgias. O local costuma registrar índice de infecção hospitalar de 0,5% - os níveis tolerados pelo Ministério da Saúde variam entre 0 e 2%.
Atualmente, todos os hospitais são obrigados a manter comissões multidisciplinares (formadas por médicos, profissionais de enfermagem, nutricionistas e até engenheiros) para controle de infecções (as chamadas CCIHs). “Elas monitoram a ocorrência de infecções e tentam estabelecer barreiras e rotinas capazes de impedir o trânsito de germes”, explica Carlos Alberto Monte Gobbo, conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM).
A maioria das infecções hospitalares é ocasionada por bactérias - os casos envolvendo vírus ou fungos são mais difíceis de ocorrer. As formas de contaminação podem variar. Muitas vezes, o microorganismo é transportado pelas mãos do próprio profissional de saúde (para isso, basta que a pessoa não tenha seguido à risca as normas de higiene antes de lidar com o paciente).
Em outras ocasiões, o germe pode estar em algum instrumento (ou indumentária) que não foi devidamente esterilizado. Um trabalho desenvolvido pelo estudante israelense Steven Murkin e apresentado no 104.º Encontro da Sociedade Norte-Americana de Microbiologia sustentou que médicos que usam gravata podem colocar em risco a saúde de seus pacientes.
De acordo com Murkin, as gravatas convertem-se em “esconderijo” para inúmeros microorganismos patogênicos (é preciso lembrar que as pessoas as usam várias vezes sem lavar). Como muitos homens têm o costume de ficar mexendo no adereço a todo instante, haveria o risco de o médico contaminar o paciente simplesmente porque resolveu ajeitar a gravata antes de examiná-lo.
Obviamente, é muito mais difícil alguém adquirir uma infecção hospitalar durante um atendimento ambulatorial. As contaminações dessa natureza são mais comuns quando o paciente é submetido a procedimentos invasivos. Não por acaso, os níveis de infecção hospitalar costumam ser bem maiores nas UTIs e nas salas de cirurgia.