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‘Caso Tancredo’ alertou o País sobre infecções

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

A morte de Tancredo Neves, em 1985, antecedida por um longo período de agonia que se iniciou na véspera sua posse, ajudou a dar notoriedade ao problema das infecções hospitalares. Escolhido por meio de uma eleição indireta, o mineiro seria o primeiro civil a assumir a Presidência da República, depois de 20 anos de governos militares.

A eleição de Tancredo - que tinha apoio das forças democráticas e progressistas - era vista, por muitos, como um sinal de que o Brasil iria, de fato, voltar a ser uma democracia. Porém, em 15 de março, véspera de sua posse, Tancredo precisou ser internado no Hospital de Base de Brasília, com fortes dores abdominais. O vice, José Sarney - hoje senador pelo PMDB -, assumiu interinamente em seu lugar.

Tancredo passou por sete cirurgias no intestino e permaneceu internado por mais de um mês. Faleceu vítima de uma infecção generalizada, provavelmente adquirida durante uma das operações pelas quais passou.

No período em que Tancredo esteve entre a vida e a morte, foi criado um grande circo midiático em torno de sua agonia. Foi assim que o termo “infecção hospitalar”, antes tão pouco abordado pela imprensa, passou a fazer parte do imaginário do brasileiro.

Especialistas acreditam que o presidente foi contaminado por bactérias que se encontravam alojadas em seu próprio aparelho digestivo. No intestino, esses microorganismos se comportavam de maneira inofensiva. “Deslocados”, porém, para outras regiões do corpo de Tancredo, tornaram-se altamente nocivos e difíceis de ser combatidos.

Como o político tinha idade avançada (75 anos) e já se encontrava com a saúde bastante debilitada, seu organismo não foi capaz de reagir à infecção. Ele morreu em 21 de abril.

Na época em que Tancredo faleceu, chegou-se a cogitar que a infecção hospitalar teria sido ocasionada por uma suposta superlotação no centro cirúrgico do Hospital de Base de Brasília.

O detetive

Não é de hoje que as infecções hospitalares atormentam os profissionais de saúde. Em meados do século 19, o médico húngaro Ignaz Philipp Semmelweis (1819-1865) empreendeu uma investigação digna de livro de suspense, na tentativa de solucionar um problema que o atormentava.

Em 1844, Semmelweis assumiu como médico na maternidade do Hospital Geral de Viena. O local era dividido em duas alas: na primeira, atuavam os estudantes de medicina; na segunda, parteiras com treinamento em obstetrícia.

A fama dos estudantes era péssima e a ala em que atuavam era vista pelas mulheres como uma espécie de ante-sala do Paraíso. O temor das mães era justificado: na parte onde os alunos de medicina atendiam, os índices de mortalidade materna por febre puerperal eram três vezes maiores do que na ala das parteiras.

Até então, ninguém sabia explicar a razão para essa diferença nos índices de mortalidade. Em 1846, Semmelweis passou a analisar hipóteses que dessem conta de explicar a situação. Chegou relacionar os óbitos ao costume que um padre local tinha de tocar uma sineta, minutos após a extrema-unção, para anunciar a morte de alguma paciente.

Para o “médico-detetive”, o som da sineta poderia induzir as demais mulheres a um estado de aflição tão intenso que elas acabavam ficando mais suscetíveis a enfermidades. Censuradas as “trombetas da morte”, as mães continuaram falecendo na ala dos estudantes.

Semmelweis conseguiu solucionar a charada graças a um evento trágico envolvendo um colega de hospital. Durante uma necropsia, seu amigo Jacob Kolletschka cortou o próprio dedo com um bisturi.

A infecção se generalizou e Jacob acabou morrendo com sintomas semelhantes aos apresentados pelas mães com febre puerperal. Semmelweis lembrou-se que, antes de realizar os trabalhos de parto, os estudantes costumavam ir às aulas de anatomia onde manipulavam cadáveres. Depois, com as mãos ainda sujas, iam atender as parturientes.

Semmelweis concluiu que a doença era transmitida por partículas cadavéricas que entravam em contato com o sangue das pessoas. Determinou, a partir daí, que os alunos lavassem as mãos em uma solução com ácido clorídrico, antes de entrar na sala de cirurgia. Em 1847, quando a medida passou a ser adotada no Hospital Geral de Viena, os índices de mortalidade materna caíram para 3%, contra quase 12% no ano anterior.

Tempos mais tarde, o cientista francês Louis Pasteur descobriria que as tais “partículas cadavéricas” eram, na verdade, microorganismos vivos (fungos, bactérias e vírus).

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