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Entrevista da semana: Guiomar Chinelatto

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 9 min

Um dilema de grande parte das mulheres modernas do século 21, Guiomar Chinelatto já enfrentava, na década de 1960 e 1970, o desafio de conciliar vida profissional e pessoal. Mulher independente, à frente de sua época, inventiva e bem sucedida, ela cuidou de si mesma sem precisar estar à sombra - ou mesmo ao lado - de homem nenhum.

Hoje, aos 72 anos, embora lamente a falta de um companheiro, orgulha-se da trajetória ao longo de mais de quatro décadas como uma das principais modistas da alta sociedade bauruense. Tempo dos bailes nos clubes e casamentos luxuosos, sempre registrados com pompa pelas páginas de jornais.

Vinda de Catanduva, filha de pai ferroviário e mãe dona-de-casa, dona Guiomar chegou a Bauru e aqui montou seu ateliê, onde produziu verdadeiras obras de arte: elegantes vestidos de gala apreciados até mesmo pelo famoso costureiro Clodovil Hernandes.

Nos tempos áureos, chegou a vestir a então modelo Xuxa Meneghel, em um dos incontáveis desfiles de que participou. Com certa modéstia e muita descrição, Guiomar quebrou tabus, lutou contra um câncer e guardou histórias de bastidores daquela época que poderão ser conferidas nesta entrevista concedida ao JC.

JC - Quando a senhora começou a trabalhar com moda?

Guiomar - Comecei a trabalhar aos 18 anos para uma casa de moda. Só aos 22 é que fui ter meu próprio ateliê. Mais tarde, também trabalhei em conjunto com o Buffet Capristor, eu fazia as roupas dos clientes que eles tinham.

JC - Como a senhora descobriu o dom para a costura?

Guiomar - Desde criança, fazendo roupinhas de boneca. Eu gostava muito. Aos 15 anos, já fazia meus próprios vestidos. As amigas elogiavam, queriam igual e passaram a fazer propaganda. Comecei a costurar sozinha, ninguém me ensinou. Só fui fazer cursos quando já estava trabalhando.

JC - E quando a senhora começou a ganhar notoriedade na alta sociedade?

Guiomar - Em parceria com o Capristor, que era do Paulo Medina, eu adquiri uma clientela muito grande. Trabalhei uns dez anos com ele e depois fiquei só no meu ateliê, na quadra 5 da rua Primeiro de Agosto.

JC - O ateliê sempre funcionou no mesmo local?

Guiomar - Sempre no mesmo prédio. Comecei em um apartamento menor, depois precisei de mais espaço e passei para um maior, onde fiquei até quando parei de trabalhar. É nele onde moro hoje.

JC - Que tipo de roupa a senhora fazia?

Guiomar - A especialidade era noiva e debutante. Também fazia roupas para madrinhas e vestidos de gala. Roupa esporte não era meu estilo. Atendia a alta sociedade de Bauru e da região toda. Também cheguei a fazer roupas para outros estados, como Paraná e Mato Grosso. Aqui na cidade, costurei para todos os nomes conhecidos que você possa imaginar.

JC - A senhora pode citar alguns?

Guiomar - Não gostaria de citar, porque foi muita gente. Mas posso dizer que vesti todas as famílias da alta sociedade.

JC - Como era o dia-a-dia de trabalho?

Guiomar - Fazia muito vestido de noiva. Todo final de semana, eu pegava a estrada com um motorista e uma ajudante para vestir as noivas em outras cidades, no dia do casamento. Era muito cansativo, mas um compromisso que fazia questão de cumprir. Não cheguei a contar, mas acredito que fiz mais de 1 mil vestidos de noiva.

JC - Em quanto tempo a senhora produzia um vestido?

Guiomar - Tinha que ser tudo muito rápido, coisa de dias. Na época de desfiles, trabalhava com 18 funcionárias. Mas tinha uma meia dúzia que eram fixas, entre chefe de costura, bordadeiras e costureiras. Na época, contratei muita menina que estava começando. Formei muita costureira aqui em Bauru, graças a Deus. Foi através delas que meu trabalho deu certo.

JC - E como eram os desfiles que a senhora produzia?

Guiomar - Nossa, produzi muitos em conjunto com o Capristor. Fiz muitos no Automóvel Club, na Hípica, com roupas de todo tipo, modelos esportivos, de festa. Eu fazia uma coleção de 40 ou 42 modelos, as meninas provavam na véspera, fazíamos os últimos ajustes e, no dia seguinte, elas desfilavam. Era um trabalho grande e eu fazia três ou quatro desfiles por ano. Escolhia os temas e criava. Me inspirava muito nos desfiles de estilistas famosos que eu ia assistir na Capital.

JC - E a senhora também fazia roupas para as mulheres que iam assistir aos desfiles?

Guiomar - Sim. Em época de desfile, o trabalho era dobrado. Era cansativo, foram mais de 40 anos dedicados à moda, mas valeu a pena.

JC - A senhora chegou a vestir a apresentadora Xuxa?

Guiomar - Sim, mas naquela época, ela ainda não era famosa, era modelo em começo de carreira e vestiu uma roupa minha em um desfile em Birigüi. Além de modelos, eu vestia todas as misses de Bauru que iam competir no Miss São Paulo. Lembro que uma delas, inclusive, ficou em segundo lugar.

JC - Até o Clodovil elogiou uma roupa da senhora.

Guiomar - É verdade. Vesti uma moça no concurso da Mais Elegante Paulistana, em 1969, em São José do Rio Preto, e ela foi eleita a vencedora. O Clodovil era jurado e comentou, em um jornal da cidade, que foi uma das peças do desfile que ele mais gostou.

JC - A senhora deve guardar muitas histórias desses eventos e festas. Poderia contar uma delas?

Guiomar - Posso dizer que vi muitas histórias engraçadas. E muito luxo também, porque a grande maioria das festas era de famílias com muito dinheiro. Em um casamento, por exemplo, a noiva estava com uma grinalda toda cravejada de brilhantes, a coisa mais linda que eu já vi. Ela era filha de um médico e trouxe a tal grinalda no ateliê para provar com o vestido. E isso saiu no jornal: grinalda de brilhantes guardada no ateliê da Guiomar. Menina, foi um desespero! Levei a grinalda de volta para a noiva no mesmo instante e fiquei muitos dias com medo de alguém entrar lá para tentar roubá-la. (risos)

JC - A senhora tem vestidos daquela época?

Guiomar - Não, já desmontei o ateliê. Guardei muitas peças e acessórios por um tempo, mas no ano passado doei tudo para a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Bauru. Eles fizeram um leilão na Hípica, foi uma coisa muito bonita. Pelo menos, dei um destino nobre para as minhas roupas.

JC - E hoje não costura mais?

Guiomar - Só de vez em quando, para a família e amigos mais próximos. Nem para mim costuro muito. Ainda faço roupas que uso no dia-a-dia, coisas simples, mas já faz tempo que não costuro uma peça nova. Já para as sobrinhas e filhas das sobrinhas, não tem jeito: o vestido de noiva é sempre o meu presente de casamento. Mas as meninas mais novas não querem saber de casar.

JC - E parou de trabalhar quando?

Guiomar - Faz oito anos, por motivo de doença. Tive que me afastar para o tratamento de um câncer e, depois que me recuperei, resolvi me aposentar. Até então, estava trabalhando a todo vapor e foi um susto grande. Não esperava. Quase morri de tristeza, tive depressão, mas agora estou bem.

JC - A senhora ficou conhecida por seu sucesso profissional, entre as décadas de 1960 e 1970. Pode-se dizer que a senhora foi uma mulher à frente de seu tempo?

Guiomar - Acredito que sim. Quando eu tinha uns 35 anos, fui à Festa do Chapéu na (Sociedade) Hípica de Bauru vestida com um smoking com aplicação de rendas. Uma mulher vestida daquela maneira não era algo comum para a época. A roupa foi muito comentada, porque foi algo ousado.

JC - A senhora tinha esse perfil de ousadia?

Guiomar - Me vestia de maneira elegante, mas com simplicidade. Essa a marca registrada das minhas roupas. Elas chamavam atenção. Eram elegantes e, modéstia à parte, bem bonitas. Fiz o vestido de noiva da Fulô (Maria Aparecida Barbosa), em 1976, com uma mantilha (véu) toda bordada com strass importado. Foram publicadas fotos nas colunas sociais de todos os jornais. Ela ficou uma noiva linda.

JC - E como a senhora vê a moda de hoje?

Guiomar - A gente acompanha, mas as coisas mudaram muito. A alta costura perdeu muito espaço. Hoje, há muita moda pronta e de baixa qualidade. No Interior, a gente não encontra mais costureiros como naquela época. O que tem é roupa de aluguel e tenho horror a aluguel. Meus modelos sempre foram exclusivos e guardados a sete chaves, só a cliente e as costureiras tinham acesso às peças antes de ficarem prontas. Naquela época, tinha muita reunião, muitos jantares e festas e as madames não queriam, de maneira alguma, que houvesse algum modelo parecido com o dela nos eventos. Era uma disputa tremenda.

JC - E como ficou a vida pessoal com tanto trabalho?

Guiomar - Não tive filhos, não casei. Acredito que, em parte, foi por causa do trabalho, que ocupava muito o meu tempo. Passava madrugadas acordada cuidando dos vestidos. E também porque os pretendentes estavam mais interessados na minha posição social.

JC - Deve ter sido difícil ser uma mulher independente.

Guiomar - Os pretendentes eram muitos, mas não encontrei ninguém. Acho que, também, porque acabei não me apaixonando de verdade, só aquelas paixões da mocidade.

JC - A senhora ajudou a realizar o sonho de tantas noivas, mas optou por não se casar.

Guiomar - Sinceramente, acho que toda mulher deve se casar. Você é casada?

JC - Não, não sou. Guiomar - Você ainda é muito mocinha mas, se eu puder dar um conselho, não deixa de casar, viu? Não vale a pena porque, depois, é ruim viver só. Faz muita falta.

JC - A senhora não tem parentes em Bauru?

Guiomar - Meus pais já faleceram, mas tenho duas sobrinhas que moram no mesmo prédio em que eu. São elas que cuidam de mim e fazem o papel de minhas filhas. Com elas, divido a minha vida.

JC - A realização profissional compensou a ausência?

Guiomar - Compensou. Vim de família simples, minha mãe era dona-de-casa e meu pai, ferroviário. Tinha quatro irmãos e três já faleceram. Nasci em Catanduva e vim para Bauru com 11 anos, quando meu pai veio trabalhar na ferrovia. E foi com o meu trabalho, costurando meus vestidos, que conquistei tudo o que tenho. Gostava muito do que eu fazia.

JC - E ainda tem alguma coisa que deseja realizar?

Guiomar - Tenho vontade de ir para a Europa, mas só vontade. A minha profissão me deu estabilidade financeira e condições de manter um futuro tranqüilo. Fazia o que eu gostava, acho que por esse motivo tive tanto sucesso na profissão.

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