Buenos Aires - Na eleição em que os argentinos definem o novo mapa político do país, o protagonista de ontem foi outro: o vírus A (H1N1), a gripe suína. Com o avanço da doença no país (já são 1.587 casos e 26 mortes), imagens se repetiram pelos 13 mil locais de votação: eleitores e autoridades com máscaras, álcool em gel e esponjas para evitar uso de saliva ao fechar envelopes com votos.
Para reduzir o risco de contágio, o governo recomendou a organização de filas ao ar livre, com distância de um metro entre eleitores - recomendação ignorada nos locais de votação visitados pela reportagem em três cidades da Grande Buenos Aires.
A preocupação com a doença chegou a casos extremos: em General Roca, na Província de Rio Negro (sul), eleitores exigiram a substituição de uma presidente de mesa que apresentava sintomas de gripe.
Os argentinos renovaram ontem metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, além de Legislativos provinciais e municipais. Embora as eleições tenham ocorrido em todo país, as atenções se centraram na Província de Buenos Aires, a de maior peso eleitoral (37% dos votos). Ali o governo pôs em jogo todo seu capital político, com as candidaturas à Câmara do ex-presidente Néstor Kirchner e do governador Daniel Scioli. Também reforçou sua estratégia nas cidades pobres da região metropolitana de Buenos Aires, tradicional reduto peronista, para compensar provável derrota no interior.
Pesquisa da consultora Poliarquía apontou que enquanto o voto a Kirchner é associado à “defesa do modelo” (razão citada por 32% de seus eleitores), o voto a De Narváez se justifica pela representação da mudança (motivo dado por 41% de seus votantes).
A 20 km de La Matanza, o cenário muda. Em San Isidro, cidade da abastada zona norte da Grande Buenos Aires, já não se vê propaganda de Kirchner - os cartazes são do prefeito, aliado da União Cívica Radical, rival histórica do peronismo. Na porta do Colégio Nacional do município, a metros de campos de polo e golfe, o comerciante Guillermo Scianca, 58 anos, justificou seu voto no empresário De Narváez, herdeiro de R$ 315 milhões e aliado político do prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. “Ao menos não vai buscar dinheiro na política.”