Economia & Negócios

Brasileiro se perde mais em dívidas

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Cheque especial, cartão de crédito, empréstimos pessoais, financiamentos e crediário. De acordo com relatório do Banco Central, divulgado na última sexta-feira, o endividamento das famílias brasileiras atingiu o maior nível desde o início de 2004. As dívidas passaram a representar 34,8% da renda anual da população, em média. Em apenas dois anos, a taxa aumentou oito pontos percentuais.

Com o endividamento cada vez maior, o brasileiro começa a não conseguir mais saldar os compromissos assumidos e, dessa forma a inadimplência também começa a assustar. Dados divulgados pelo próprio Banco Central, na quinta-feira passada, apontam que a porcentagem de pessoas que não conseguem pagar todas as suas dívidas passou de 5,2%, em abril, para 5,5%, em maio, o maior nível desde setembro de 2000 (5,7%). A inadimplência corresponde ao percentual em atraso acima de 90 dias em relação ao total.

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Cássio Carvalho, afirma que esse aumento na inadimplência não tem, até agora atingido o comércio da cidade. Ele aponta que a maior parte dos consumidores - cerca de 90% - faz suas compras com cartões de crédito, o que, de certo modo, “blinda” o comércio de sentir os efeitos da inadimplência. “O problema deve estar nas mãos das financeiras, que assumem esse risco junto ao consumidor”, explica Carvalho.

O economista e professor de empreendedorismo, finanças e economia Adriano Fabri avalia que a atual situação de endividamento da famílias e do aumento na inadimplência é reflexo do que vem acontecendo no Brasil, há dois ou três anos. Ele afirma que os bons resultados registrados no passado, na economia do País, retirando o atual período de crise, foram puxados pela construção civil, setor automobilístico e de eletroeletrônicos, tudo o que promove o endividamento das pessoas a longo prazo.

“Um carro pode ser financiado, em média, em até 60 meses, construção civil chega a 36 meses e o setor de eletroeletrônicos tem loja que vende para se pagar em até 24 parcelas. São compromissos para se perder de vista”, explica o economista.

Fabri acredita que o brasileiro conseguiria fugir das dívidas e da inadimplência se desenvolvesse o hábito de seguir um controle orçamentário. Ele explica que as pessoas viveram um longo período com inflação de patamares assustadores, que não permitia qualquer tipo de planejamento. Dessa maneira, o hábito de fazer qualquer tipo de plano orçamentário foi deixado para trás. “O nosso modelo econômico é sustentado à base do endividamento da população”, frisa.

Crédito abundante

De acordo com o relatório do Banco Central, o aumento do endividamento e da inadimplência está associado ao desenvolvimento do mercado de crédito, que era incipiente anteriormente. Atualmente, o trabalhador pode ter quantos cartões de crédito quiser e fazer vários empréstimos em entidades diferentes, sem nenhuma restrição.

Fabri explica que o brasileiro tem por hábito incorporar o crédito, seja ele do cartão ou do cheque especial, ao seu rendimento mensal. “Ele gasta mais do que realmente ganha e, assim, gera esse endividamento sem fim e, em casos extremos, a inadimplência”, analisa. Fabri explica que não é porque tem-se o crédito que é necessário gastá-lo. É preciso ter em mente o quanto se ganha para pode gastar.

Edilson Luiz Adorno conta que mantém seu equilíbrio financeiro porque sempre tem em mente o que realmente pode gastar. “Fujo de empréstimos e cartão de crédito, cheque especial tenho, mas dificilmente entro no limite”, conta.

Já Marcelo Aparecido Andrade, confessa que está enrolado com as dívidas. Demitido devido à crise financeira mundial, ele já chegou à fase de dar prioridade para algumas contas. “Pagamos as contas de casa, como luz, água, farmácia e as compras. O restante, infelizmente, se paga se sobrar dinheiro”, conclui.

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Para fugir do problema, economista recomenda planejamento e disciplina

Para sair do endividamento e da inadimplência não existe fórmula mágica, avisa o economista e professor de empreendedorismo, finanças e economia Adriano Fabri. A melhor forma ainda é planejamento e disciplina para se cumprir o que foi determinado.

O economista lista quatro passos para quem deseja regularizar a situação. É necessário parar e analisar o quadro, fazer um levantamento do que se deve e ter em mente o quanto terá para começar a pagar. O segundo passo é um planejamento de como efetuar a quitação da dívida ou da inadimplência.

“Com a queda dos juros, vale a pena pesquisar junto às entidades financeiras aquelas que oferecem taxas mais atrativas. A portabilidade financeira permite que o trabalhador transfira suas contas para um banco ou entidade que ofereça taxas mais atrativas”, avisa.

O terceiro passo, segundo o economista, seria um rígido controle, uma planilha que ajude as famílias a não se perder no meio do planejamento, para que haja a certeza de que o que foi planejado está sendo cumprindo. O quarto e último passo é ter disciplina para cumprir o que foi planejado. “Se o planejamento foi feito para 12 meses, ele deve ser seguido à risca até o final”, avisa.

Fabri orienta que esse é um bom momento para se renegociar dívidas com entidades financeiras. A escolha por operações onde os juros cobrados são menores é o primeiro passo.

“A pessoa pode optar pelo empréstimo pessoal, onde os juros cobrados estão, em média, na casa de 4% ao mês. Dessa maneira, ele poderá quitar o cheque especial onde a taxa varia de uma instituição para outra de oito até 10% ou trocar os juros do cartão de crédito que gira em torno de 13% pelo do empréstimo pessoal”, orienta.

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