Tegucigalpa - A pressão pela volta de Manuel Zelaya ao cargo de presidente de Honduras aumentou ontem, quando líderes latino-americanos decidiram retirar os seus embaixadores da capital hondurenha, Washington chamou de ilegal a queda de Zelaya, e manifestantes saíram às ruas do país em protesto.
Manuel Zelaya foi derrubado do poder por um golpe militar no domingo.
Ontem, na capital hondurenha, a polícia lançou gás lacrimogêneo contra manifestantes pró-Zelaya, que atacavam com pedras. Duas dezenas de pessoas foram presas. Cerca de 1.500 manifestantes, alguns com máscaras, queimaram pneus do lado de fora do palácio presidencial.
Zelaya, político de esquerda, foi detido e enviado para o exílio na Costa Rica, por conta de um conflito sobre a possibilidade de ampliação do seu período como presidente. O golpe contra ele é a maior crise política na América Central em décadas.
Ontem, Zelaya chegou à Nicarágua para participar da reunião urgente da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba). Líderes de esquerda da América Latina, comandados pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciaram na reunião em Manágua, Nicarágua, que eles iriam retirar os seus embaixadores de Honduras em protesto contra o golpe.
Obama
Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou que seria um “precedente terrível” voltar a uma era de golpes militares. Segundo ele, a ação contra Zelaya “não foi legal”. O golpe é um teste para Obama, já que ele pretende melhorar a imagem dos Estados Unidos na América Latina.
“Está muito claro o fato de que o presidente Zelaya é o presidente democraticamente eleito”, disse Obama. Ele acrescentou que Washington vai trabalhar com a Organização dos Estados Americanos (OEA) e outras instituições internacionais “para ver se podemos resolver isso de maneira pacífica”.
Honduras, país pobre, de 7 milhões de habitantes, é grande produtor de café. Não há sinais de que a distribuição e as exportações de café sofrerão problemas, uma vez que portos e estradas permanecem abertos.
Zelaya é neochavista
Filho de fazendeiros, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya foi eleito em 2005 pelo tradicional Partido Liberal (centro-direita), que se reveza no poder com o Partido Nacional desde a redemocratização do país, em 1981. Dono de boa retórica, ele é conhecido pelos longos discursos, pelo inseparável chapéu de fazendeiro e pelo espesso bigode. Para se eleger, usou como plataforma o combate à violência e à corrupção.
Nas duas áreas, houve poucos avanços. Não faltam casos de corrupção envolvendo funcionários de seu governo, e a violência aumentou durante o seu governo, transformando Honduras num dos países mais violentos da América Latina.
Agrande diferença de Zelaya com relação aos presidentes anteriores começou com a aproximação com o venezuelano Hugo Chávez, principalmente a partir de 2008.
No ano passado, a entrada do país na Alba, bloco predominantemente de esquerda liderado pela Venezuela, teve o apoio inicial do Partido Liberal, que aprovou o ingresso no Congresso. A aproximação gerou uma generosa ajuda econômica a Honduras, como a doação de tratores. Por outro lado, a aproximação com Caracas coincidiu com práticas que lembravam o mandatário venezuelano: Zelaya passou a usar cada vez mais cadeias obrigatórias de rádio e TV em que, durante longas transmissões, criticava a elite.
Ele também passou a defender uma nova Assembleia Constituinte, repetindo governos de outros países da Alba, como Venezuela e Bolívia. O final do seu governo foi marcado por um isolamento dentro das fileiras do Partido Liberal, ao mesmo tempo em que passou a ter apoio das pouco relevantes organizações de esquerdas hondurenhas, simpáticas a Chávez e a outros governos de esquerda.
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Lula defende ‘isolamento’ de Honduras
Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou ontem o golpe de Estado em Honduras, disse que não reconhece o novo governo e determinou que o embaixador brasileiro em Honduras, Brian Michael Fraser Neele, não retorne ao posto.
Neele, que está em férias no Brasil, voltaria a Tegucigalpa nos próximos dias, mas o Itamaraty informou que, “à luz dos acontecimentos, por ora, o embaixador ficará’’.
Lula afirmou que reconhecerá apenas o governo de Manuel Zelaya, deposto por militares no dia em que promovia uma consulta para respaldar uma nova Assembléia Constituinte.
“Não tem contemporização, não tem meio termo. Nós não podemos aceitar ou reconhecer qualquer novo governo que não seja o presidente Zelaya, porque ele foi eleito diretamente pelo voto, cumprindo as regras da democracia”, afirmou. Lula disse que nenhum país da América do Sul pode admitir golpes militares, sob pena de que “vire moda outra vez.”
“Penso que todos os países da América do Sul, América Latina, México e Estados Unidos estão de acordo que não é possível aceitar isso.
A OEA também não aceita. É preciso o isolamento de Honduras enquanto não houver um presidente eleito democraticamente.”