Em meio a muita conversa, linhas, lãs e agulhas, um grupo de mulheres passa as tardes de segunda e quarta-feira fazendo tricô. Na era em que a maioria das pessoas reclama de falta de tempo e as atividades manuais estão cada vez mais raras, a técnica de entrelaçar os fios de maneira a criar uma malha é muito mais do que um passatempo ou uma forma de complementar a renda. Para muitas pessoas, trata-se de uma terapia que acaba movimentando o comércio de lãs.
Além de vender lãs e agulhas, produtos que todos os invernos ganham destaque nas lojas de armarinhos, esses estabelecimentos vêm oferecendo cursos de tricô para quem quer aprender ou se aperfeiçoar no artesanato. “No inverno aumenta em pelo 70% a procura pelos cursos de tricô, crochê e tear”, afirma Mônica Soubihe, supervisora de cursos de artesanato oferecidos numa loja de armarinhos de Bauru.
Além de ver o resultado do trabalho manual, quem participa do curso diz que a hora passa rápido no alegre bate-papo. O perfil de quem faz o curso é mulher da terceira idade, que encontra no artesanato dos fios uma forma de ocupar o tempo e esquecer os problemas. “Quando estou tricotando, fico concentrada. Para mim, é a melhor coisa, uma terapia. Quem faz isso não tem depressão nem nervosismo. Eu esqueço dos problemas. É muito bom”, conta Maria Ermínia Portoni Souza, 55 anos, aluna do curso de tricô.
A professora de artesanato Maria Elvira Caffeo Vigela concorda com a aluna e complementa. “A maioria não vende o que faz. Elas vêm (para o curso) ocupar o tempo, fazer uma terapia. É muito prazeroso. Eu venho, encontro as mulheres, elas me ajudam psicologicamente e eu as ajudo na profissão”, explica.
Embora o tricô possa ser uma forma de complementar o orçamento, das nove mulheres que freqüentavam a aula na tarde de ontem, nenhuma pretendia vender suas peças.
Maria Aparecida Francelose Nogueira, 54 anos, outra aluna do curso, conta que é uma satisfação pessoal e não uma fonte de renda. “Quando a peça está pronta é gostoso saber que fui eu que fiz. Eu faço mais no inverno, mas não vendo. Dou para minhas sobrinhas ou para minha mãe. Têm até amigas minhas que pedem para eu fazer alguma peça, mas eu não cobro”, diz.
Embora a terceira idade domine a atividade, o tricô também desperta o interesse dos mais jovens. Giovanna Castelo, 15 anos, começou as aulas nesta semana e disse estar adorando.
“Eu estou fazendo uma coisa diferente que antes eu não sabia. Eu acho legal fazer o que eu vou usar e não só comprar coisa pronta. Minhas amigas não fazem (curso de artesanato), mas já as convidei para vir”, contou a adolescente enquanto trançava os fios de lã em um pequeno tear.
Vigela acredita que a paixão pelos fios não tem idade. “É muito prazeroso para quem gosta, para quem tem amor à arte. Tem gente que se dá bem na pintura ou em outro tipo de artesanato. Eu gosto mesmo é de ficar entre os fios e as linhas”, finaliza.
Com o preço do novelo de lã variando entre R$ 7,00 e R$ 23,00, dependendo do tipo do fio, a venda de peças de tricô feitas manualmente não é muito atrativa. Em média, para fazer uma blusa para um adulto se utilizam dez novelos, o que acarretaria um preço final de, no mínimo, R$ 70,00.
“Para quem já tem o hábito de fazer as peças e tem clientes fiéis, pode ser que compense. No entanto, se a pessoa for comprar pronto na loja sai bem mais barato. Quem faz tricô, faz porque gosta e não pela venda porque a peça demora muito para ficar pronta e as pessoas também não têm paciência para esperar”, analisa Joana Aparecida Carlos, que tricota há mais de 20 anos e considera a atividade como um hobby.
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Origens do tricô
A técnica do tricô nasceu no Egito, onde o entrelaçamento dos fios era feito com a ajuda de ossos ou madeira. Os belgas levaram a técnica aos ingleses, onde as mulheres a desenvolveram para produzir meias e cachecóis que protegessem seus maridos e filhos no inverno.
Usavam fios de lã pura, que elas mesmas produziam. Por isso, até hoje o tricô está relacionado ao inverno, o que a tecnologia reinventou, levando-o também para as malhas de verão, através de fios leves e apropriados à estação.
O tricô pode também ser feito usando máquinas próprias chamadas de máquinas de tricô, o que também resulta num trama muito semelhante à malha manualmente tecida. No Brasil, as principais cidades no desenvolvimento da técnica são Socorro, localizada a 132 km de São Paulo; Monte Sião, localizada no Sul de Minas; e Jacutinga, também em Minas Gerais. (Fonte: Wikipédia)