Uma vez mais não noto o tempo passar. Tic-tac. O tempo não pára. Sinto-me mais próximo da morte. Hodiernamente, a fulcralidade de minha vida é ficar no leito hospitalar. Agulhas, soros, sangue. Ainda há coisa pior. Não consigo apressar-me. Vou lembrando de quando era jovem...
Com 16 anos, no 3.° colegial, sintia-me no meu inferno astral. Porém, não faltava um dia para ficar mais velho. Biologia, química, história, português. Vestibular? Era o assunto rotinal. Mas, mesmo com esses (des)acatos humanos, as pessoas me ouviam. Com 23 anos, agora, falo e não mexo a boca. Em coma há dois anos, a cada dia que passa eu acho que morro mais.
Médicos e familiares dizem à minha volta sobre a vontade de utilizar a eutanásia. Suplico-lhes que não desliguem os aparelhos. De nada adianta minha opinião. Escuto dizerem: “Pode desligar”. E, num ato de pavor, raiva e vontade de viver, grito: “Não!” Com esse ato, vem a surpresa. Ouviram-me. Eu me ouvi. Hoje, agradeço por ter conseguido me recuperar. Fico contente por viver cada momento intensamente. Afinal, poderá ser o último suspiro.
Carlos Vicentin - estudante