Política

Rodoanel facilitará acesso à Imigrantes

Por Fábio Zambeli | Da APJ especial para o JC
| Tempo de leitura: 8 min

Maior obra viária em andamento na América Latina, o Rodoanel deverá ser totalmente concluído em 2014, interligando 10 das principais estradas que ligam o Interior à região metropolitana de São Paulo. É o que prevê o secretário estadual dos Transportes, Mauro Arce, para quem o novo complexo viário que circunda a Capital desatará o nó do transporte urbano na ‘macrometrópole’. Para quem vai do Interior ao Litoral, o trecho sul do Rodoanel, que ficará pronto até janeiro, levará o motorista direto da rodovia Castelo Branco para o complexo Anchieta-Imigrantes, sem precisar passar pelas marginais, na Capital.

Em entrevista exclusiva à Associação Paulista dos Jornais (APJ), Arce fala da antecipação do prazo de entrega do trecho sul, orçado em R$ 4,18 bilhões, e do desafio de licitar e deixar prontos os projetos dos trechos leste e norte até o final da gestão do governador José Serra (PSDB) em 2010.

Com a conclusão do Rodoanel, serão interligadas as rodovias Castelo Branco, Raposo Tavares, Régis Bittencourt, Anchieta, Imigrantes, Ayrton Senna, Dutra, Fernão Dias, Anhanguera e Bandeirantes aliviando o tráfego pelas marginais do Tietê e Pinheiros e facilitando o escoamento de produção e o deslocamento para o Litoral.

O titular da pasta dos Transportes defende os pedágios e os programas de concessões como forma de assegurar recursos para a manutenção e expansão da malha viária. Para ele, a cobrança é um mecanismo que faz ‘justiça fiscal’. Veja a entrevista concedida:

Jornal da Cidade - Qual o impacto da conclusão do Rodoanel, em seu trecho sul, para o tronco rodoviário paulista, especialmente para o acesso do motorista que vai Interior ao Litoral e para o escoamento de produção via porto de Santos?

Mauro Arce - É um marco. O Rodoanel está sendo construído em partes. Quando o governo terminou, em 2002, o trecho oeste, ligando as rodovias Castelo Branco, Raposo Tavares e Régis Bittencourt, as pessoas deixaram de congestionar avenidas aqui de São Paulo e a gente já viu, então, um grande efeito. O segundo efeito se dará agora, quando se concluirá o trecho sul. Estamos agregando estas estradas que já citei a mais duas importantes: Anchieta e Imigrantes.

JC - Como se dará este alívio no tráfego?

Arce - Hoje todos os caminhões que vêm do Interior ou outros Estados que vão para o Litoral passam pela Marginal Pinheiros e para a avenida dos Bandeirantes. Estudos mostram que 46% dos veículos pesados vão deixar de circular nestas ruas. Tem veículo que traz carga especificamente para a cidade de São Paulo e a gente não tem como evitar isso. Mas o tráfego de passagem muda. E o percurso será feito de forma muito mais rápida. É preciso lembrar que a macrometrópole é responsável por 50% do movimento de carga do Estado. Ou seja, as cargas têm origem e destino esta macrorregião. Com o Rodoanel, estamos desatando este nó. Teremos ganho financeiro, economia de combustível, temos a redução da poluição.

JC - O cronograma do trecho sul será realmente antecipado? A entrega ocorre este ano?

Arce - O trecho sul tinha um cronograma que ia terminar no final de 2010. Foi feita uma mudança no contrato e esta data foi antecipada para 27 de março de 2010. O que estamos procurando é uma antecipação maior. Mas mesmo que terminássemos em março já seria uma antecipação de quase nove meses em relação ao cronograma original.

JC - O Rodoanel, em toda sua extensão, tem prazo de conclusão?

Arce - O governador (José Serra), é claro, não vai terminar no mandato dele. Mas a decisão dele é que a gente viabilize o trecho leste e o trecho norte. Seria possível, se os futuros governantes ajudarem, terminar o rodoanel inteiro, que são 170 km, até 2014, para a Copa do Mundo.

JC - O Rodoanel é a maior obra em andamento na América Latina, tem número superlativos. Qual a responsabilidade de comandar a execução de uma obra deste porte?

Arce - É uma obra extremamente complexa, tanto no envolvimento ambiental, pois passa pelas represas Billings e Guarapiranga, responsáveis por 50% do abastecimento de água da região metropolitana. Envolve muito cuidado em relação a isso. Estamos fazendo vários parques, alguns que a população vai poder usar. Outros parques simplesmente para preservar a mata atlântica. Eu diria que, se o Rodoanel tivesse sido feito antes, talvez a gente não tivesse tido tanta invasão, ocupações irregulares.

A outra dificuldade é que havia a obra, mas, do ponto-de-vista dos recursos, quando o governador assumiu, estavam previstos apenas R$ 250 milhões do Estado. Se contássemos só com este dinheiro, demoraríamos 15 anos para terminar. Então, houve um esforço muito grande. O governador saiu à frente para buscar recursos. Os recursos vieram não da venda Nossa Caixa, mas da venda da folha de pagamento dos servidores. Daquele pacote, R$ 1 bi veio para o Rodoanel. Mas a concessão do trecho oeste, que nos rendeu R$ 2 bilhões, divididos em 24 parcelas. E mais a participação do governo federal.

JC - E há recursos do PAC.

Arce - Esta obra entrou como obra do PAC, inclusive, com repasse R$ 1,2 bilhão, dividido em R$ 300 milhões por ano. O governador já conversou com o presidente (Lula) e já que vamos antecipar, o governo federal vai antecipar este pagamento. Eu diria que o governo federal está cumprindo o prazo, está pagando normalmente. É um valor importante, fundamental para que a gente possa concluir a obra.

JC - A obra do Rodoanel atinge regiões de mata atlântica. É uma obra que desmata, que agride o ambiente?

Arce - Em termos de compensação ambiental, a gente está oferecendo a mais em relação ao que está sendo retirado. Primeiro, porque tem muito eucalipto sendo retirado de lá, que é uma planta exótica, não é mata atlântica virgem, já foi bastante modificada. Temos 26 programas ambientais, tem parques. Tem parque no Embu e em Itapecerica que tinha até criação de porcos. Esse mito de dizer que lá é uma região virgem, você vai ver a quantidade de invasões se passar por lá.

JC - Os pedágios no Rodoanel teriam a meta de limitar o fluxo?

Arce - Os pedágios, de alguma forma, ajudam neste disciplinamento. De separar o que é cidade do que é estrada. O que não é possível fazer na Dutra, na Anhangüera, na Anchieta. Por que? Por viraram avenidas. Tem cidades em que o pessoal, para ir no hospital de determinado bairro, tem que pegar um percurso maior. Não tem que pegar. O prefeito tem que fazer uma avenida lá. Aí você tem esta confusão, que é terrível. E tem ainda os atropelamentos em estradas. Aí você constrói passarela e a pessoa continua passando por baixo.

JC - É senso comum dizer que as estradas paulistas são boas por causa do pedágio, que é caro. A qualidade da malha está diretamente ligada ao que se paga para trafegar?

Arce - O pedágio de São Paulo não é só para a estrada que você está andando. Estamos recuperando 12 mil quilômetros de rodovias municipais. Estamos recuperando 300 acessos, estamos ampliando estradas, as estaduais, as ‘SPs’, com que recursos? Com este recurso. Aí você diz: ‘mas já existe o IPVA’. Eu respondo: ele chama-se imposto sobre a propriedade de veículos, portanto, não é para andar, é para ter o carro. E parte deste imposto vai para o município também, 50%.

JC- Como o senhor avalia as comparações com as recentes concessões federais, que têm menores tarifas?

Arce - Quando se compara com a concessão federal, é um modelo totalmente diferente e o momento é diferente também. Há 11 anos atrás, quando foi feita a concessão da Anchieta-Imigrantes, não apareceu ninguém. Quando foi feita a Dutra, apareceu um consórcio formado por construtores de estradas, que tinham uma reserva de mercado. Hoje, você tem uma competição. Foi o caso da Ayrton Senna, em que houve redução do preço do pedágio agora.

JC- O governador Serra considera o Pró-Vicinais um dos programas mais importantes no sentido de estimular o desenvolvimento do Interior. Qual o desafio de dirigir este programa?

Arce - Hoje você tem 645 municípios e as prefeituras não têm recursos. Neste período a gente recebe muitos prefeitos. E o que acontece é que as fotos que eles trazem das estradas parecem todas iguais. Eram estradas que, às vezes, tinham pavimento. A aí tem o outro lado. Hoje, quando se faz queixa destas estradas, já nos procuram diretamente, o que mostra que as pessoas sentem que o Estado realmente assumiu. Agora, é uma assunção delegada, pois tem que fazer um convênio. Quem tem que cuidar da estrada são as prefeituras.

JC- O senhor recebe muita pressão, muito pedido de prefeitos, insatisfeitos com a exclusão de alguma estrada do programa?

Arce - A recuperação das vicinais, a gente vai fazer todas. Primeiro e segundo lotes já terminamos. O terceiro vamos fazer agora. Ah, se falaram que determinada estrada não foi contemplada, pode ficar tranquilo que vai ser.

Agora, pelo menos tem que pedir, né? Eu vou lá fazer se ninguém pediu? O que tem muito é pedido para pavimentar novas estradas. Porque tem 170 mil quilômetros de vicinais no Estado, sendo 12 mil asfaltados e o resto é de terra. E eles (prefeitos) gostariam que todas fossem asfaltadas. Mas isso seria um desastre, sob todos aspectos. Ambiental, manutenção. Porque uma estrada vicinal pode ser perenizada e só pavimentar num caso que exista um VDM alto.

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