Em razão do acelerado processo de desenvolvimento tecnológico na medicina, as emoções, crenças e valores do paciente ficaram em segundo plano. Sua doença passou a ser objeto do saber científico. O ato médico, portanto, se desumanizou, alerta texto da psicóloga Maria Cezira Fantini Nogueira-Martins, doutora em Distúrbios da Comunicação Humana (Unifesp). A saída para o problema, portanto, está no sentido contrário: na humanização.
A idéia vai muito além de apenas chamar a paciente pelo nome, ter um sorriso nos lábios e atender num ambiente acolhedor. Também é compreender seus medos, angústias, incertezas, dando-lhe apoio e atenção permanente. Humanizar ainda é atendimento fraterno e humano, além do respeito afetivo ao outro.
Alguns projetos de humanização vêm sendo desenvolvidos, há anos, em áreas específicas. Por exemplo, na saúde da mulher (humanização do parto) e na saúde da criança (Projeto Canguru, para recém-nascidos). Atualmente têm sido propostas diversas ações para implantar programas de humanização nas instituições de saúde, especialmente nos hospitais. Na assistência pediátrica, vários projetos e ações desenvolvem atividades ligadas a artes plásticas, música, teatro, lazer, recreação.
“Essa reumanização também pode se dar por meio da reeducação do profissional de saúde”, comenta o antropólogo da Unesp Cláudio Bertolli, que estuda o assunto e ministrará palestra sobre o tema no Rio de Janeiro. “A relação médico-paciente também é uma relação social. Ela nunca é equilibrada em forças. Quando o paciente vai ao médico, vai carente. É uma relação solitária. Está com um problema que o outro pode resolver. Está angustiado. E esse médico se tornou tão técnico que não consegue mais conversar com ele, não consegue mais, pelos menos parcialmente, satisfazer essa angústia existencial que toma o homem doente”, comenta.
Numa crise renal, recentemente Bertolli viveu na carne o que ele denominou como despersonalização do paciente no atendimento público. “Com relação à população mais pobre, ela é o que literalmente chamamos de paciente. Está nas mãos dos profissionais de saúde. Nem existe relação médico-paciente. Existe a relação entre o profissional de saúde e um corpo enfermo. O médico não pergunta idade, profissão, nada. Vai dialogar apenas com aquela parte enferma”, diz.