É com tristeza que acompanhei pela mídia um incêndio que estava destruindo o pantanal, no município de Cuiabá, o qual deverá trazer um grande prejuízo para a fauna e a flora da região.
Lembro-me de fato semelhante ocorrido em meados de 1960, quando fomos pescar em Porto Esperança.
Com a nossa chegada em Porto Esperança, ficamos hospedados no Rancho da Noroeste, sendo que a caravana era composta pelo Adelmo, Junior, Kenji, Ninca, Lela, Eurico, e o seu irmão Flávio.
De tarde, resolvi, após arrancharmos, descer de barco até a vendinha local, onde certamente iria encontrar outros colegas bauruenses. No caminho, parei no Rancho da Super Moto, no qual havia um tumulto. Curiosos, fomos até lá ver de que se tratava. Nesse dia, além do Elias e do Pedro, estava hospedado o pessoal da Polícia Rodoviária, e, naquele momento, tratavam de um tuiuiú que estava doente devido a uma infecção em uma das pernas causada por uma linha de pesca. Pacientemente, o pessoal tirava a linha e medicava o grande pássaro, além de alimentá-lo, pois estava muito fraco e debilitado.
Enquanto isso, nós conversamos sobre as novidades e os possíveis locais onde estariam os cardumes, sendo que depois, cansados, retornamos ao rancho onde ficaríamos.
Logo na manhã seguinte, fomos acordados pelo zelador do rancho, dizendo que um grande incêndio acontecia no Morro do Conselho até a divisa do Rio Novo, cerca de mil alqueires.
A tristeza logo se abateu em nós, já que nada poderíamos fazer contra essa força da natureza e decidimos não mais pescar naquele dia, e sim tentar salvar os animais que tentavam atravessar o grande rio, principalmente, os pequenos, fugindo do incêndio. Partimos para o Morro, e a surpresa agradável era que todo o pessoal de todos os ranchos já estava ali, com a mesma idéia. Nisso, salvamos muitos animais e aves. Estávamos absortos em nossa missão, quando alguém gritou que retornássemos à margem, pois uma onça pintada atravessava o rio com um filhote na boca. Imediatamente fomos até lá, com cautela para não assustar o grande felino. Nesse instante, subia pelo rio um barco de turistas, que se aproximava mesmo apesar dos nossos gritos para filmar o animal, que por instinto ou medo de perder o filhote acabou matando o mesmo e o abandonando ao sabor da correnteza.
Então, veio o pior, o pessoal queria justiça contra os turistas e, como sempre, por sorte, tem alguém de bom senso, no caso o Zé Maria e o Luiz da Bauru Pick-Up’s, que interferiram e serenaram os ânimos.
Com certeza, os turistas nunca mais foram vistos por aquelas bandas depois daquele dia. Quanto a mim, nunca mais retornei ao local, pois aquele incêndio jamais saiu da minha lembrança, deixando marcas profundas perante a ignorância do “Bicho Homem”.
Sérgio Andrade Moreira - Pescador e Contador de Histórias