Em discurso que teve um tom de despedida e cheiro de orégano, o presidente do Senado José Sarney citou Sêneca, o preceptor de Nero que, há quase dois mil anos, ensinou ao imperador combater “as grandes injustiças com o silêncio, a paciência e o tempo”. “O resto é silêncio”, foram as últimas palavras de Hamlet. Há um silêncio que o ruído abandonou. Os brasileiros assistem quietos e envergonhados o gotejar dos escândalos que envolvem a família Sarney e o Senado Federal. Shakespeare advertia que o silêncio dos povos deveria ser a lição dos reis. Há um silêncio aonde os sons não podem estar. Silêncio é a falta de ruído que acontece quando o barulho se acaba – e enquanto não recomeça. O Senado entra em recesso, um pouco tarde, mas terá que voltar em agosto, mês de desgosto e que já foi tão terrível para o destino de Getúlio Vargas e de Jânio Quadros. O primeiro suicidou-se e o segundo renunciou. Há quem vaticine que o PMDB começa a sentir o peso da mala sem alça a atrapalhar o seu apetite pantagruélico pelo Poder. Sarney não convém mais ao pragmatismo do partido, que sequer se comoveria com a velha retórica emprestada a Sêneca.
Drummond pontuava que “não é fácil ter paciência diante dos que têm excesso de paciência” (O avesso das coisas, 1902). Mais ou menos como ver alguém jogando paciência - aquele onde a pessoa joga cartas contra si mesma. E ainda assim roubam. Coisa imperdoável que nem o padre pode absolver. Sarney quer “tempo”, provavelmente porque “time is money”, um provérbio inglês conhecido desde 372 a.C. O PMDB já tem as desculpa para a saída honrosa do presidente do Senado. Ele irá se dedicar as suas memórias, como imortal das letras que já é. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis advertia que é um perigo matar o tempo; e o tempo nos enterrar. “Ó tempo, ó costumes” (Cícero, 106-43 a.C., in Catilinárias). Lula tem razão ao afirmar que “há bons pizzaiolos” no Senado. Como também tinha razão quando avaliou em 300, o número de picaretas na Câmara. Lula referiu-se não ao caso Sarney, mas à tentativa da oposição de investigar a Petrobras em uma CPI. Para o presidente, os múltiplos indícios de irregularidades levantados à administração da estatal não serão confirmados na CPI – logo, será mais uma a “acabar em pizza”, como tantas outras. Certamente, Lula é levado a esta certeza pelo fato da comissão processante ser constituída, majoritariamente por seus aliados. Lula pode não ter obedecido à liturgia do cargo, mas falou a verdade. Aliás, esta frase foi cunhada pelo próprio Sarney no tempo em que criticava o presidente. Hoje é seu aliado preferencial.
O comando do Conselho de Ética que vai examinar as denúncias contra Sarney, após o recesso parlamentar foi entregue ao obscuro senador fluminense Paulo Duque (PMDB), indicado pelo chefe da tropa de choque que defende Sarney, o notório alagoano Renan Calheiros, também peemedebista. Pelo regimento, cabe ao presidente da comissão a prerrogativa de até mesmo se recusar a receber as denúncias – o que equivale, em tese, a um pré-julgamento. Lula confia em “bons pizzaiolos”. Falta apenas pedir desculpas à categoria dos que trabalham junto nos fornos à lenha assando as redondas. Os verdadeiros fazedores de pizza estão ofendidos com a comparação.
Toda esta barafunda a que os brasileiros assistem em silêncio, mas estarrecidos, lembra muito uma história vivida por Jô Soares num restaurante de Hamburgo, na Alemanha. Almoçava como seu pai e conversavam em português quando dele se aproximou o garçom: “Ah! Brasileirrras! Sodachii do Brrasil”. O garçom contou que havia trabalhado no nosso país e tinha tantas saudades que planejava voltar. Jô Soares perguntou se ele não estaria melhor na Alemanha, ganhando muito mais, num país de primeiro mundo... O alemão disse que mesmo assim queria voltar ao Brasil. “Sodadchiii!” Jô insistiu nos detalhes, teria o garçom deixado alguma namorada no Rio para ter tantas saudades? “Non, non, vai com meu mulher. Tenho sodadchii do esculhambaçom.”
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC