De olho em regiões mais críticas do Estado, a Secretaria de Saúde lançou uma ofensiva para combater a mortalidade infantil. Em fase de implantação no pólo de Sorocaba, o projeto será estendido imediatamente ao Vale do Paraíba, região de Bauru, Vale do Ribeira e Baixada Santista. Em 2010, o plano será expandido para todo o Interior.
Serão contempladas três etapas: o diagnóstico da rede de maternidades, os reparos físicos (como reformas e ampliação de leitos de UTIs Neonatais) e compra de equipamentos e a capacitação de 500 enfermeiros e médicos, com investimento de R$ 850 mil.
Em entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ), a médica sanitarista Tânia Lago, coordenadora do Programa de Saúde da Mulher da Secretaria da Saúde, detalha o cronograma do projeto e descreve os principais obstáculos encontrados na disseminação de uma cultura de atenção ao período pré-natal.
“Não existe meta. Qual é o desejo? É trazer a média da mortalidade infantil para menos de 10. Mas não queremos que ela continue somente caindo nas regiões mais desenvolvidas. Queremos reduzir a média da mortalidade infantil fazendo-a cair exatamente nas regiões onde ela é mais alta.”
Para Tânia, a ação do Estado tem um caráter essencialmente social. “Encontramos sub-regiões onde há subdesenvolvimento social e humano. As relações entre o poder público são bastante distantes. O poder público está muito distante das necessidades sociais das pessoas. Há relações culturamente muito conservadoras. As relações entre homens e mulheres são desiguais. E há também distanciamento grande, um abismo social.”
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Pergunta - Em que consiste o projeto?
Tânia Lago - Em primeiro lugar, fazemos uma avaliação das principais maternidades de cada região para identificar naquelas que são estratégicas as que têm maior volume de partos, que atendem mais de um município e que são referência para alto risco. Quais são os principais problemas para que ela tenha uma melhoria na qualidade da atenção. Verificar se existem problemas estruturais, na área física, de logística e equipamentos. E também quanto ao processo de trabalho, desde protocolo para funcionar bem até a habilidade de médicos e enfermeiros para atender.
Pergunta - Esta primeira etapa é feita pelos técnicos da secretaria?
Tânia - Vamos para lá com as equipes regionais, fazemos uma visita. É todo um trabalho de avaliação. E, identificados os problemas, há diferentes caminhos. Desde fazer a adequação de área física, que aí apresentamos à secretaria, que vai providenciar as reformas.
Pergunta - E, a partir daí, começa a fase de treinamento?
Tânia - O terceiro componente é a capacitação. Consiste em fazer este curso, Also, para enfermeiras, obstetras que atuam nestas maternidades. Oferecemos vagas para todos os que trabalham, mas não podemos obrigar. Temos conseguido adesão de 80% a 90%. É um curso reconhecido internacionalmente e tem uma prova que garante ou não o certificado. São 16 horas.
Pergunta - Que tipo de ensinamento é transmitido a estes profissionais?
Tânia - É como se fosse uma linha de produção. E em cada uma delas há um manequim simulando uma emergência obstétrica. Existe naquela sala tudo o que o médico ou o enfermeiro poderia usar naquela situação. É uma simulação. E aí, em cada sala, há um ou dois instrutores que vão observar o desempenho do profissional e vão corrigir. Em cada estação é demonstrado o que é correto fazer e ao final disso há uma prova com situações semelhantes e é verificado o que foi absorvido por cada profissional, desde o conhecimento até mesmo a habilidade prática que envolve os procedimentos.
Pergunta - Quando será possível aferir os resultados práticos?
Tânia - Existem experiências relatadas nos EUA que demonstram que muda todo o relacionamento no hospital nesta área. Em Sorocaba, metade dos médicos foi capacitada em novembro e o restante no início do ano. Ao longo deste ano é que vamos começar a observar mudanças.
Pergunta - Este projeto será estendido a outras regiões do Estado?
Tânia - Nós queríamos ter concluído no primeiro semestre as regiões prioritárias para podermos expandir para outras regiões no segundo semestre. O limite foi o número de vagas que este curso Also tem para nos oferecer. Eles não têm mais calendário, então estamos reservando treinamentos para 2010.
Pergunta - Também haverá algum tipo de esforço na informação das gestantes?
Tânia - Estamos preparando carteiras para gestantes. Não é algo complexo, é curto e grosso. Deve ter um espaço para que se registre no serviço de saúde tudo o que foi feito com a gestante. E haverá um espaço de informações úteis para ela. As dúvidas mais recorrentes das mulheres, se pode colocar tinta no cabelo, se trabalhar, esforço físico, relação sexual etc. E outra folhinha com alertas. Sinais de alerta do parto ou de que algo não vai bem com ela ou com o bebê. Esse é o conjunto de informações que queremos reunir nesta caderneta da gestante.
Pergunta - Quais os problemas que são determinantes nos locais onde a taxa de mortalidade é maior?
Tânia - Há uma questão de pouco desenvolvimento social e humano. Mais isso do que econômico. Nestas regiões, encontramos sub-regiões onde há subdesenvolvimento social e humano. As relações entre o poder público são bastante distantes. O poder público está muito distante das necessidades sociais das pessoas. Há relações culturamente muito conservadoras. As relações entre homens e mulheres são desiguais. E há também distanciamento grande, um abismo social.
Pergunta - E nestas localidades há mais dificuldade em desenvolver o trabalho preventivo?
Tânia - Este é um contexto em que uma política pública tem muita dificuldade em ser bem-sucedida. Os serviços públicos tendem a olhar para os mais pobres com preconceito. E isso dificulta o acesso às pessoas, implica em atendimento menos atencioso e menos qualificado. Se gera um contexto de carência e pouca chance de resposta àquelas demandas. E os serviços de saúde têm muitas carências. Serviços pobres feitos para pobres.
Pergunta - A senhora acredita que, a partir deste conjunto de medidas, será possível fazer chegar esta informação às mulheres, principalmente?
Tânia - Vamos pôr o pé no chão. O programa é tudo que conseguimos imaginar como ação de Estado para mexer neste problema. Mas, se a sociedade não se mobilizar, ele alcançará resultados, mas com limite. Será preciso que a sociedade local se mobilize e cobre ativamente resultados.
Pergunta - A taxa de mortalidade infantil pode ser considerada hoje o indicador mais relevante de desenvolvimento humano de uma região?
Tânia - É, acompanhado do indicador de mortalidade materna. E nestas cinco regiões há a coincidência de termos maior taxa de mortalidade infantil e materna. Os resultados são melhores onde há mais desenvolvimento social e humano e também melhores serviços de saúde. As coisas andam juntas. É muito difícil levar médicos e enfermeiros para sociedades muito atrasadas. Então, você acaba acumulando problemas. Os problemas se potencializam.
Pergunta - São as cidades menores que têm mais dificuldades?
Tânia - Sim, os menores são onde os problemas aparecem mais. A exceção neste quadro é a Baixada Santista.
Pergunta - A secretaria tem uma meta de redução das taxas de mortalidade?
Tânia - Não existe meta. Qual é o desejo? É trazer a média da mortalidade infantil para menos de 10. Mas não queremos que ela continue somente caindo nas regiões mais desenvolvidas. Queremos reduzir a média da mortalidade infantil fazendo-a cair exatamente nas regiões onde ela é mais alta.